Ric Jones

Médico homeopata e obstetra. Escritor, palestrante da temática da Humanização do Nascimento no Brasil e no exterior.

Coluna

Tudissquitaí

A direita quer abolir a própria democracia liberal

 Já repararam em como a direita do mundo todo usa sempre a mesma narrativa? Os ataques à esquerda sempre são moralistas, ad hominem, violentos quanto às virtudes inexistentes, jamais estruturais. Além disso, nesses ataques a culpa é sempre do “sistema”, como se eles não representassem o próprio coração do sistema capitalista. Nos últimos dias, manifestações ocorreram na Europa, patrocinadas pela extrema direita e prometendo acabar com os políticos e o “sistrema” a quem eles obedecem. Mas, afinal, o que querem dizer quando afirmam que o povo está “reagindo ao sistema”? Por que esse ataque à “classe política” surge como um mantra, repetitivo e até enfadonho, a fórmula clássica de ataque da direita? Por que a direita, para atacar a própria expressão da política, usa o refrão de que “todo político é ladrão”?

A razão é simples: a política é a única e frágil salvação que as pessoas têm para resistir ao controle absoluto do capitalismo. Por mais defeituosa que seja, a política ao menos oferece a ilusão da participação do sujeito nas decisões do Estado, mesmo que pelas vias tortuosas da representatividade. Lembrem: políticos precisam de votos e podem ser excluídos pelo voto. Cadeiras no parlamento ainda precisam da escolha popular através do voto. Um presidente é escolhido dessa forma e com ele, sua política e perspectiva de governança. Agora, digam qual foi a última vez que alguém votou para eleger o presidente da Meta, da Amazon ou mesmo das Americanas!! Nunca, não é?

Pois é exatamente isso que a extrema direita deseja: um mundo controlado por corporações transnacionais, onde o povo perdeu todas as razões objetivas para escolher representantes. Nesse mundo distópico de direita, controlado pelo capital, o Estado é tão diminuto e insignificante que de nada serve o seu voto, pois tudo seria dominado pela casta dos proprietários, dos burgueses, dos donos de tudo. O povo só poderia trabalhar, olhar, chorar e morrer; afinal, não há como mudar o mundo privado.  A utopia capitalista seria materializada num tecno-feudalismo com classes sociais estanques e pétreas.

É por esta razão que tantos representantes da direita atacam o “sistema”. Na verdade, para eles o “sistema” é a própria democracia burguesa, o voto, as instâncias populares e a possibilidade de escolher representantes. Mesmo com todas as falhas das eleições e da escolha pelo voto, ainda assim essa possibilidade surge como uma ameaça ao totalitarismo ultradireitista. Estes se referem à “classe política” com desdém porque odeiam qualquer anteparo democrático que exista entre a burguesia, suas posses e a riqueza produzida por todos nós. Quando você escuta um bolsonarista dizendo “tem que mudar tudissquitaí” ele, no fundo, está se referindo ao projeto direitista de eliminar seu direito de participar do jogo.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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