O governo iraniano afirmou nesta terça-feira (30) que a continuidade do memorando de entendimento de Islamabade depende do cumprimento dos compromissos assumidos pelos Estados Unidos. O acordo, assinado em junho após a guerra de agressão dos Estados Unidos e de “Israel” contra o Irã, prevê o fim das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano, além de medidas sobre o bloqueio naval, a venda de petróleo iraniano e a liberação de ativos bloqueados.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, declarou que a base do memorando é o princípio de “compromisso por compromisso”. Segundo ele, o Irã só cumprirá suas obrigações enquanto o outro lado fizer o mesmo.
“Não há nenhum compromisso que deva ser cumprido unilateralmente”, afirmou Baghaei, em coletiva de imprensa semanal. O porta-voz disse que o processo diplomático começou após duas guerras e sob forte desconfiança, devido ao histórico de violações dos EUA e às manobras do regime de “Israel” para impedir qualquer acordo.
Baghaei destacou que o Artigo 1º do memorando estabelece a interrupção da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano. O porta-voz afirmou que os EUA, como parte do acordo, têm a obrigação de garantir que “Israel” interrompa suas agressões contra o território libanês.
Segundo ele, o Irã acompanhará “momento a momento” o cumprimento das obrigações norte-americanas. “Nós não deixaremos nenhuma ação sem resposta. Qualquer ação contra o Irã enfrentará uma resposta imediata e decisiva”, afirmou.
O governo iraniano afirmou que ainda não entrou na etapa de negociação de um acordo final. Baghaei explicou que, conforme o Artigo 13 do memorando, essa etapa depende do início e da continuidade da aplicação de artigos centrais do acordo, entre eles os artigos 1, 4, 5, 10 e 11.
O porta-voz disse que alguns pontos avançaram de maneira relativamente satisfatória, como o fim do bloqueio naval e a emissão de licenças referentes à venda de petróleo iraniano. Em outros pontos, no entanto, o Irã afirma haver problemas sérios, sobretudo no que diz respeito à aplicação plena do cessar-fogo no Líbano e à liberação dos recursos iranianos bloqueados no exterior.
O vice-ministro das Relações Exteriores, Kazem Gharibabadi, afirmou na segunda-feira (29) que não há reuniões técnicas dos grupos de trabalho previstas para esta semana. Segundo ele, continuam as consultas com os países mediadores, especialmente o Catar, para acompanhar o cumprimento das obrigações assumidas pelos EUA.
Baghaei também negou que exista reunião marcada com autoridades norte-americanas em Doha. Segundo ele, o que deve ocorrer é uma conversa com autoridades catarianas sobre a aplicação de cláusulas do memorando, incluindo a liberação de ativos iranianos bloqueados.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou que o memorando de Islamabade foi concluído em coordenação com o Aiatolá Saied Mojtaba Khamenei, Líder da Revolução Islâmica, e com o Conselho Supremo de Segurança Nacional.
Em visita à cidade sagrada de Qom, Pezeshkian disse que todas as etapas das negociações foram conduzidas dentro das políticas gerais do Estado iraniano e por meio dos mecanismos legais do país. Segundo ele, o texto final foi examinado por órgãos técnicos e de segurança antes de receber apoio do Conselho Supremo de Segurança Nacional.
O presidente afirmou ainda que o governo conduziu as negociações “a partir de uma posição de dignidade e poder” e que não aceitará exigências impostas pelos inimigos do Irã.
O ministro interino da Defesa do Irã, brigadeiro-general Majid Ibn Reza, afirmou nesta terça-feira que as Forças Armadas iranianas permanecem em alerta diante de novas violações do cessar-fogo.
Em conversa telefônica com o ministro de Estado para Assuntos de Defesa do Catar, Sheikh Saoud bin Abdulrahman al-Thani, Ibn Reza agradeceu o papel do Catar nas negociações que levaram ao cessar-fogo, mas afirmou que o Irã não confia nos Estados Unidos.
“Confiamos em nossos irmãos, mas não confiamos no inimigo. Nossos dedos permanecem no gatilho e, sem hesitação, se qualquer cláusula do cessar-fogo for violada, tomaremos as medidas necessárias e proporcionais”, disse.
O ministro afirmou que os EUA já violaram seus compromissos diversas vezes em um curto período. Ele citou o assassinato do Aiatolá Saied Ali Khamenei, de comandantes militares, de civis e de crianças na cidade de Minab como crimes que permanecerão registrados contra o imperialismo norte-americano.
Ibn Reza também defendeu que a segurança do Golfo Pérsico e do Estreito de Ormuz deve ser garantida pelos países da região. Segundo ele, a presença de forças estrangeiras não traz segurança, mas aumenta a instabilidade e a desconfiança.
O Estreito de Ormuz continua como um dos pontos centrais das negociações. O ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr al-Busaidi, declarou apoio ao plano iraniano de cobrar taxas de serviço marítimo de embarcações que utilizam o estreito.
Al-Busaidi afirmou que Omã não apoia pedágios sobre a passagem em si, mas reconhece a legitimidade de taxas voltadas à segurança da navegação, proteção ambiental e atendimento a emergências. Segundo ele, tais mecanismos existem em outras rotas marítimas, como o Estreito de Malaca e a região de Singapura.
O ministro do Omã também afirmou que a responsabilidade principal pela segurança do Estreito de Ormuz cabe ao Irã, de acordo com o memorando firmado entre o governo iraniano e os EUA. O acordo prevê passagem sem pedágio para embarcações comerciais por pelo menos 60 dias e restauração plena do tráfego em até 30 dias, desde que os EUA e seus aliados cumpram suas obrigações.
Baghaei também comentou a participação de países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na guerra de agressão contra o Irã. Segundo ele, declarações recentes do secretário-geral da organização confirmam que os países-membros participaram da preparação, execução ou apoio às operações dos EUA e de “Israel”.
O porta-voz afirmou que isso configura cumplicidade no crime de agressão e pode ser utilizado em processos internacionais. Segundo ele, alegações de que o apoio foi apenas “técnico” ou “logístico” não retiram a responsabilidade dos países envolvidos.
O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, também afirmou que o Irã acionará canais legais e políticos contra os Estados Unidos pelo ataque ao navio iraniano IRIS Dena. A embarcação foi atingida em 4 de março por um torpedo lançado pelo submarino norte-americano USS Charlotte, quando estava a cerca de 19 milhas náuticas da costa de Galle, no Sri Lanka.
O navio retornava de um exercício naval na Índia e estava desarmado, com 136 tripulantes a bordo. O ataque matou 104 marinheiros e deixou 32 feridos. Araghchi classificou a ação como crime de guerra e afirmou que os documentos sobre o caso estão sendo reunidos pelo Ministério das Relações Exteriores e pela Marinha iraniana.
O Exército iraniano também anunciou medidas especiais de segurança para as cerimônias fúnebres do Aiatolá Saied Ali Khamenei, Líder da Revolução Islâmica assassinado pelos EUA e por “Israel”. O funeral terá início em Teerã em 4 de julho.
O brigadeiro-general Mohammad Akraminia, porta-voz do Exército, afirmou que haverá reforço nas fronteiras terrestres e no espaço aéreo. A Defesa Aérea manterá vigilância contínua, enquanto a Força Aérea e a Marinha permanecerão em prontidão.
O Exército também montará quatro acampamentos temporários em Teerã e nos arredores da capital para receber peregrinos. As estruturas oferecerão alojamento, alimentação e atendimento médico. Equipes de helicópteros, hospitais urbanos e unidades móveis de saúde ficarão posicionadas nas principais rotas de deslocamento.
Nesta terça-feira (30), o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) também anunciou a destruição de um grupo separatista que tentou entrar no noroeste do país para realizar ações de sabotagem. A operação ocorreu em áreas montanhosas entre Mahabad e Piranshahr. Segundo o comunicado, os seis integrantes do grupo foram eliminados, e armas e equipamentos foram apreendidos pelas forças iranianas.




