Queensland

Reportagem denuncia perseguição a sem-teto na Austrália

Relatos do bairro Southport descrevem ordens sucessivas para sair de espaços públicos, retirada de pertences e falta de alternativa legal

Uma investigação do jornal australiano Courier Mail expôs a rotina de expulsões de sem-teto na cidade de Gold Coast durante o agravamento da crise habitacional. Pessoas que vivem no bairro Southport afirmam que recebem ordens para deixar parques, dunas e vias principais, mas não recebem indicação de nenhum lugar onde possam permanecer legalmente.

Há uma armadilha burocrática, segundo o jornal. Michael Waata, sem-teto ouvido pelo Courier Mail, disse que vive nas ruas de Southport há quase 15 anos e afirma que grupos se formam para proteger mulheres idosas, pessoas doentes e jovens contra violência noturna, mas essas redes de sobrevivência são desfeitas por operações de fiscalização.

Waata diz que a ordem para sair cria um paradoxo: acampar em qualquer lugar é ilegal, mas a polícia e o conselho não indicam um espaço permitido. A resposta, segundo ele, é apenas que as pessoas devem ir para “qualquer lugar” onde não sejam vistas. A política agrava a falta de moradia e desloca os pobres por alguns metros, até nova operação policial expulsá-los novamente.

Moradores de rua também denunciam que agentes usam câmeras para vigiar deslocamentos e retirar barracas, cobertores e documentos quando os acampamentos ficam vazios. As apreensões costumam ocorrer quando as pessoas vão a refeições comunitárias, banhos ou outros serviços básicos. Waata afirmou que seus documentos pessoais ficaram retidos.

A prefeitura de Gold Coast rejeita que se faça confisco arbitrário. Um porta-voz disse que há procedimentos para bens pessoais, com notificação prévia de 48 horas quando possível, e que itens abandonados podem ser removidos como lixo. O mesmo órgão afirma que estar sem moradia não é crime nem violação da lei local. As alegações da prefeitura contrariam os fatos bem documentados da violência estatal contra os sem-teto promovida pela cidade, seguindo o exemplo de todas as metrópoles no sistema capitalista.

Lauren, também ouvida pela reportagem, afirma que vive há mais de seis anos nas ruas. Ela compara a remoção de barracas à destruição de uma casa. JC, outro morador ouvido, estima que mais de 400 pessoas vivam na mata em The Spit, inclusive crianças e famílias que trabalham. A falta de banheiros e chuveiros, sobretudo para mulheres, agrava a situação.

O governo estadual aponta um projeto de 213 unidades de moradia social e acessível em Southport, com serviços permanentes, previsto para conclusão até agosto de 2027. As unidades são muito inferiores ao total necessário para abrigar a população de rua na cidade. A estratégia dominante segue sendo empurrar os sem-teto para fora da vista, sem enfrentar o preço dos aluguéis nem as demais causas da ausência de acesso à habitação.

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