Um relatório da Polícia Federal aponta que Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, pagava R$400 mil por mês ao agente aposentado Marilson Roseno da Silva para obter informações sigilosas de investigações em andamento. Segundo a apuração, Roseno organizou um esquema de vazamento dentro da própria corporação, recrutando servidores da ativa e policiais aposentados para acessar sistemas internos da PF.
A investigação, divulgada nesta quarta-feira (17) pela Folha de S.Paulo, afirma que Roseno ofereceu pagamentos via Pix, presentes e até uma espécie de pagamento de fim de ano, descrito como “oferenda” de Vorcaro, para cooptar agentes da Polícia Federal. Entre os nomes citados estão o agente Anderson Wander da Silva e a delegada Valéria Vieira Pereira da Silva. Também aparecem no relatório os policiais federais aposentados Sebastião Monteiro Júnior e Francisco Pereira da Silva, além de um terceiro agente da ativa não identificado.
De acordo com a PF, a família Vorcaro conseguiu acesso a dados registrados em sistemas internos, como o e-Pol, onde são armazenadas informações sobre inquéritos em curso.
Foi por meio desse mecanismo, segundo a investigação, que Daniel Vorcaro teve acesso a um mandado de prisão contra ele mesmo. A informação foi repassada a um portal jornalístico, com o objetivo de antecipar a divulgação do caso e utilizá-la em sua defesa.
A PF afirma que os pagamentos feitos a Roseno eram disfarçados como prestação de serviços da empresa Roseno & Ribeiro Gestão Empresarial Ltda. Parte dos valores passava pela King Participações, de Luiz Phillipi Mourão, funcionário de Daniel Vorcaro citado no relatório. Os repasses a Mourão, segundo os investigadores, eram feitos por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel.
Mensagens obtidas pela corporação mostram cobranças de Roseno a Henrique Vorcaro. Em 6 de janeiro, após atraso nos repasses, o policial aposentado escreveu: “Estou segurando uma manda de búfalo [sic]. Não me deixe a deriva, por favor [sic]”. Vorcaro respondeu que enviaria “imediatamente 400”. Roseno, então, afirmou que o ideal seria o envio de R$800 mil, alegando que Mourão repassava apenas metade do valor combinado.
Três dias depois, em 9 de janeiro, Henrique Vorcaro escreveu a Roseno: “No momento que estou é que preciso de vocês”. O policial respondeu: “Nos ajude para podermos lhe ajudar, mestre”. Em seguida, completou: “Recurso já chegou aí, tá faltando boa vontade [sic]”.
Segundo a PF, o contador de Roseno também orientava formas de ocultar a origem dos depósitos ligados à família Vorcaro. Entre as medidas citadas estão o uso de CPFs de terceiros e o fracionamento de valores para evitar alertas. A investigação menciona Erlene Nonato Lacerda como suposta laranja do policial aposentado. Nos autos constam notas fiscais de dois pagamentos de R$50 mil feitos por uma empresa de Vorcaro a Erlene.
O relatório também aponta que Erlene pagava despesas particulares de Roseno. O policial aposentado mantinha padrão de vida elevado em Belo Horizonte, onde possuía apartamento em bairro nobre e uma caminhonete Hilux.
O agente da ativa Anderson Wander da Silva é apontado pela PF como peça central para o funcionamento do esquema. O relatório o qualifica como longa manus, expressão em latim usada para indicar alguém que atua como executor das ordens de outra pessoa. Segundo a investigação, Wander acessou no e-Pol, ao menos em 2023, dados de investigações contra Vorcaro. Ele também recorreu a um colega para consultar informações de passaporte a pedido de Roseno.
Além dos pagamentos mensais, Roseno também teria combinado repasses extras ao agente. Em uma das mensagens, o policial aposentado escreveu: “Mandar um presente pra filhota que passou no vestibular [sic]. Qual o Pix?”. A PF identificou um repasse via Pix feito a Wander em 31 de dezembro de 2025. Em áudio, o agente agradeceu o valor. Para os investigadores, o pagamento é compatível com o bônus de fim de ano repassado ao núcleo ligado a Daniel Vorcaro.
A delegada Valéria Vieira Pereira da Silva também realizou consultas de interesse da família Vorcaro, segundo a PF. Em fevereiro de 2024, ela acessou um inquérito no qual Henrique Vorcaro figurava como alvo no ano anterior. Os documentos foram encaminhados a Roseno por seu marido, o agente aposentado Francisco José Pereira da Silva.
Mensagens analisadas pela PF indicam que, após não conseguir documentos sigilosos com Wander, Roseno avisou que procuraria “um colega”. Menos de uma hora depois, Valéria acessou peças do inquérito contra Henrique Vorcaro. No mesmo dia, 23 de fevereiro de 2024, as informações foram encaminhadas a Daniel Vorcaro.
A PF afirma, no entanto, que não identificou pagamentos feitos diretamente a Valéria e Francisco. Os investigadores também constataram que muitas mensagens enviadas ao casal foram apagadas.
Outro nome citado é o do policial federal aposentado Sebastião Monteiro Júnior. De acordo com o relatório, ele se reunia com Roseno e é apontado como responsável por recrutar agentes da ativa para o grupo. Em áudios interceptados pela PF, os dois combinam conversar sobre “uma ideia” em local discreto. Imagens de câmeras de segurança confirmam um encontro entre eles.
Por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), Marilson Roseno da Silva, Sebastião Monteiro Júnior, Francisco Pereira da Silva e Anderson Wander da Silva foram alvos de mandados de prisão preventiva. A delegada Valéria Vieira Pereira da Silva foi afastada do cargo.





