Kozo Okamoto morreu na quinta-feira (23), no Líbano. Integrante do Exército Vermelho Japonês, ele deixou seu país ainda jovem para combater ao lado da Resistência Palestina contra a ocupação israelense.
Entre os palestinos, era chamado de Ahmad al-Iabani, “Ahmad, o japonês”. O primeiro nome foi adotado após sua conversão ao islamismo. O segundo identificava sua origem e a condição incomum de um japonês incorporado à luta pela libertação da Palestina.
Okamoto nasceu em 1947, na província de Cumamoto, no Japão. Estudava botânica quando ingressou na atividade política e se aproximou do Exército Vermelho Japonês, organização marxista-leninista que defendia a derrubada da monarquia e do governo japonês.
Fundado no início da década de 1970, o grupo estabeleceu sua principal base de operações no Líbano. Seus integrantes receberam treinamento e armamento da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), além do apoio de organizações palestinas e libanesas.
O Exército Vermelho Japonês passou a atuar diretamente contra interesses do imperialismo na Ásia e no Oriente Médio. A aliança com a FPLP levou seus combatentes a participar da luta armada contra “Israel”, muito além dos objetivos políticos inicialmente anunciados para o Japão.
O governo japonês respondeu com uma perseguição que atravessou décadas. Dezenas de integrantes foram presos. O Japão e os Estados Unidos incluíram o grupo em suas listas de organizações terroristas e mantiveram a busca por antigos militantes mesmo depois de sua dissolução, em 2001.
A operação de al-Lida
O nome de Okamoto passou a ser conhecido internacionalmente em 30 de maio de 1972. Naquele dia, ele e outros dois integrantes do Exército Vermelho Japonês desembarcaram no aeroporto de al-Lida, posteriormente rebatizado pela ocupação israelense como Aeroporto Ben Gurion.
Os três chegaram em um voo procedente de Roma, na Itália. Dentro de estojos de violino, transportavam fuzis de fabricação tcheca e granadas.
Os agentes israelenses procuravam principalmente por palestinos. Por serem japoneses, os combatentes atravessaram a fiscalização e alcançaram a área de espera. Depois de retirar as armas dos estojos, iniciaram a operação.
O confronto deixou 26 mortos, entre eles oito colonos israelenses. Um deles era Aharon Katzir, apontado como possível candidato à Presidência de “Israel”. Após sua morte, seu irmão, Ephraim Katzir, ocupou o cargo em 1973.
Não foi determinado quantos morreram pelos disparos dos integrantes do Exército Vermelho Japonês. Parte das vítimas pode ter sido atingida durante o tiroteio iniciado pelos agentes armados presentes no aeroporto.
Dois militantes japoneses morreram na ação. Okamoto foi baleado e preso quando tentava deixar o terminal.
Treze anos nas prisões israelenses
Um tribunal militar condenou Okamoto à prisão perpétua. Ele ficou encarcerado por 13 anos, até ser incluído em uma grande troca de prisioneiros negociada pela Resistência Palestina.
Em 1985, a Frente Popular para a Libertação da Palestina — Comando Geral entregou três soldados israelenses capturados durante a invasão do Líbano, em 1982. Em troca, “Israel” libertou 1.150 prisioneiros.
A negociação ficou conhecida como Acordo Jibril, em referência a Ahmed Jibril, fundador e dirigente da organização palestina responsável pela captura dos soldados.
Também foram libertados Ahmed Iassin, que mais tarde fundou o Movimento de Resistência Islâmica, o Hamas, e Ziad al-Nakhala, atual secretário-geral da Jiade Islâmica Palestina. Muitos dos prisioneiros soltos em 1985 participaram da preparação e da direção da Primeira Intifada, iniciada em 1987.
Libertado, Okamoto seguiu para o Líbano e passou a viver no Vale do Becá. Permaneceu ligado às forças que haviam garantido sua saída das prisões israelenses.
O Japão exigia sua extradição
Em 1997, as autoridades libanesas prenderam Okamoto e outros quatro antigos integrantes do Exército Vermelho Japonês. Eles foram acusados de usar documentos falsos e de violar as regras de permanência no país.
Os outros quatro foram entregues ao governo japonês. Okamoto permaneceu no Líbano e recebeu a condição de refugiado político. A decisão impediu sua extradição para o Japão, que continuava a persegui-lo pela operação de al-Lida.
Protegido pelas forças palestinas e libanesas com as quais havia combatido, Ahmad al-Iabani viveu no Líbano até morrer, em 23 de julho de 2026.



