O acordo anunciado pelo presidente libanês com os Estados Unidos e “Israel” aprofunda a crise interna do país e ameaça colocar o Líbano diante de uma nova guerra civil.
O conteúdo do acordo mostra seu caráter colonial. Segundo as denúncias da oposição, em particular do Hesbolá, o documento estabelece concessões diretas a “Israel”. Uma das mais graves é a renúncia do Estado libanês a acionar tribunais internacionais caso “Israel” cometa crimes de guerra no território do Líbano.
Essa cláusula, por si só, indica o sentido político do acordo. O governo libanês aceita limitar a própria soberania para proteger “Israel”. Mais do que isso, reconhece na prática a presença militar israelense no sul do país e procura criar um quadro legal para impedir a reação libanesa.
Trata-se de um acordo de submissão nacional. “Israel” ocupa parte do território libanês, ataca aldeias, assassina civis e mantém uma política permanente de agressão contra o país. Em vez de exigir a retirada completa das tropas israelenses, o governo libanês aceita uma negociação em que a potência agressora aparece como parte legítima de um novo arranjo político.
O presidente do Líbano, além disso, não tem autoridade constitucional para impor sozinho um acordo dessa natureza. Um compromisso desse porte precisa passar pelo Parlamento e enfrentar a oposição das forças políticas do país. A tentativa de aplicá-lo sem esse processo só pode ampliar a crise do regime.
Para colocar esse acordo em prática, o governo precisaria enfrentar o Hesbolá e os setores da população que apoiam a resistência. Isso significa que a política exigida pelos Estados Unidos e por “Israel” aponta para uma ditadura interna. O Estado libanês teria de reprimir uma parte decisiva do próprio povo para garantir os interesses do imperialismo.
O Líbano sempre foi um dos pontos mais sensíveis da política do Oriente Médio. A presença do Hesbolá, a ligação direta com a Palestina, a fronteira com “Israel” e o peso das diferentes forças políticas internas fazem do país um ponto decisivo da luta regional. Por isso, qualquer tentativa de desarmar ou isolar a resistência libanesa tem consequências que vão muito além do território libanês.
A situação precisa ser vista em relação à guerra em Gaza e à ofensiva dos Estados Unidos contra o Irã. A operação de 7 de outubro mudou toda a situação regional. Ela colocou a Palestina novamente no centro da política mundial e obrigou todos os governos do Oriente Médio a se posicionarem diante da guerra de extermínio promovida por “Israel”.
A guerra contra Gaza teve enorme repercussão. Na Europa, provocou grandes mobilizações, especialmente na Inglaterra, mas também na França, na Itália e na Alemanha. Nos países árabes e muçulmanos, o impacto foi ainda maior. A população desses países acompanha diretamente o massacre em Gaza e identifica seus próprios governos como cúmplices, omissos ou incapazes de enfrentar “Israel”.
A ofensiva contra o Irã ampliou ainda mais essa crise. O Irã é o principal ponto de apoio da resistência contra o imperialismo na região. Qualquer ataque contra o país repercute sobre o Líbano, a Palestina, o Iêmen, o Iraque, a Síria e os países do Golfo. A guerra deixou mais evidente a divisão entre, de um lado, os povos da região e, de outro, os governos submetidos aos Estados Unidos.
É nesse quadro que aparece o acordo libanês. Trata-se de uma nova tentativa de salvar a política israelense depois do fracasso em derrotar a resistência em Gaza e de conter o Irã. Como “Israel” não conseguiu impor uma vitória militar decisiva, os Estados Unidos tentam avançar por meio de acordos políticos, chantagens diplomáticas e pressão sobre governos frágeis.
O problema é que os regimes da região já estavam abalados antes da crise atual. A chamada Primavera Árabe mostrou, há pouco mais de uma década, a fragilidade de praticamente todos os governos árabes. A Tunísia viu cair sua antiga ditadura. O Egito teve uma mobilização popular gigantesca, que derrubou Hosni Mubarak e obrigou o regime a manobrar com eleições e uma Assembleia Constituinte, antes de restaurar o controle por meio de um novo golpe militar.
Na Península Arábica, a crise também se espalhou. No Iêmen, houve uma mudança de regime, com a ascensão das forças revolucionárias islâmicas que hoje dirigem o país. No Barém, a mobilização popular quase derrubou o governo, obrigando a Arábia Saudita a intervir diretamente. Nos demais países do Golfo, as monarquias conseguiram ganhar tempo graças à renda do petróleo, distribuindo dinheiro à população para conter a revolta.
Esses regimes, portanto, não são fortes. São regimes sustentados pelo imperialismo, pelo dinheiro do petróleo, por forças militares e por aparelhos repressivos. A guerra em Gaza, a ofensiva contra o Irã e a pressão sobre o Líbano mexem novamente com esse equilíbrio.
O acordo colonial no Líbano pode ter consequências explosivas justamente por isso. Ao aceitar as exigências de “Israel”, o governo libanês se coloca contra uma parte ampla da população. Ao tentar enfraquecer o Hesbolá, ameaça atacar a principal força de defesa do país contra a agressão israelense. Ao renunciar à denúncia de crimes de guerra, aparece como cúmplice da ocupação.
Se o governo tentar impor o acordo pela força, terá de enfrentar uma oposição profunda. Se recuar, ficará desmoralizado diante dos Estados Unidos e de “Israel”. Em qualquer hipótese, a crise do regime libanês tende a se ampliar.
O caso do Líbano mostra novamente o impasse do imperialismo. Para defender “Israel”, os Estados Unidos precisam pressionar governos frágeis, impor acordos coloniais e ameaçar movimentos de resistência. Mas cada uma dessas iniciativas aumenta a revolta popular e amplia a desestabilização regional.




