Copa do Mundo 2026

Surpresa de Cabo Verde na Copa vem de décadas de construção

Projeção internacional da cultura ajudou a conectar jogadores da diáspora ao país, como a morna, o crioulo cabo-verdiano e o legado de Cesária Évora

A seleção cabo-verdiana avançou à segunda fase da Copa do Mundo nos Estados Unidos na sexta-feira (26), após empatar com a Arábia Saudita em Houston. O resultado completou uma sequência de três empates na fase de grupos e transformou o pequeno país africano na menor nação a alcançar o mata-mata de um Mundial. Mais do que um feito pontual da edição de 2026, essa campanha reflete uma construção histórica de longo prazo, sustentada por desafios estruturais superados ao longo de décadas, laços antigos com o futebol europeu e o aproveitamento estratégico da diáspora.

Apesar de contar com pouco mais de meio milhão de habitantes distribuídos por dez ilhas, Cabo Verde organiza seu futebol em condições geográficas particularmente complexas. Sem estradas que conectem o arquipélago de ponta a ponta, os clubes disputam primeiro torneios regionais em suas próprias ilhas e só depois realizam longas viagens de barco ou avião para brigar pelo título nacional. Muitos atletas, ainda, conciliam a prática esportiva com empregos em outras áreas, o que limita a profissionalização da estrutura e torna o desenvolvimento do futebol ainda mais notável.

Essa relação com o esporte, contudo, não é recente. A modalidade chegou às ilhas no início do século XX, impulsionada pela intensa circulação marítima entre Cabo Verde, Portugal e outros países europeus. Em 1904, Fortunato Levy, natural da Praia, participou da fundação do Benfica e tornou-se seu primeiro capitão, simbolizando uma ligação precoce e duradoura entre o arquipélago e o futebol português. Nas décadas seguintes, essa ponte se manteve ativa: diversos jogadores deixaram o país ainda jovens para atuar em ligas europeias, criando uma tradição de circulação que hoje se revela fundamental.

A seleção nacional, conhecida como os Tubarões Azuis, começou a converter essa tradição em resultados internacionais de forma gradual. Disputou sua primeira partida oficial em 1978 e filiou-se à FIFA em 1986. O crescimento se evidenciou em campanhas de destaque na Copa Africana de Nações, com acessos às quartas de final em 2013 e 2024. Em 2025, veio a classificação histórica ao Mundial; em 2026, sob o comando do técnico Bubista, Cabo Verde transformou sua estreia na competição em um marco inédito para uma nação de seu porte.

Decisivo nesse processo foi o papel da diáspora. Entre os titulares que enfrentaram a Arábia Saudita, seis nasceram fora do país: três nos Países Baixos, um na Irlanda, um na França e um em Portugal. A política de integrar atletas formados nas ilhas e descendentes espalhados pelo exterior conferiu ao elenco maior qualidade técnica e competitividade. O goleiro Vozinha, um dos nomes mais emblemáticos do grupo, personifica essa geração que une raízes cabo-verdianas, vivência internacional e forte identidade nacional.

Por isso, o êxito dos Tubarões Azuis não pode ser compreendido apenas pelos resultados dentro de campo. Ele resulta de uma organização possível apesar das adversidades geográficas, do aproveitamento inteligente da diáspora e a partir da projeção política da cultura do país, que foi capaz de superar as fronteiras do arquipélago. Notadamente, algumas forças culturais ajudaram a conectar jogadores da diáspora ao país, como a morna, o crioulo cabo-verdiano e o legado musical de Cesária Évora.

A morna é um gênero musical tradicional marcado pelo tom melancólico e por temas como saudade, distância, amor e emigração. Uma das expressões mais reconhecidas da cultura cabo-verdiana, ela ajuda a apresentar ao mundo a experiência histórica de uma nação formada por ilhas e pela constante circulação de sua população.

O crioulo cabo-verdiano, por sua vez, é a língua falada no cotidiano por grande parte dos habitantes. Nascido do contato entre o português e línguas africanas, manifesta-se na música, na poesia e na vida popular como um dos principais símbolos da identidade nacional.

Cesária Évora foi a artista que mais projetou essa herança para o exterior. Conhecida como a “diva dos pés descalços”, ela interpretou mornas e coladeiras em crioulo cabo-verdiano e consolidou o reconhecimento internacional de Cabo Verde por meio da música.

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