Polêmica

O ‘revolucionário’ que reza para a democracia liberal – parte 1

A ascenção do fascismo tem sido a desculpa para setores defenderem a democracia liberal, que tem se mostrado ainda pior que o fascismo

São Francisco de Assis rezando

A coluna de Valerio Arcary no sítio Esquerda Online apresentou no dia 4 de julho um texto intitulado “Bolsonarismo e lumpen burguesia”, que chama a atenção por um aspecto em particular: seus alvos são os mesmos da burguesia.

Arcary inicia dizendo que “uma grande transformação ocorreu no mundo nos últimos dez ou quinze anos. No coração da Tríade que governa o mundo sob liderança dos EUA, da derrota do nazifascismo na Segunda Guerra Mundial até a virada do século XXI, a extrema direita era percebida como pequenos círculos marginais e radicais. Não mais. São grandes partidos eleitorais de massa. Mas não são somente isso. São movimentos políticos-ideológicos de combate e base social com impulso contrarrevolucionário.”

O nazifascismo foi derrotado em termos, pois no ano seguinte ao término da Guerra, em 1946, os Estados Unidos fundaram no Panamá aquela que se tornaria a Escola das Américas, um centro de treinamento para a formação de contrainsurgências, tortura, sabotagem, pela qual passaram figuras “ilustres” como Hugo Banzer Soares, o general ditador que governou a Bolívia de 1971 a 1978, e que subiu ao poder após um golpe militar sangrento. Manuel Noriega, que governou o Panamá de 1983 a 1989. Noriega foi um aliado estratégico da CIA, mas foi sequestrado e preso quando começou a ser um problema para o controle do Canal do Panamá. João Paulo Burnier, brigadeiro da Força Aérea Brasileira conhecido por ser conspirador e torturador do regime militar, integra a lista.

Passou também pela Escola das Américas ninguém menos que Leopoldo Fortunato Galtieri, que em 1982 iniciou a Guerra das Malvinas. Foi líder da Junta Militar da Argentina. Supervisionou o final da “guerra suja”, onde mais de 100 mil argentinos foram torturados e outros 30 mil foram assassinados e estão desaparecidos.

Aqueles que venceram o nazifascismo não se concentraram apenas na América Latina, instalaram ditaduras por todo o planeta que provocaram milhões de mortes, como na Indonésia, Egito, Irã e, naturalmente, foram responsáveis pela criação do Estado genocida de “Israel” em 1948.

Com o fim da guerra e a consolidação do imperialismo, formou-se uma entidade ainda mais letal que o nazifascismo, que massacrou diretamente milhões de pessoas na Coreia, no Vietnã, no Iraque; e indiretamente, com os bloqueios e sanções econômicas, ceifou mais de meio milhão de vidas anualmente nos últimos cinquenta anos, totalizando pelo menos 28 milhões de pessoas.

A luta das democracias liberais com o nazifascismo nunca foi um problema ideológico ou de métodos, mas econômico, visando o controle de mercados e da economia mundial. Enquanto o fascismo se encarregava de massacrar a classe trabalhadora, destruir seus organismos, como partidos e sindicatos, era muito bem visto pelos democratas.

É a crise no interior do capitalismo que dá lugar ao fascismo. Foi assim no início do século XX e acontece o mesmo agora, com o rebote causado pela implementação do neoliberalismo no mundo desde os anos 1980. Setores empobrecidos da classe média, e também da burguesia, tentam encontrar uma saída e acabam migrando para posições da extrema direita que, dentre outras coisas, propõem a proteção e crescimento da economia nacional.

Nos Estados Unidos, com a eleição de Trump, ficou nítida a cisão entre a alta burguesia doméstica, que perde capital constantemente, em oposição ao grande capital financeiro, que drena a maior parte dos recursos do Estado.

Valerio Arcary faz uma lista de governos de extrema direita recentes: “de Trump a Farage, André Ventura a Santiago Abascal, Le Pen a Meloni, Milei e Kast, Bukele, Keiko Fujimori, Abelardo de La Espriella e Flávio Bolsonaro”, mas eles não são a mesma coisa. Os governos da América Latina estão sendo alçados ao poder sob intervenção do imperialismo, que precisa despejar sua crise nas costas de países atrasados; enquanto Trump, Le Pen e Meloni respondem mais aos setores médios e burgueses prejudicados pela política neoliberal.

Perigo e alerta

Segundo Arcary, todos aqueles “são apresentados como um populismo de direita conservador, e vêm sendo aceitos como líderes de uma corrente com direito legítimo de defender ideias, propostas e práticas extremistas. Os fascistas beneficiam-se de plena participação no debate público e disputa institucional, e vêm ampliando sua força, chegando através de sucessivas eleições à frente de governos. Mas não tenhamos ilusões: preparam-se, com mais ou menos subterfúgios, para subverter o regime democrático-liberal e tomar o poder de Estado.”

Arcary, como se vê, não é a favor do debate público, sendo, portanto, contra a liberdade de expressão. E, mais uma vez, faz uma defesa da democracia liberal, a exemplo de seu artigo “Três critérios de análise da situação mundial”, de 2025.

O sinal de perigo que o autor emite é um chamado para que a esquerda defenda as democracias liberais, vulgo imperialismo, do assédio do fascismo em ascensão. No entanto, como foi dito nos parágrafos acima, desde o final da II Guerra, essas democracias provaram ser ainda piores que os fascistas.

Fechando o primeiro trecho de seu texto, Arcary escreve que “a extrema-direita é ‘funcional’ para a mobilização de camadas médias desesperadas, amedrontar as massas populares, e abrir o caminho para uma derrota histórica da classe trabalhadora. Sua naturalização expressa a tolerância da burguesia liberal com o neofascismo, e obedece a um cálculo estratégico: manter a supremacia dos EUA no mundo contra a China.”

O imperialismo, até o momento, tem controlado a extrema direita. Atira contra ela a Justiça, como se vê na França, no caso Le Pen; e no Brasil, colocando Jair Bolsonaro na cadeia. Flávio Bolsonaro, seu filho, tem sido bombardeado pelos editoriais dos grandes jornais, prova de que o imperialismo pretende colocar no poder um governo mais controlável, como fizeram na Argentina, Peru e agora na Colômbia, cujo presidente recém-eleito promete reatar todos os laços com “Israel”.

Continua…

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