Autoridades da União Europeia discutiram o retorno forçado de afegãos sem autorização legal de permanência, em Bruxelas, na terça-feira (23), em reunião com representantes afegãos. Organizações Não Governamentais (ONGs) de recrutamento da diáspora afegã, como Zan Times e Rukshana Media, reagiram com protestos e acusações contra o governo do Talibã, em nome das mulheres e dos direitos humanos, embora quem estivesse atacando a população afegã fossem os próprios governos europeus com sua política anti-imigratória e os 20 anos de ocupação e massacres promovidos pela OTAN.
A ofensiva política das ONGs contra o Talibã ocorre justamente quando a União Europeia busca expandir a violência e deportação contra afegãos imigrantes. O centro da negociação foi a pressão de 20 Estados-membros por mecanismos de envio de migrantes de volta ao país. Autoridades europeias afirmaram publicamente que o foco estaria em pessoas consideradas “ameaça à segurança”, mas a carta enviada aos representantes afegãos contradiz as declarações, pois tratava de quaisquer afegãos sem direito legal de permanecer no bloco.
Essa diferença revela o alcance real da iniciativa. O discurso sobre criminalidade e coibição de “indivíduos perigosos” funciona como porta de entrada para uma política mais ampla de deportação, voltada contra trabalhadores, refugiados e famílias que atravessaram fronteiras em situação de desespero motivadas pela guerra. O Parlamento Europeu aprovou em junho mudanças no pacto de migração e asilo que podem facilitar batidas, detenções, triagens e devoluções em centros fora do território europeu.
As ONGs imperialistas procuram incorporar preferencialmente mulheres afegãs na Europa para atacar o país asiático e sua conquista de independência, sob pretexto da defesa das mulheres e dos direitos humanos. Com a ameaça de deportação de imigrantes, a forma de trabalho dessas entidades está ameaçada. Ainda assim, elas preferem seguir atacando o Talibã a criticar a forma brutal como os regimes europeus tratam os estrangeiros vindos dos países pobres.
A campanha das organizações afegãs no exílio se concentrou em atacar os governos europeus, não pela política anti-imigratória, mas por eles “normalizarem o governo afegão”, ao se reunirem diplomaticamente com ele. Embora sejam os governos europeus que perseguem, prendem, concentram e expulsam os afegãos e não o Talibã. Nada disso é criticado.
A contradição também expressa uma divisão interna da burguesia europeia. Uma parte da diáspora afegã na Europa saiu do país após a derrota dos Estados Unidos em 2021. Entre esses setores há propagandistas, funcionários, mercenários e quadros que colaboraram direta ou indiretamente com a ocupação estrangeira ou com o antigo regime sustentado pelos EUA. Agora, esses setores colaboracionistas podem ser deportados e, caso sejam, vão sofrer represálias como consequência por seus crimes contra o país.
A reunião em Bruxelas não significou reconhecimento formal do Talibã, mas abriu uma via prática de relação diplomática. A retomada de serviços consulares foi citada como uma das possibilidades discutidas. Para a União Europeia, isso facilitaria a documentação de pessoas a serem expulsas. Uma maneira de a UE se livrar do problema que ela mesma criou ao destruir o Afeganistão.





