Análise Política da Semana

Rui Costa Pimenta: PT caminha para ocupar o lugar do PSDB

Presidente do PCO analisou a aproximação dos petistas com os tucanos, o avanço da censura, a guerra contra o Irã e a situação eleitoral

A declaração de Fernando Haddad em defesa de um PSDB forte revela uma mudança profunda no Partido dos Trabalhadores. Essa foi uma das principais discussões feitas por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência, na edição deste sábado (25) da Análise Política da Semana.

O programa, transmitido todos os sábados pela Causa Operária TV (COTV), também tratou das novas medidas de censura, do endurecimento da legislação penal, das eleições, da guerra contra o Irã, das ameaças de repressão contra a esquerda e da campanha de desmoralização do futebol brasileiro.

Censura ganha força no governo Lula

Pimenta iniciou o programa tratando da chamada Lei Felca, que estabelece mecanismos de verificação de idade e amplia as obrigações das plataformas digitais sobre conteúdos publicados por seus usuários.

Uma das medidas criticadas pelo dirigente é a possibilidade de retirada de publicações após uma simples notificação, sem decisão judicial prévia. A proteção de crianças e adolescentes, afirmou, serve de justificativa para entregar às empresas privadas o poder de censurar os usuários.

A medida se soma a outras iniciativas repressivas, como a Lei Antiterrorismo, aprovada durante o governo Dilma Rousseff, a legislação sobre organizações criminosas e o aumento das penas para diversos crimes.

“O que nós vimos é que o governo Lula deu um grande salto adiante nessa política repressiva. Um governo de esquerda adotou a política da direita de combate ao crime, uma política demagógica e profundamente reacionária. Isso acontece em um país onde a Polícia Militar mata 6 mil pessoas por ano e já realizou diversas chacinas nas comunidades pobres a pretexto de combater o crime organizado.”

O resultado, destacou Pimenta, será sentido principalmente pelos trabalhadores, desempregados e jovens pobres. O endurecimento penal apresentado como combate às grandes organizações criminosas acaba ampliando o encarceramento da população mais pobre.

O dirigente também criticou a adaptação eleitoral da esquerda ao discurso da direita sobre segurança pública. Fernando Haddad, candidato ao governo paulista, passou a apresentar a repressão ao crime como um dos pontos centrais de sua campanha contra Tarcísio de Freitas.

Regime político não pode ser intocável

Outro tema abordado foi a reação de setores da esquerda aos questionamentos de Flávio Bolsonaro sobre as urnas eletrônicas. Integrantes do PT chegaram a defender o cancelamento de sua candidatura.

Pimenta considerou absurda a tentativa de proibir qualquer discussão sobre o sistema eleitoral. Discordar dos bolsonaristas, afirmou, não autoriza a transformação das urnas, do Supremo Tribunal Federal ou de qualquer outra instituição em objetos acima de toda crítica.

“Se você acha que o questionamento que Bolsonaro fez às urnas eletrônicas não é válido, você critica o posicionamento de Bolsonaro. Você não transforma a defesa das urnas eletrônicas em um item sagrado da política nacional. Se você acha que determinada eleição não deve ser questionada, você discute aquela eleição. Não se pode estabelecer como princípio eterno que ninguém, em situação alguma, poderá questionar as eleições.”

O presidente do PCO lembrou que a Constituição de 1988 já sofreu numerosas modificações e que o próprio Congresso pode alterar as regras eleitorais e os poderes das instituições. O partido, acrescentou, defende a extinção do Supremo Tribunal Federal como Corte Constitucional e foi incluído no inquérito das chamadas notícias falsas por sustentar essa posição.

O PT, segundo Pimenta, mantém uma posição conservadora diante do regime político brasileiro. Ao contrário do que ocorreu na Venezuela e na Bolívia, onde governos nacionalistas convocaram assembleias constituintes e modificaram instituições herdadas das oligarquias, os governos petistas preservaram o aparelho político existente e ainda reforçaram seus mecanismos de repressão.

Haddad elogia o partido das privatizações

A declaração de Fernando Haddad em favor da recuperação do PSDB ocupou a parte central do programa. O dirigente petista apresentou os tucanos como uma direita supostamente civilizada, diferente do bolsonarismo.

Pimenta lembrou que o governo Fernando Henrique Cardoso reprimiu duramente a greve dos petroleiros de 1995. O PSDB também dirigiu a campanha pelo golpe de Estado contra Dilma Rousseff, consumado em 2016.

Além da repressão política, os tucanos promoveram a maior onda de privatizações da história do País. Vale do Rio Doce, Telebrás, empresas de energia elétrica e partes da Petrobrás foram entregues ao grande capital.

“O governo FHC assumiu em 1994 e passou a liquidar a economia nacional. Entregou as empresas estatais, o que ocasionou entre 500 mil e 1 milhão de demissões de trabalhadores especializados. Houve uma destruição da economia por meio da privatização: o capitalista diminui ao máximo a força de trabalho, intensifica a exploração, sucateia o serviço e cobra o olho da cara dos usuários.”

A privatização também transformou antigas empresas públicas em instrumentos de envio de dinheiro para o exterior. Pimenta citou a antiga Eletropaulo, hoje controlada pela italiana Enel. A empresa cobra tarifas elevadas, reduz o número de funcionários, presta um serviço precário e remete seus lucros para a matriz.

A política de Fernando Henrique Cardoso acelerou ainda a desindustrialização. Segundo Pimenta, mais de 30% da indústria nacional foi destruída desde a adoção da paridade entre o real e o dólar e das medidas de abertura econômica do período.

O elogio de Haddad, portanto, não pode ser separado do papel exercido pelo PSDB na entrega do patrimônio nacional e na destruição de empregos.

“Eu não acredito que essa declaração de Haddad seja apenas uma declaração impensada. Acho que setores do PT, e a liderança do PT em particular, estão se propondo a ser aquilo que o PSDB foi no passado. Há uma tendência muito forte de o PT se constituir como o novo PSDB, um pouco mais moderado na política econômica, mas, em grande medida, um novo PSDB.”

PT se entrelaça com a direita tradicional

A composição política preparada para as eleições paulistas reforça essa tendência. Haddad aparece acompanhado de Márcio França, antigo integrante do PSDB. Para o Senado, são mencionados nomes como Simone Tebet e Marina Silva. Geraldo Alckmin, um dos maiores dirigentes tucanos, ocupa a Vice-Presidência da República.

Segundo Pimenta, o combate ao bolsonarismo permitiu ao PT ampliar seus acordos com setores da burguesia que antes se agrupavam em torno do PSDB. O que inicialmente poderia parecer uma aliança eleitoral passou a orientar toda a atuação do partido.

Essa aproximação ameaça o equilíbrio que sustentou o PT durante décadas. O partido conserva influência entre os trabalhadores e controla os maiores sindicatos do País por meio da CUT, mas sua direção, suas bancadas e seus governos são dominados por integrantes da classe média e da burguesia.

Os gastos do governo mostram para qual classe se dirige a maior parte de sua política. Pimenta comparou o rigor imposto aos beneficiários do Bolsa Família com a facilidade encontrada pelos empresários para receber dinheiro público.

“O governo faz um pente-fino no Bolsa Família e estabelece cláusulas para que o cidadão, se ganhar um pouco mais por mês, perca o benefício. Já o exportador recebe R$ 18 bilhões sem as mesmas exigências. O pobre, para receber R$ 600, quase tem de deixar um olho no guichê do Bolsa Família.”

Os R$ 18 bilhões destinados aos exportadores superam um mês inteiro de pagamentos do Bolsa Família. Enquanto os trabalhadores precisam provar repetidamente que permanecem dentro dos critérios do programa, os capitalistas recebem subsídios sem exigências equivalentes.

Sem Lula, considerado por Pimenta o principal elo entre o PT e os trabalhadores, a predominância de dirigentes como Haddad pode acelerar a perda da base operária do partido.

Lula não consegue abrir vantagem

O desgaste do petismo aparece nas pesquisas eleitorais. Mesmo sob ataques constantes da imprensa burguesa, Flávio Bolsonaro permanece próximo de Lula.

Pimenta citou pesquisa Datafolha que apontaria uma diferença de cinco pontos entre os dois, com margem de erro de três pontos. O dado indica uma disputa apertada apesar da campanha dos principais jornais para enfraquecer a candidatura bolsonarista.

“Em todas as pesquisas, Flávio Bolsonaro oscila e Lula não sai do lugar. Em grande medida, Lula canaliza um voto antibolsonarista. Sem esse voto, perderia a eleição. Isso alimenta o sonho da terceira via e mostra a fragilidade da candidatura de Lula. O PT vem perdendo lastro político e já não consegue despertar expectativa ou esperança entre os trabalhadores.”

Grande parte do voto petista assumiu um caráter defensivo: vota-se em Lula para impedir a vitória do bolsonarismo. Outra parcela depende do aparato federal, estadual, sindical e partidário acumulado pelo PT.

O bolsonarismo, por sua vez, continua sendo o movimento mais ativo da política nacional. Partidos como União Brasil, Republicanos e PP possuem dinheiro, cargos e máquinas eleitorais, mas não contam com uma mobilização popular comparável.

EUA mobilizam governos árabes contra o Irã

No bloco internacional, Pimenta analisou a retomada dos ataques norte-americanos contra o Irã. Os Estados Unidos dependem de bases, governos aliados e territórios de vários países do Oriente Médio para manter a guerra.

Arábia Saudita, Cuaite, Emirados Árabes Unidos, Barém, Jordânia e Síria aparecem de diferentes formas na ofensiva. Bases norte-americanas instaladas nesses países servem para ataques e operações contra os iranianos.

“A primeira coisa que deve chamar a atenção é que são vários países em guerra contra o Irã. Os Estados Unidos estão arregimentando os governos proimperialistas do Oriente Médio porque, sem o apoio desses governos, não conseguiriam manter a guerra. Isso precisa ser destacado para mostrar também o tamanho da resistência iraniana à agressão imperialista. Sozinhos, os Estados Unidos não seriam capazes de fazer o que estão fazendo.”

Pimenta chamou atenção para uma declaração da Guarda Revolucionária Iraniana, que agradeceu a militares jordanianos pelo fornecimento de informações usadas em um ataque contra uma base dos Estados Unidos. O episódio pode revelar divisões dentro das próprias forças armadas dos países aliados de Washington.

A participação desses governos também entra em choque com o sentimento de suas populações. O apoio à Palestina e ao Irã é amplo nos países árabes, enquanto reis, emires e ditaduras militares colaboram com “Israel” e os Estados Unidos.

Imperialismo ameaça incluir a esquerda entre os ‘terroristas’

Pimenta comentou ainda uma declaração de Marco Rubio sobre um suposto “terrorismo da extrema esquerda” no Ocidente.

O secretário norte-americano apontou organizações antifascistas, movimentos ligados à tradição revolucionária e setores solidários à Palestina como possíveis alvos da política antiterrorista.

“O que aparece é uma política do imperialismo norte-americano, do imperialismo europeu e do imperialismo em geral para incluir toda a esquerda no pacote antiterrorista. Muita gente pode pensar que seriam apenas os grupos que ingressaram na luta armada. Não. Quem se declara revolucionário, mesmo sem participar de luta armada, poderá ser tratado como terrorista em potencial.”

A perseguição aos movimentos de defesa da Palestina na Europa mostra que a ameaça já está em curso. No Reino Unido, a Ação Palestina foi classificada como organização terrorista.

No Brasil, o Ministério Público enviou aos partidos uma recomendação para investigar antecedentes, patrimônio e possíveis vínculos de pré-candidatos com organizações criminosas. Também exigiu que as direções partidárias informem suspeitas descobertas após o registro das candidaturas.

Para Pimenta, a medida procura transformar os partidos em investigadores de seus próprios filiados e abre caminho para impedir candidaturas com base em suspeitas, sem condenação judicial.

Esquerda argentina foge dos fatos

Na parte final do programa, Pimenta comentou a reação da imprensa e da esquerda argentinas às denúncias sobre a seleção do país na Copa do Mundo.

Artigos publicados pelo Prensa Obrera e pelo Izquierda Diario atribuíram as críticas a uma campanha imperialista, ao conflito pelas Ilhas Malvinas ou a preconceitos contra a Argentina. Os fatos ocorridos durante a competição ficaram em segundo plano.

Os jornais não explicaram o favorecimento da arbitragem, a violência dos jogadores argentinos, as provocações da torcida nem os episódios racistas contra brasileiros e outros povos.

Pimenta também lembrou que clubes argentinos não vencem a Libertadores desde 2018. Os times brasileiros conquistaram todas as edições posteriores, o que desmente a campanha de que o futebol brasileiro estaria morto.

A propaganda em torno de Lionel Messi faz parte do mesmo ataque. Alfredo Di Stéfano, Omar Sívori, Diego Maradona e Messi foram apresentados, em diferentes épocas, como jogadores superiores a Pelé.

“Esses jogadores argentinos foram transformados em melhores do mundo pela máquina publicitária europeia. Pelé não, porque nunca jogou fora do País, a não ser quando foi para o Cosmos depois de se aposentar. Pelé era jogador do Santos, do futebol brasileiro. Esse negócio de melhor do mundo é um golpe publicitário do futebol europeu, italiano e espanhol.”

Pimenta destacou a Seleção Brasileira de 1958, formada por Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Djalma Santos, Bellini, Vavá, Zito e outros grandes jogadores. O time conquistou a primeira Copa do Mundo do Brasil e reuniu alguns dos maiores nomes da história do futebol.

A desvalorização dessa geração, assim como os ataques atuais contra a Seleção e Neymar, parte principalmente da burguesia e de setores da classe média brasileira. Durante a Copa, apesar da campanha da imprensa, a população acompanhou e apoiou em massa a equipe nacional.

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