Na segunda aula do curso A história do Irã e da República Islâmica, Rui Costa Pimenta tratou da religião persa antiga, da conquista árabe, das invasões mongóis e da formação das dinastias que antecederam a decadência do País diante da ascensão europeia
A segunda aula do curso A história do Irã e da República Islâmica, ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), foi realizada nesta terça-feira (30), como parte da 55ª Universidade de Férias do PCO e da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR), em Sorocaba (SP).
A atividade integra a programação da Universidade Marxista e aprofunda o estudo da formação histórica do Irã, desde a Antiguidade até a Revolução Islâmica. Na aula anterior, Pimenta havia tratado das origens mais antigas da região, da civilização elamita e da formação do Império Aquemênida. Na segunda exposição, retomou o tema a partir da religião persa antiga e avançou até as dinastias que antecederam o século XIX.
Antes de entrar no período posterior à conquista de Alexandre, o Grande, Pimenta chamou atenção para o zoroastrismo, religião dominante no antigo Irã durante séculos. Segundo ele, trata-se de uma religião anterior ao cristianismo e ao islamismo, ligada à figura de Zaratustra, conhecido pelos gregos como Zoroastro.
“Essa religião vai dominar o Irã até o século VII depois de Cristo, quer dizer, uma religião que vai existir pelo menos mil e tantos anos, mas provavelmente muito mais. Zaratustra teria vivido por volta do ano mil antes de Cristo, então pelo menos 1.600 anos nós teríamos dessa religião”, explicou.
Pimenta destacou que o zoroastrismo é apontado como a primeira grande religião monoteísta da história e teve como divindade principal Ahura Mazda. Segundo ele, a religião teve templos conhecidos como templos do fogo, pois o fogo era considerado uma manifestação ligada à divindade.
“Os zoroastristas acreditavam que o fogo era o espelho da divindade, Ahura Mazda. Era uma força que revelava, uma coisa mística. Então eles construíram vários templos, chamados naquela época de templos do fogo. Os sacerdotes acendiam o fogo e faziam rituais em torno dele”, afirmou.
Religião antiga e luta ideológica
O presidente do PCO ressaltou que o zoroastrismo ainda existe, mas hoje como fenômeno muito minoritário no Irã. A importância política do tema, segundo Pimenta, está no uso que o imperialismo faz das tradições persas anteriores ao Islã para atacar o Irã atual.
“A máquina de propaganda do imperialismo tenta apresentar essas tradições do Império Persa anteriores ao Islã em oposição a ele. Faz parte de uma luta ideológica. Eles usam essa religião, que é puramente residual, que não tem importância nenhuma, para tentar opor um Irã antigo inexistente ao Irã real”, disse.
Pimenta lembrou que essa política já foi utilizada pelo antigo xá da Pérsia, derrubado pela Revolução Islâmica de 1979. O monarca procurava exaltar o passado imperial persa como forma de enfraquecer o clero xiita, com o qual mantinha uma relação de conflito. Segundo o dirigente do PCO, o pai do último xá já havia seguido essa orientação.
Após a destruição do Império Aquemênida por Alexandre, o Grande, o território iraniano ficou sob domínio de uma das partes em que foi dividido o império macedônio. Pimenta explicou que, com a morte de Alexandre, seus generais passaram a disputar os territórios conquistados. A região iraniana ficou sob controle dos selêucidas, que dominaram a área por menos de um século.
Em seguida, os partas, povo iraniano, estabeleceram uma das dinastias mais longas da história do País. Depois deles, veio a dinastia sassânida, considerada uma das grandes fases do Irã antigo, até a conquista árabe no século VII.
Irã enfrenta Roma
Um dos aspectos destacados por Pimenta foi o enfrentamento entre os impérios iranianos e Roma. Segundo ele, durante séculos, os romanos tentaram avançar sobre a região, mas não conseguiram conquistar o território persa.
“Esse enfrentamento dos persas com os romanos se deu em pé de igualdade praticamente. Os romanos fizeram várias tentativas de tomar o Império, mas nunca conseguiram. Os iranianos mantiveram os romanos à distância”, afirmou.
Pimenta citou a derrota de Marco Licínio Crasso, um dos integrantes do triunvirato romano ao lado de Júlio César e Pompeu. Crasso, conhecido por ter derrotado a revolta de escravos liderada por Espártaco, invadiu a região persa, foi derrotado e morto em batalha. Segundo ele, o soberano persa mandou a cabeça e as mãos de Crasso ao rei da Armênia, região disputada entre Roma e a Pérsia, como advertência contra uma aproximação com os romanos.
A dinastia sassânida, prosseguiu Pimenta, deixou uma herança cultural mais ampla que a dos aquemênidas, em parte por estar mais próxima da época em que se preservaram registros históricos. Ainda assim, o Irã sofreu grandes destruições. Alexandre, por exemplo, incendiou Persépolis após conquistá-la, destruindo também uma importante biblioteca persa.
“Os textos, as bibliotecas que guardavam a memória da sociedade iraniana foram destruídos mais de uma vez, por diferentes ocupantes”, explicou.
Conquista árabe
A partir da conquista árabe, em 642, o Irã entrou em um longo período de domínio estrangeiro. Pimenta explicou que os árabes, até então um povo relativamente atrasado da Península Arábica, passaram por uma grande mobilização com o surgimento do Islã.
“O profeta Maomé é do século VII e dá aos árabes uma disposição conquistadora e guerreira muito grande. Como sempre acontece na história, essa posição subjetiva combinava com fatores objetivos: os árabes precisavam sair daquela região extremamente difícil da Península Arábica”, afirmou.
Segundo Pimenta, o Islã dos primeiros tempos tinha uma tendência igualitária, como ocorre também com o cristianismo primitivo. A nova religião permitiu aos árabes uma grande mobilização política e militar, levando à conquista de regiões muito mais desenvolvidas, como o Irã.
O dirigente do PCO destacou, no entanto, que os árabes foram profundamente influenciados pelos povos conquistados. Ao tomarem regiões que haviam pertencido ao Império Persa e ao Império Bizantino, entraram em contato com sociedades de cultura muito mais desenvolvida.
“A gente fala que os árabes deram uma grande contribuição para a civilização, tiveram médicos, cientistas, desenvolveram a matemática. Agora, a grande pergunta é: de onde saiu isso? Porque o pessoal estava montado em camelo na Península Arábica. Obviamente que tiraram de outras sociedades. E quais sociedades eram essas? Principalmente o Império Bizantino e o próprio Império Persa”, afirmou.
Xiismo e revolta
Durante a aula, Pimenta respondeu a uma pergunta sobre a relação entre o xiismo e a luta contra a opressão. O presidente do PCO explicou que a religião xiita nasce como contestação à corrupção do califado e à perseguição contra a família do profeta Maomé.
“A religião xiita tem uma origem, a gente poderia dizer, libertária, porque parte da denúncia do que foi entendido na época como a corrupção do islamismo pelas pessoas que se apoderaram do califado. Elas foram denunciadas como pessoas corruptas, tirânicas”, afirmou.
Pimenta lembrou a tragédia de Carbala, no atual Iraque, quando Hussein, neto de Maomé, sua família e seus seguidores foram massacrados. Segundo ele, esse episódio marcou profundamente a religião xiita.
“Ela não é uma religião qualquer. Pode ser, como toda religião, usada para muitas coisas, mas é uma religião contestatória. Não acho que seja mera coincidência que o Irã atual, que organizou a resistência dos povos no Oriente Médio contra o imperialismo, seja uma República Islâmica xiita”, disse.
O presidente do PCO comparou a situação com a Arábia Saudita, onde predomina uma vertente extremamente conservadora do Islã. Para ele, embora também possa haver expressões combativas entre setores sunitas, as tendências conservadoras acabaram se impondo de maneira mais ampla nesse setor.
Domínio estrangeiro
Após a dominação árabe, o Irã passou por uma recuperação cultural e política. Pimenta destacou que, nesse período, surgiram reis tributários dos árabes, mas que já expressavam uma retomada da vida persa. Foi também o período de grande desenvolvimento cultural, no qual se destacou Ferdóssi, autor do Xá-Namé, o Livro dos Reis, considerado o poeta nacional iraniano.
“Ele é uma espécie de Homero do Irã, o poeta nacional. Já é um produto da combinação da cultura persa e da cultura árabe, apesar de ser um poeta de língua persa”, explicou.
O Irã, no entanto, voltou a ser devastado no século XIII, com a invasão mongol. Pimenta relatou o episódio envolvendo Gêngis Cã e o xá da época. O conquistador mongol teria inicialmente buscado um acordo comercial. O soberano persa, considerando os mongóis um povo bárbaro, desprezou a proposta. Após a morte de embaixadores mongóis e a recusa do xá em entregar os responsáveis, Gêngis Cã iniciou uma campanha devastadora contra o Irã.
“Isso vai dar lugar ao que foi provavelmente o pior momento da história iraniana. Gêngis Cã começa a invadir as cidades do Irã, uma após a outra. Em várias cidades, mata toda a população, toca fogo, reduz a cidade a pó. Na primeira cidade que invadiu, manda cortar a cabeça de todas as pessoas e erguer uma pirâmide de cabeças cortadas”, afirmou.
Segundo Pimenta, o Irã ficou cerca de 250 anos sob domínio mongol. A situação só não foi pior porque os descendentes de Gêngis Cã acabaram assimilados pela cultura persa. Depois deles, outro conquistador, Tamerlão, também invadiu a região, repetindo métodos de brutalidade semelhantes.
“Em 642, ocorre a conquista árabe. Em 1501, o território volta a ter uma dinastia iraniana. Os iranianos ficaram sob dominação de povos estrangeiros por quase mil anos. É uma coisa impressionante. A única explicação é que a cultura iraniana persa era muito superior à dos invasores. Apesar de dominados, conseguiram manter a sua cultura”, disse.
Safávidas e decadência
A nova dinastia iraniana que se estabeleceu em 1501 foi a dos safávidas. Pimenta explicou que ela teve grande importância por centralizar novamente o Estado iraniano e por oficializar o xiismo como religião do País.
“É durante essa dinastia, que começa em 1501, que o xiismo se transforma em religião oficial do Irã. Um dos monarcas dessa dinastia vai estabelecer o xiismo como religião oficial, o que indica que o xiismo já era uma religião muito grande no Irã, senão majoritária já nessa altura”, afirmou.
A partir daí, no entanto, o Irã entrou em decadência diante do avanço europeu. Pimenta explicou que esse período coincide com a ascensão do capitalismo na Europa, as grandes navegações e o Renascimento. Portugal foi o primeiro país europeu a chegar ao Golfo Pérsico e estabelecer entrepostos comerciais na região.
“Os portugueses vão para a Índia e, no meio do caminho da Índia, o que nós temos? O Golfo Pérsico. Então os portugueses vão conquistar as ilhas do Golfo Pérsico e estabelecer entrepostos comerciais no Irã. Foi o primeiro povo europeu a fazer isso”, afirmou.
Segundo Pimenta, a partir desse momento o Irã não conseguiu mais se livrar da pressão europeia. Para expulsar os portugueses, recorreu a acordos com ingleses e holandeses, o que acabou abrindo caminho para uma presença ainda mais prejudicial, principalmente dos ingleses.
“Os ingleses vão ser a pior praga da história iraniana a partir daí”, afirmou.
A aula terminou com a passagem pelas dinastias Afshárida, Zande e Cajar. Pimenta destacou Nader Xá, conquistador do século XVIII que tentou recuperar a grandeza territorial do Irã, mas cuja dinastia não sobreviveu à sua morte. Depois, uma tribo afegã tomou conta do país até a ascensão dos cajares, em 1786. Essa dinastia governou até 1925.
“Essa é a história que nós vamos contar a partir de amanhã. Principalmente o século XIX e o século XX”, disse Pimenta.
A terceira aula do curso A história do Irã e da República Islâmica está marcada para esta quarta-feira (1º), às 17 horas, dentro da programação da 55ª Universidade de Férias, em Sorocaba.





