Ricardo Machado

É dirigente do Sindicato dos Bancários de Brasília e ex-dirigente da CUT-DF. Integra a Coordenação dos Comitês de Luta do DF e Membro do Partido da Causa Operária (PCO)

Coluna

Sem uma Conferência de base não haverá Campanha Salarial 

A Conferência com essa burocracia à frente está mais para uma brincadeira de faz de conta

Entre os dias 19 e 21 deste mês, aconteceu, na cidade de São Paulo, a 28ª Conferência Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, cujo objetivo era discutir e aprovar a minuta de reivindicações dos bancários a ser levada à mesa de negociação junto aos banqueiros.

A Conferência contou com a presença de cerca de 800 pessoas, entre delegados e convidados, eleitos em suas bases em todo o território nacional, em sua grande maioria composta por dirigentes sindicais, representantes dos mais de 100 sindicatos espalhados pelo País.

A Corrente Sindical Nacional Causa Operária, Bancários em Luta, esteve presente nessa Conferência e, o que se verificou, mais uma vez, é que, a cada campanha salarial, a burocratização do processo de “organização” da categoria e a discussão das verdadeiras reivindicações não partem de uma luta da base dos trabalhadores, mas sim de propostas decididas por uma minoria encastelada nos sindicatos, nas federações e na confederação dos trabalhadores bancários.

Foram três dias com intermináveis painéis, em que um convidado passava horas falando de um determinado assunto, enquanto os delegados apenas assistiam. Eram abertas algumas intervenções, no máximo seis, com apenas três minutos para que cada um expusesse suas ideias. Caso passasse desse tempo, a mesa, com a característica peculiar de verdadeiros burocratas, de forma ditatorial, desligava o microfone do orador.

Somente no último dia da Conferência é que se cedeu cerca de uma hora e meia do precioso tempo da burocracia sindical para “discutir” — entre aspas mesmo, já que não houve discussão — quatro reivindicações consideradas “polêmicas”: estatização do sistema financeiro; se o índice de “ganho real” seria o valor rebaixado de 5% ou 10%; PLR linear ou não; fim das metas ou fim das metas abusivas. Com os votos dos delegados alinhados com a corrente majoritária do PT, a Articulação Bancária, foram aprovadas, nesses quesitos, as piores propostas: contra a estatização do sistema financeiro; pelo “ganho real” de 5%; por um cálculo da PLR que os banqueiros adoram; e contra as metas abusivas, sabe-se lá o que isso significa. Também foi aprovada a minuta de reivindicações que, cá para nós, ninguém viu e ninguém sabe onde foi parar, pois em nenhum momento disponibilizaram a tal minuta para os delegados presentes.

A Conferência, com essa burocracia à frente, está mais para uma brincadeira de faz de conta, no sentido de iludir toda a categoria e satisfazer os interesses dos banqueiros.

Diante da ofensiva reacionária sem precedentes contra as já precárias condições de vida do trabalhador bancário, fica cada vez mais claro que o principal obstáculo para uma reação da categoria é a política de capitulação das direções.

Diante do presente quadro, a única maneira efetiva de se opor aos banqueiros é a categoria tomar em suas próprias mãos a tarefa de construir uma verdadeira campanha salarial, por meio de um programa que reflita as reais necessidades dos trabalhadores: reposição de todas as perdas salariais, de 27%; piso salarial de R$ 8 mil; estabilidade no emprego; fim das terceirizações; ganho real de 20% etc.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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