Governos de países ricos adotaram medidas emergenciais para conter a crise habitacional, na Europa e nos Estados Unidos, em 2026, depois que aluguéis e imóveis passaram a subir acima dos salários por anos. As medidas incluem congelamento de reajustes, reformas no aluguel e incentivos a novas construções, mas mantêm a iniciativa privada no centro da provisão de casas e apenas tentam reduzir a velocidade com que a crise piora.
O problema aparece em várias frentes. No Reino Unido, uma lei de direitos dos inquilinos entrou em vigor em 1º de maio na Inglaterra e no País de Gales, encerrando despejos sem justificativa em uma das maiores reformas recentes do setor. Na União Europeia, a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu passaram a tratar a moradia acessível como prioridade. Nos Estados Unidos, o Senado avançou com proposta para reduzir barreiras a novas construções e ampliar a oferta habitacional.
O problema, porém, não é a falta de unidades. A moradia passou a ser tratada cada vez mais como ativo financeiro, enquanto o investimento público em habitação social foi reduzido ou, em muitos lugares, chega a ser inexistente. A Organização das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos considera que uma casa se torna inacessível quando os custos superam 30% da renda familiar.
Na prática, esses limites já foram ultrapassados na maioria das grandes cidades do mundo. Famílias gastam parcela crescente do salário com aluguel, hipoteca, contas e transporte; jovens adiam ou abandonam a compra da casa própria; trabalhadores são empurrados para regiões distantes dos empregos; e a superlotação avança. O relatório de 2025 do Centro Conjunto de Estudos Habitacionais da Universidade Harvard indicou que a razão entre preço da moradia e renda nos Estados Unidos chegou a 5,0 em 2024, contra média de 3,2 nos anos 1990, de modo que no país mais rico do mundo são necessários 5 anos de trabalho com a renda média familiar para se comprar uma casa de preço médio. Esse valor não leva em consideração os gastos da família, de modo que a família não poderia gastar em mais nada, ficando com sua renda bruta comprometida integralmente durante 5 anos para a compra do imóvel.
Também vale a ressalva: esse indicador não inclui juros do financiamento, entrada, impostos, seguro, condomínio ou manutenção. Por isso, ele mede a relação entre preço de compra e renda, mas não todo o custo real de aquisição. Com juros altos, o peso mensal pode ser ainda maior; Harvard informou que o pagamento mensal de uma casa mediana chegou a US$ 2.570 em 2024 sob condições típicas de compradores de primeira viagem.
A crise também expõe a insuficiência de respostas regulatórias. A cidade de Nova Iorque aprovou congelamento de aluguéis para cerca de 1 milhão de apartamentos regulados, por voto de 7 a 1 do Conselho de Diretrizes de Aluguel. A medida congela reajustes em contratos de um e dois anos de unidades estabilizadas, que representam cerca de 41% do mercado local. A decisão cumpre promessa do prefeito Zohran Mamdani, mas não altera a estrutura dominante de mercado, com as moradias nas mãos dos grandes capitalistas, sem habitação popular.
A contradição é evidente: em vez de construir moradia pública e popular em grande escala, governos tentam administrar o aumento dos preços por meio de travas, subsídios, permissões e acordos com o setor privado. Essas medidas podem aliviar parte dos inquilinos no curto prazo, mas não retiram a casa da condição de mercadoria controlada por investidores, incorporadoras e proprietários, que é justamente o que mantém os preços subindo constantemente e a moradia digna inacessível para a esmagadora maioria da população, que vive em casas precárias.
Na realidade, não há perspectivas de investimentos públicos no setor de moradia, pois o imperialismo está pressionando os governos a gastarem mais do seu orçamento em armamentos, visto que planejam uma guerra contra a Rússia e contra a China. De modo que essa situação deve se agravar.



