Agora que as eleições se aproximam, as declarações esdrúxulas começam a se multiplicar. Uma das mais repetidas é a conversa mole, difundida pelo PT e pelo próprio Lula, de que Fernando Henrique Cardoso era um democrata exemplar e de que o PSDB teria desempenhado um papel decisivo na consolidação da democracia brasileira. Ainda que indiretamente, esse discurso ajuda a alimentar a campanha promovida pela grande imprensa de que FHC foi um grande estadista, responsável por salvar o país da inflação graças ao Plano Real. É preciso dizer com todas as letras que isso é uma falsificação.
A realidade é que FHC deixou um legado de destruição econômica cujos efeitos negativos persistem até hoje. A lista de medidas que comprometeram o desenvolvimento nacional é tão extensa que seria impossível abordá-la em um único texto, motivo pelo qual essa será uma série de textos sobre a destruição provocada. Comecemos por alguns dos principais desastres promovidos por esse governo.
Um dos temas mais discutidos atualmente é a desindustrialização brasileira. Esse processo não surgiu por acaso. Um de seus marcos foi a Emenda Constitucional nº 6, de 1995, proposta por FHC, que extinguiu a diferenciação legal entre empresa de capital nacional e empresa de capital estrangeiro. Na prática, isso destruiu um importante instrumento de política industrial que facilitava os incentivos e investimentos nas empresas nacionais, enquanto corporações estrangeiras — frequentemente apoiadas por subsídios e políticas industriais de seus próprios países — passaram a disputar o mercado brasileiro em condições muito mais favoráveis.
O resultado foi uma enxurrada de empresas estrangeiras em diversos setores, aprofundando a desnacionalização da economia e acelerando a perda da capacidade produtiva do país. A consequência nefasta foi que entre 1995 e 2002, cerca de 600 mil empregos industriais desapareceram. Mas esse foi apenas o efeito mais imediato.
O impacto mais profundo foi a deterioração da estrutura industrial brasileira. Aos poucos, setores de maior complexidade tecnológica perderam espaço, enquanto a economia passou a depender cada vez mais de atividades de menor valor agregado. Os números deixam esse processo evidente. Em 1985, a indústria respondia por aproximadamente 48% do PIB brasileiro. Em 2003, após a destruição promovida pelo “estadista” FHC, essa participação já havia caído para cerca de 27%, e a destruição jamais foi revertida, pois em 2024 a participação da indústria permanecia praticamente estagnada em torno de 24,7% do PIB.
Outro crime cometido foi a abertura da conta de capitais, que abriu caminho para a expansão dos bancos estrangeiros no sistema financeiro brasileiro. Foi nesse contexto que começou a se consolidar a mafiosa estrutura financeira que domina o país até hoje: um sistema que transforma a dívida pública em um gigantesco mecanismo de transferência de renda para o setor financeiro, consome uma parcela expressiva do orçamento federal por meio de juros e amortizações e facilita a contínua drenagem de riqueza nacional para o exterior.
Nada disso era inevitável. A experiência internacional demonstra exatamente o contrário. Enquanto o Brasil seguia a cartilha do Consenso de Washington — baseada em liberalização financeira, abertura comercial, privatizações e austeridade fiscal —, países como China e Vietnã adotavam a estratégia oposta. Na China, por exemplo, a participação da indústria de transformação no PIB aumentou de cerca de 7% em 1996 para aproximadamente 31,7% em 2023. Em vez de abandonar sua política industrial em nome da “liberdade econômica”, o país fortaleceu o planejamento estatal, protegeu setores estratégicos e utilizou o capital estrangeiro como instrumento de desenvolvimento nacional, e não como substituto do capital doméstico.
Essa é a diferença entre um país que conduz seu próprio projeto de desenvolvimento e outro que aceita a cartilha elaborada pelos centros do capitalismo mundial. Enquanto o Brasil desmontava sua capacidade produtiva em nome do receituário neoliberal, China e Vietnã fizeram exatamente o oposto. Os resultados estão aí para quem quiser enxergar. A história continuará em textos posteriores.




