Palestina

USAID: outra arma imperialista para atacar o povo palestino

A denúncia contra a UNRWA revela a ajuda externa como instrumento de pressão imperialista

A nova denúncia do Escritório do Inspetor-Geral da USAID recoloca a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) no centro de uma ofensiva política conduzida pelo imperialismo norte-americano.

Segundo o material divulgado, cerca de 101 funcionários da agência da ONU teriam ajudado o Hamas na operação de 7 de outubro de 2023 contra “Israel”. A acusação, apresentada como parte de uma investigação federal em curso, envolve trabalhadores de diferentes áreas da UNRWA, entre eles diretores de escola, professores, seguranças, atendentes e profissionais médicos. O mesmo conjunto de informações afirma que aproximadamente 1.500 funcionários estariam sob investigação e que 108 pessoas teriam sido suspensas, ou proibidas de atuar em organizações de ajuda financiadas pelos Estados Unidos por supostos vínculos com o Hamas, ou participação nos acontecimentos de outubro de 2023.

O relatório atribui a alguns funcionários da UNRWA funções militares ou de inteligência em organizações palestinas. Um vice-diretor de escola, segundo a denúncia, também atuaria como vice-comandante das Brigadas al-Qassam; outro funcionário seria apontado como líder de esquadrão em Khan Younis. A acusação menciona ainda professores que teriam servido como militares ou oficiais de inteligência do Hamas e de grupos aliados, e afirma que um deles teria transportado mísseis antitanque. O conteúdo é grave, mas sua divulgação não ocorre em terreno neutro. Ela aparece em um momento no qual a assistência aos palestinos já vinha sendo tratada como suspeita permanente por setores do Estado norte-americano e por aliados de “Israel”.

A consequência imediata é o reforço da tentativa de estrangular a UNRWA, uma das principais estruturas de atendimento aos refugiados palestinos. A denúncia serve como justificativa para ampliar o bloqueio do financiamento norte-americano à agência e aprofundar a campanha de deslegitimação contra a organização que sustenta escolas, clínicas e serviços básicos para milhões de palestinos.

O argumento oficial é que a assistência humanitária financiada pelos Estados Unidos não pode “cair nas mãos” do Hamas. Essa formulação, porém, desloca o centro do problema: em vez de reconhecer a catástrofe humanitária produzida pela ocupação, pelo cerco e pela destruição de Gaza, transforma a própria rede de ajuda aos refugiados em objeto de criminalização.

A pressão contra a UNRWA também se conecta à política interna dos Estados Unidos. Parlamentares republicanos defenderam o desmantelamento completo da agência e sua eliminação do orçamento das Nações Unidas. A segunda administração Trump avançou na retirada de financiamento à UNRWA em 2025, em consonância com uma política externa que combina apoio a “Israel”, punição coletiva aos palestinos e reordenamento da assistência externa segundo os interesses diretos de Washington. Assim, a denúncia da USAID visa produzir suspeição sobre trabalhadores palestinos, fragilizar instituições de assistência e justificar a redução de recursos em meio à fome, aos deslocamentos forçados e à destruição de Gaza.

A propaganda imperialista de corte humanitário

A USAID foi criada em 1961 com o pretexto de unificar programas de assistência externa dos Estados Unidos. Desde sua origem, apresentou-se como agência voltada ao desenvolvimento, à saúde, à educação e à resposta a crises humanitárias. Essa imagem, contudo, sempre teve função estratégica: a ajuda pretensa externa sempre foi concebida como instrumento de política externa norte-americana, especialmente durante a Guerra Fria. Ao longo das décadas, a agência administrou dezenas de bilhões de dólares por ano e combinou supostos programas sociais com mecanismos de influência política, formação de elites locais e pressão sobre governos não alinhados.

No início da segunda administração Trump, em 2025, a agência passou por uma das maiores reestruturações de sua história. A suspensão temporária da maior parte da assistência externa abriu caminho para cancelamentos em massa de contratos, demissões e transferência de programas remanescentes ao Departamento de Estado. Em março de 2025, Marco Rubio anunciou o cancelamento de mais de 80% dos programas e contratos da USAID, mantendo apenas uma fração compatível com a agenda “America First”. A justificativa falava em eliminar desperdícios e fraudes; na prática, a assistência externa foi subordinada ainda mais diretamente à lógica de segurança nacional. A investigação contra a UNRWA ilustra esse novo momento: mesmo reduzida, a USAID continua sendo mobilizada para definir quem pode receber ajuda, quem deve ser excluído e quais populações serão colocadas sob suspeita.

Parte da esquerda está capturada pelo humanitarismo imperialista

É nesse ponto que se torna necessária uma crítica a setores da esquerda que lamentaram o enfraquecimento da USAID apenas porque a medida foi conduzida por Trump. Ser oposição a Trump não pode significar defesa automática de estruturas reconhecidamente de intervenção do imperialismo norte-americano. A USAID nunca foi uma instituição neutra. Na América Latina, sua sigla está associada a experiências como os acordos MEC-USAID no Brasil, firmados durante a ditadura militar sob o pretexto de modernizar a educação, mas orientados por uma concepção subordinada aos interesses estratégicos dos Estados Unidos.

A fachada humanitária da USAID sempre foi parte de sua força. A nova ofensiva contra a UNRWA mostra que essa crítica não pertence apenas ao passado. A USAID continua atuando como aríete do imperialismo norte-americano e, neste novo capítulo de sua história, é utilizada para atacar mais uma vez os palestinos: pela retirada de recursos, pela criminalização da ajuda e pela tentativa de transformar trabalhadores humanitários em extensões presumidas do inimigo.

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