Em evento nessa sexta-feira (19), em Belo Horizonte, o presidente Lula resolveu atacar Neymar. Convocado para a seleção brasileira, o atacante seria, nas palavras do presidente, o “primeiro jogador home office” a vestir a amarelinha. Lula ainda disse que, qualquer dia, será preciso montar a Seleção por inteligência artificial, com “11 Pelés”.
Lula ataca Neymar porque o jogador é identificado com o bolsonarismo. Faz disso uma pequena operação de demagogia eleitoral: tenta marcar pontos contra o adversário político usando um nome popular. Só que, neste caso, o cálculo dá errado. E dá errado por um motivo que a esquerda petista parece incapaz de perceber.
Neymar é popular. Muito, mas muito popular. A convocação deixou isso evidente. A maioria do povo queria o jogador na Seleção, comemorou sua volta e não tem interesse algum em vê-lo sendo ridicularizado pelo presidente da República. Atacar o maior craque brasileiro dos últimos 15 anos para agradar à imprensa burguesa não rende voto. Rende o contrário.
Pior: rende para a direita. O bolsonarismo anota o episódio e vai cobrar a conta depois, como sempre faz. A direita, quando pode, abraça o futebol e tenta se apropriar dele. Bolsonaro fez isso na Copa América de 2019, posando ao lado da taça como se o título fosse obra sua. A ditadura militar fazia o mesmo, sem nenhum pudor.
A esquerda faz o oposto. Afasta-se da Seleção, torce o nariz, inventa mil ressalvas e, de quebra, ataca o maior ídolo do País. Dá de presente um dos maiores patrimônios populares brasileiros a quem nunca teve vergonha de explorá-lo politicamente.
E dá de presente com um argumento falso. Neymar foi convocado pelos números. Em 2026, soma 15 jogos, seis gols e quatro assistências. São 10 participações diretas em gols, aproveitamento superior ao de boa parte dos atacantes que estão na Seleção. Se não vive seu melhor momento físico, é por uma sucessão de lesões agravadas pela complacência da arbitragem, que nunca o protegeu. A entrada criminosa de Zúñiga, na Copa de 2014, quase encerrou sua carreira. E não rendeu sequer um cartão.
Convocar um craque em recuperação, aliás, não é nenhuma novidade na história da Seleção. Ronaldo chegou abalado em 2002 e terminou artilheiro da Copa e com o Penta. Rivaldo também era questionado e foi decisivo. Kaká foi a 2010 fisicamente combalido. Zico conviveu com lesões em 1982. Tostão disputou 1970 sob ameaça de perder a visão. Branco, criticado em 1994, decidiu a Copa.
A lesão não apaga o mérito de ninguém. O que importa é colocar os melhores em campo. Muitas vezes, é justamente o jogador machucado quem se entrega por inteiro, porque sabe que a Copa do Mundo pode ser sua última grande oportunidade. É a Copa. Para o jogador brasileiro, não há nada maior.
Que Neymar seja bolsonarista não muda nada disso. Romário é senador de direita e foi tetracampeão. Ninguém em sã consciência apagaria seu nome da história por causa do voto. A esquerda que finge não entender isso se afasta ainda mais do povo que diz representar.
O problema de fundo é que Lula confunde a opinião pública com a opinião da imprensa burguesa. É essa imprensa anti-nacional — que despreza o futebol brasileiro e que ataca o próprio Lula todos os dias — que ele toma como voz das ruas.
É o mesmo erro que aparece quando a esquerda se agarra à defesa do STF e de Alexandre de Moraes como se isso empolgasse as massas. Confunde o aplauso dos editoriais com o apoio do povo. Depois descobre, tarde demais, que são coisas opostas.
O papel de um presidente deveria ser exatamente o contrário. Diante de uma imprensa que ataca a Seleção e de uma arbitragem que historicamente prejudica o futebol brasileiro, caberia a Lula defender os jogadores e o País. Dizer, em alto e bom som, que a Seleção tem o apoio do povo brasileiro e que não será abandonada aos que torcem contra.
Era essa a oportunidade. Em vez disso, Lula escolheu o deboche. E o deboche contra aquilo que o povo ama.




