Marine Le Pen será candidata à Presidência da França.
A dirigente da Reunião Nacional (RN) anunciou sua candidatura na terça-feira (7), poucas horas depois de o Tribunal de Apelação de Paris manter sua condenação no caso dos assistentes parlamentares de seu partido, mas reduzir a punição que poderia impedi-la de concorrer em 2027.
“Sou candidata à eleição presidencial. Não vou mudar de ideia”, afirmou Le Pen à emissora francesa TF1. Ela também declarou que recorrerá à Corte de Cassação, a instância superior da Justiça francesa. Segundo a imprensa francesa, esse recurso suspende a execução da pena de prisão enquanto o caso não tiver decisão final.
Le Pen havia sido condenada por desvio de verbas públicas do Parlamento Europeu. A acusação é de que recursos destinados ao pagamento de assistentes parlamentares foram usados para bancar funcionários do antigo Frente Nacional, hoje Reunião Nacional, dentro da França. A dirigente nega irregularidades e afirma ser inocente.
A decisão de 7 de julho confirmou a condenação, mas abriu o caminho para sua candidatura. O tribunal fixou pena de três anos de prisão, sendo um ano em regime de prisão domiciliar com controle eletrônico, além de multa de 100 mil euros. Também impôs 45 meses de inelegibilidade, mas suspendeu 30 meses da punição. Como os 15 meses restantes já corriam desde a decisão anterior, a medida não impede Le Pen de disputar a eleição presidencial.
Na prática, a Justiça francesa preservou a condenação e, ao mesmo tempo, devolveu a decisão para a disputa eleitoral. O próprio tribunal justificou a medida afirmando que a inelegibilidade deveria ser avaliada diante da “liberdade de escolha do eleitor”, condição para o exercício do sufrágio.
A decisão fortaleceu Le Pen. Ao sair do tribunal com autorização para concorrer, a dirigente da direita francesa assumiu imediatamente a posição de candidata e tentou transformar a condenação em instrumento de campanha. Na mesma noite, disse que “os franceses serão os juízes”.
O caso tem uma contradição evidente. Durante anos, o antigo Frente Nacional fez campanha com palavras de ordem sobre “mãos limpas” e ataque à corrupção dos demais partidos. Le Pen também defendeu que políticos condenados pela Justiça fossem impedidos de disputar eleições. Agora, condenada por desvio de verbas públicas, apresenta sua própria candidatura como expressão da vontade popular contra os tribunais.
O episódio mostra a crise do regime francês. A Justiça não retirou Le Pen do jogo. Também não a absolveu. Manteve a condenação e permitiu que a principal candidata da direita siga em campanha com uma sentença criminal nas costas. A eleição de 2027 começa, assim, marcada por uma disputa entre os setores do próprio regime, com a direita tradicional, o macronismo e a Reunião Nacional tentando ocupar o espaço deixado pela decomposição política do governo Emmanuel Macron.
As pesquisas divulgadas no dia 8 de julho mostram Le Pen à frente no primeiro turno. O levantamento do Ifop, feito para a LCI e o jornal Le Figaro, atribuiu 36% das intenções de voto à dirigente da RN, sem que nenhum adversário passasse de 19%. A pesquisa da Toluna Harris Interactive, feita para M6 e RTL, apontou 35% para Le Pen.
No segundo turno, os levantamentos também indicam vantagem para a candidata da RN em vários cenários. Contra o ex-primeiro-ministro Édouard Philippe, a Harris Interactive apontou 49% para Le Pen, enquanto o Ifop indicou vitória dela com 54%. Contra Gabriel Attal, outro ex-primeiro-ministro e possível candidato do partido de Macron, as duas pesquisas apontaram Le Pen com 55%. Ela também aparece vencendo Jean-Luc Mélenchon, dirigente da França Insubmissa, por ampla margem.
Esses números explicam a pressa da dirigente da Reunião Nacional em lançar sua candidatura. Depois da condenação, Jordan Bardella, presidente do partido, apareceu como possível nome substituto. Aos 30 anos, Bardella vinha sendo preparado como alternativa caso Le Pen fosse impedida de disputar. Com a decisão do tribunal, ele voltou ao papel de segundo nome da RN e declarou apoio à candidatura da dirigente.
Le Pen chegou ao segundo turno das eleições presidenciais de 2017 e 2022. Em ambas, foi derrotada por Macron. Agora, entra na disputa em uma situação diferente. O macronismo está desgastado, sem maioria estável, e a França atravessa uma crise política prolongada, com Parlamento dividido, queda de governos e crescente desgaste das instituições.
Macron não conseguiu construir uma maioria sólida nos últimos anos. O País está dividido em blocos opostos, enquanto enfrenta deficit orçamentário elevado e dívida pública acima de 117% do PIB. As disputas sobre o orçamento produziram moções de censura, derrubaram primeiros-ministros e levaram agências de classificação de risco a rebaixar a nota da França.
Esse quadro abriu espaço para Le Pen. A Reunião Nacional se apresenta como força de oposição ao macronismo, mas não representa uma ruptura com o regime. É uma direita nacionalista, autoritária, hostil aos imigrantes e adaptada às instituições francesas. Sua função política é canalizar o descontentamento social para uma saída reacionária, preservando os interesses fundamentais da burguesia francesa.
A própria disputa com Bardella mostra isso. O jovem dirigente da RN busca uma linha mais próxima da direita liberal europeia, semelhante à de Giorgia Meloni na Itália, mais aberta aos grandes empresários e menos agressiva contra a União Europeia. Le Pen mantém um discurso social demagógico, tentando atrair setores populares atingidos pela crise. As duas alas, porém, pertencem ao mesmo campo político.
O lançamento da candidatura de Le Pen também coloca pressão sobre a esquerda francesa. A crise do macronismo não fortaleceu automaticamente os trabalhadores. A França viveu grandes mobilizações contra a reforma da Previdência, protestos contra a carestia e sucessivas crises parlamentares. Mesmo assim, a direita conseguiu se apresentar como principal alternativa eleitoral ao governo.
A eleição de 2027 tende a expressar esse impasse. De um lado, a direita de Le Pen procura transformar a crise do regime em oportunidade para chegar ao Palácio do Eliseu. De outro, os setores ligados ao macronismo tentam reorganizar uma candidatura burguesa em torno de nomes como Édouard Philippe ou Gabriel Attal. A França Insubmissa aparece como principal força eleitoral à esquerda, mas enfrenta o bloqueio permanente da burguesia francesa.





