Venezuela

MRT aproveita terremoto para expor seu identitarismo doentio e pró-imperialista

Para grupo pseudotrotrotskista, a caulpa da tragédia deveria recair sobre a Revolução Bolivariana

Terremoto na Venezuela

O artigo Mulheres na emergência sísmica na Venezuela: quando a crise é sustentada pelas mulheres, de Sandra Romero e Suhey Ochoa, publicado nesta quinta-feira (25) no sítio Esquerda Diário (órgão do Movimento Revolucionário de Trabalhadores – MRT), mostra que essa esquerda já atingiu um nível patológico de deterioração política.

É sabido que o identitarismo é uma política direitista e oportunista, mas utilizar uma tragédia como um terremoto, que fez milhares de mortos e desaparecidos, para se juntar ao imperialismo e criticar o governo venezuelano é uma monstruosidade.

No primeiro parágrafo, já se depara com o nível de loucura dessa gente. Ali está escrito que “os fortes terremotos que atingiram a Venezuela deixaram exposta não apenas a fragilidade da infraestrutura urbana e a desigualdade social, mas também uma dimensão menos visível, porém estrutural, da catástrofe: seu impacto diferenciado sobre as mulheres enquanto principal sustentação da reprodução cotidiana da vida. Em uma situação de emergência em que milhares de famílias permanecem nas ruas ou em abrigos improvisados, a crise não é vivida de forma neutra; ela se organiza sobre uma estrutura prévia de desigualdade de gênero e de classe que determina quem sustenta a vida em condições de catástrofe.”

Por que existe uma “fragilidade da infraestrutura urbana e a desigualdade social”? Seria culpa de décadas de bloqueio econômico, do roubo de bilhões do país pelo imperialismo? Não, o texto não acusa o imperialismo de seus crimes, se limita a dizer que o problema é “estrutural”. Em outras palavras, é culpa da revolução bolivariana.

Protegendo o imperialismo

O texto do MRT é terrivelmente difícil de ler, a mesma ideia fica sendo repetida inúmeras vezes, mas o essencial de sua política doentia está escrito com todas as letras.

No segundo parágrafo, escrevem que “a Venezuela é um país marcado por altos níveis de pobreza e precariedade estrutural, resultado de um processo prolongado de crise econômica, deterioração dos serviços públicos e precarização das condições de vida. Segundo a ENCOVI 2025, mais de 68% dos lares vivem em situação de pobreza e uma proporção significativa em pobreza extrema, em um contexto de crise salarial, enfraquecimento da infraestrutura social e dificuldades generalizadas de acesso à moradia e aos serviços básicos.” Mais uma vez, nem uma única palavra sobre o bloqueio econômico e suas consequências, o que serve para proteger o verdadeiro criminoso dessa tragédia: o imperialismo. A precariedade é “estrutural”, não um crime continuado aplicado contra vários países, como Irã, Cuba, etc. – grifo nosso.

Enquanto a população venezuelana está desesperada e trabalhando incansavelmente sobre os escombros à procura de sobreviventes, o MRT diz que “nesse contexto, as desigualdades de gênero articulam-se com as desigualdades de classe. Os lares chefiados por mulheres, assim como as mulheres dos setores populares em geral, enfrentam níveis mais elevados de pobreza, maior inserção na informalidade do trabalho e uma sobrecarga estrutural do trabalho não remunerado de cuidados e de reprodução cotidiana da vida.”

“Desigualdades de gênero”… onde esses malucos andam com a cabeça? E não param por aí, dizem que há um “fenômeno mais profundo: a feminização da pobreza não é apenas uma estatística, mas um mecanismo estrutural [de novo essa palavra] por meio do qual a organização social da reprodução transfere sistematicamente para as mulheres a responsabilidade de sustentar a vida cotidiana em condições de crescente precariedade.”

Esses identitários aloprados ficaram contra a derrota da OTAN pelos Talibãs em 2021, pois se diziam “preocupados com as mulheres”. Mas foram os 20 anos de ocupação e massacres que, por falar em estatística, que elevaram de 32% para 77% o índice de população abaixo da linha de pobreza. Mais de 90% da população tinha algum grau de subnutrição. E as mulheres foram as que mais sofreram. No entanto, essa esquerda não denuncia o imperialismo. A culpa, naturalmente, deve ser de alguma “estrutura”.

O terremoto acabou de ocorrer, mas o MRT diz que “nessas condições, são as mulheres que assumem de forma desproporcional a responsabilidade de sustentar a vida cotidiana: o cuidado de meninas, meninos, pessoas idosas ou doentes, a organização da alimentação, a busca por água, a garantia da higiene básica e a organização imediata da sobrevivência em cenários de extrema precariedade”, o que demonstra que esse grupo age de má-fé.

É preciso reproduzir dois parágrafos para que o leitor perceba o grau de perfídia do texto:

“Nesses espaços reproduzem-se problemas concretos: sobrecarga do cuidado infantil, falta de privacidade, ausência de itens de higiene menstrual, dificuldades de acesso à atenção pré-natal ou pós-natal e escassos mecanismos de proteção diante de situações de violência.

Em um contexto em que o Estado não garante plenamente estruturas adequadas de abrigo para mulheres, meninas e setores vulneráveis, a organização da sobrevivência recai novamente sobre redes familiares e comunitárias, nas quais o trabalho feminino é central, mas invisibilizado.”

Críticas direitistas

O texto reclama que “a intervenção de organismos militares nas tarefas de resgate e distribuição de ajuda reflete, além disso, um processo mais amplo de militarização da gestão da crise social.” Esperavam que os militares ficassem parados? Além do mais, não se pode inferir daí que esteja ocorrendo uma “militarização da vida social, em que a gestão dos abrigos, dos deslocamentos e da distribuição de recursos fica sob comando hierárquico, aumentam os riscos específicos de violência e assédio contra mulheres, meninas e diversidades sexuais.”

Vale destacar o trecho que diz que “a emergência sísmica ocorre em um país marcado por anos de crise econômica, deterioração contínua dos serviços públicos e severas restrições materiais para a maioria da população, em contraste com a existência de privilégios concentrados em setores empresariais, patronais e governamentais. Nesse contexto, a condução da resposta estatal tem sido liderada por figuras como Delcy Rodríguez, em uma situação na qual o governo buscou combinar o chamado à unidade nacional com uma crescente dependência de acordos e negociações com potências e organismos internacionais, em um cenário marcado pelo peso das sanções e do bloqueio econômico promovidos pelos Estados Unidos.”

Se Delcy Rodrigues está na presidência do país, como esperar que ela não lidere a resposta estatal? E apenas nesse parágrafo, em um texto de quase 11 mil caracteres, é que se lembram de falar muito brevemente de sanções e bloqueios, e ainda assim misturam o tema com negociações e dependência de acordos.

Esse texto do MRT comprova aquilo que este Diário vem denunciando desde sempre: o identitarismo é uma política extremamente direitista infiltrada na esquerda. Seu propósito não é outro – além de dividir a esquerda – que o de desviar a atenção da classe trabalhadora dos crimes de seu pior inimigo: o imperialismo.

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