Entrevista

Rui Costa Pimenta: sionismo usa antissemitismo para calar críticas

Presidente nacional do PCO analisou Palestina, governo Lula, América Latina, Seleção Brasileira e Irã

Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência, concedeu entrevista ao jornalista Leandro Fortes, no Canal do Galo Preto, no YouTube, nessa terça-feira (23). Durante a conversa, Pimenta comentou a tentativa de igualar antissionismo a antissemitismo, a situação da esquerda brasileira, o governo Lula, a ofensiva da extrema direita na América Latina, a Seleção Brasileira e a situação do Irã.

O primeiro tema foi a campanha do sionismo para apresentar as críticas ao Estado de “Israel” como antissemitismo. Segundo Pimenta, isso ocorre porque a propaganda imperialista e sionista sofreu uma derrota diante das informações que circulam sobre o massacre na Faixa de Gaza.

“Como eles perderam a batalha da opinião pública, perderam completamente e não vão recuperar jamais, existe um esforço muito grande do sionismo para calar a boca das pessoas que estão criticando o que está acontecendo em Gaza. E o truque é esse. O truque é falar que, se você está criticando aquilo que está sendo feito em Gaza, se você fala que o Estado de ‘Israel’ é uma coisa ilegítima, você é antissemita.”

Para Pimenta, o Estado de “Israel” é uma anomalia criada a partir de uma operação organizada pelo Império Britânico para ocupar a Palestina com uma população estrangeira. Por isso, afirmou, a defesa do sionismo sempre dependeu de uma intensa propaganda para normalizar a ocupação.

O presidente do PCO também comentou a posição de setores da esquerda que embarcam na campanha contra o suposto antissemitismo. Ele citou uma reunião feita pelo governo Lula, em janeiro, sobre o tema, e afirmou que, diante do genocídio em Gaza, a prioridade deveria ser combater o sionismo.

“A luta contra o antissemitismo, como eles falam, é uma cobertura para a perseguição aos defensores da Palestina. Ninguém está perseguindo o judeu. O que aconteceu para que isso seja uma prioridade agora? Não aconteceu nada. No momento em que tem um genocídio em Gaza, você apresenta o antissemitismo como prioridade, está encobrindo o que está acontecendo lá.”

Segundo Pimenta, a acusação de antissemitismo funciona como um instrumento político para intimidar os defensores da Palestina. Ele afirmou que a repulsa mundial contra “Israel” cresce porque os crimes cometidos em Gaza são vistos por milhões de pessoas.

“A verdade verdadeira é que as ações da organização política que fala em nome dos judeus estão sendo objeto de uma repulsa universal. E eu acho que ele nem calcula a profundidade dessa repulsa. É profunda a rejeição, é muito profunda.”

América Latina

Na sequência, Leandro Fortes perguntou sobre o avanço da extrema direita na América do Sul. Pimenta afirmou que há uma onda geral de direita no continente, impulsionada pelo imperialismo e pelo governo Trump. Para ele, esse avanço representa um problema geral, não apenas eleitoral.

“Não há dúvida nenhuma de que é uma onda geral de direita, impulsionada pelo imperialismo, o imperialismo tradicional e pelo Trump também, pelo governo Trump. Isso é um problema. Não é um problema apenas para a eleição, é um problema geral. É uma onda reacionária.”

O presidente do PCO afirmou que Lula fica mais isolado nesse cenário, inclusive porque hostilizou a Venezuela. Ele disse ainda que a ofensiva da direita tem relação com o fracasso dos governos de esquerda no continente, que não conseguiram resolver os problemas fundamentais da população.

Pimenta também comentou a declaração de Lula, no G7, de que não seria de esquerda. Para ele, a fala é desastrosa porque tenta apresentar Lula como candidato de centro, posição sem apoio popular no Brasil.

“Se uma parte do eleitorado dele levasse a sério essa declaração de que ele é o candidato do centro, quer dizer, ele é o novo Aécio Neves, o pessoal não votava. É que o pessoal não leva a sério. O pessoal considera que ele é um candidato de esquerda, por isso vai votar. Ele ia perder uma quantidade imensa de votos.”

Governo Lula

Pimenta criticou ainda a campanha eleitoral do PT. Segundo ele, o partido não apresenta um programa estratégico para o País e se concentra em uma campanha moralista contra os bolsonaristas, sem conteúdo político.

“A campanha eleitoral do PT é uma campanha muito oportunista. Muito bem feita, mas muito despolitizada. Já não é de hoje que o PT não tem um programa estratégico para o Brasil. A campanha não tem nem proposta imediata. É uma campanha mais tipicamente da direita.”

Ao tratar da crise envolvendo Jaques Wagner e o Banco Master, Pimenta disse não acreditar que se trate de uma nova Lava Jato contra o PT. Para ele, há manipulação política, mas o interesse principal parece ser dos bancos, voltado a desmontar o esquema político ligado ao bolsonarismo.

Sobre a política externa do governo Lula, Pimenta avaliou que ela tem sido direitista. Ele afirmou que o governo brasileiro condenou verbalmente o genocídio em Gaza, mas não tomou medidas concretas contra “Israel”.

“A política externa do governo Lula foi uma política externa bastante direitista. A tomada de posição do Lula em questões internacionais de maior impacto foi ele falar que havia um genocídio em Gaza. Agora, ao mesmo tempo, a ação do governo em relação a isso é nenhuma. Ele não fez absolutamente nada de significativo.”

Eleição e extrema direita

Questionado sobre uma possível vitória de Flávio Bolsonaro, Pimenta lembrou que, em 2018, o PCO denunciou a eleição de Jair Bolsonaro como fraudulenta, pois Lula foi retirado ilegalmente da disputa. Segundo ele, diante de um novo governo bolsonarista, seria necessário organizar uma campanha contra a política econômica e a política repressiva da direita.

“Eu acho que é necessário preparar uma campanha contra a política econômica principalmente e a política repressiva do Flávio Bolsonaro. Repressiva é no sentido de repressão à criminalidade. Os bolsonaristas são admiradores do Bukele, eles querem implantar a mesma coisa no Brasil.”

Pimenta afirmou também que o PCO pode crescer em uma situação de maior radicalização política, mas destacou que o sistema eleitoral brasileiro é profundamente antidemocrático, favorecendo os grandes partidos, financiados com bilhões de reais.

Palestina e ‘Israel’

Ao voltar ao tema da Palestina, Pimenta afirmou que o Estado de “Israel” deveria deixar de existir, por ser um Estado de segregação e apartheid. Ele também disse que a solução de dois Estados não resolve o problema, pois manteria a subordinação dos palestinos.

“O Estado de ‘Israel’ teria que deixar de existir. É um Estado de segregação, de apartheid. Isso sem falar que, para formar o Estado de ‘Israel’, os palestinos em grande número tiveram que ser expulsos da Palestina, e isso foi feito de maneira extremamente violenta.”

Para Pimenta, uma autoridade palestina sem soberania real não pode ser tratada como um Estado. Ele citou os Acordos de Oslo como exemplo de uma solução que não entregou poder efetivo aos palestinos.

Identitarismo e Seleção Brasileira

Pimenta também comentou o identitarismo. Segundo ele, essa política é usada pelo imperialismo para jogar minorias contra a maioria nacional e contra os países que pretende oprimir. O presidente do PCO afirmou que essa orientação pode terminar prejudicando justamente as minorias que afirma defender.

“O identitarismo é um abuso permanente, contra vários tipos de pessoas e contra várias pessoas. É censura, não pode falar nada, é uma perseguição das pessoas, é um método truculento. A hora que isso se esgotar, ninguém vai estar lá para defender o transexual.”

Sobre a Seleção Brasileira, Pimenta discordou das críticas que, segundo ele, passaram de uma análise futebolística para uma campanha contra a Seleção. Para o presidente do PCO, o sentimento popular é torcer pelo Brasil.

“Não é uma discussão séria sobre futebol. A campanha contra o Neymar é grotesca. O pessoal torce para a Argentina, algumas coisas assim que eu acho que são meio escatológicas. Enquanto isso, o sentimento popular não é esse. O sentimento popular é torcer pela Seleção Brasileira.”

Irã

No final da entrevista, Pimenta comentou a situação do Irã e o assassinato do aiatolá Saied Ali Khamenei, Líder da Revolução Islâmica. Para ele, o crime foi um erro catastrófico do imperialismo e acabou fortalecendo o regime político iraniano.

“A morte do aiatolá foi o principal, maior erro que eu já vi alguém cometer em termos de política internacional. Foi um erro catastrófico. Isso reforçou o regime político iraniano de uma maneira que acho que nenhum outro acontecimento faria. Nem a própria guerra em si.”

Pimenta afirmou que o Irã saiu fortalecido da guerra, em especial pelo controle do Estreito de Ormuz. Segundo ele, se esse controle se consolidar, será uma das maiores derrotas do imperialismo em toda a história recente.

“Se o Irã consolidar o controle dele sobre o estreito, e eu acho que não há como impedir esse desenvolvimento, isso é uma das maiores derrotas em termos de política internacional para o imperialismo em toda a história. Você tem um país que não é um país imperialista, e ele vai controlar. Eles fecharam e agora vão ficar lá.”

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