Universidade Marxista

Revolução Iraniana expôs ao mundo o golpe da CIA de 1953

Documentos apreendidos na embaixada norte-americana em 1979 e confirmação da CIA em 2013 transformaram derrubada de Mossadeq em um dos golpes mais bem documentados da história

O golpe militar que derrubou o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq em 1953 e instalou a ditadura do Xá Mohamed Reza Pahlavi no Irã foi, durante décadas, uma operação cercada de mistério. Os governos envolvidos negavam sua participação. A documentação permanecia trancada nos arquivos das agências de inteligência. As denúncias circulavam principalmente em meios restritos, sem alcançar grande projeção pública internacional. Foi a Revolução Iraniana de 1979 que mudou essa situação, ao expor publicamente o conjunto de documentos que comprovavam a operação imperialista contra a soberania iraniana.

A Universidade Marxista realizará entre os dias 27 de junho e 5 de julho o curso A história do Irã e da República Islâmica, parte da Universidade de Férias de inverno da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR). O golpe de 1953 e a documentação que a Revolução de 1979 trouxe à luz serão tratados em aula pelo ministrante do curso, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República.

Hoje, em grande medida graças ao que os revolucionários iranianos trouxeram a público, o golpe de 1953 é uma das operações de mudança de regime mais bem documentadas da história mundial. Os arquivos apreendidos na embaixada norte-americana em Teerã, somados às confirmações posteriores feitas pela própria CIA em 2013 e ao depoimento tardio de agentes britânicos, permitem reconstruir cada etapa da conspiração.

Sete anos depois da tomada da embaixada, em 1986, novos volumes da coleção ainda estavam sendo lançados. “Sempre que em Teerã se fala em aproximação com os Estados Unidos, outro volume é publicado como um lembrete do envolvimento norte-americano nos assuntos do Irã”, disse um oficial iraniano anônimo a uma reportagem do New York Times publicada em 10 de julho de 1986. A República Islâmica utilizava o material apreendido como arma permanente contra eventuais tentativas de reaproximação política com o imperialismo norte-americano.

Naquele período, o presidente do Irã era Ali Khamenei, que seria depois líder da Revolução Islâmica e foi assassinado pelos EUA e por “Israel” em 28 de fevereiro de 2026. A cada vez que setores internos sugeriam algum tipo de acomodação com o imperialismo, novos volumes lembravam quem havia sido o real responsável pela ditadura derrubada em 1979.

O livro de memórias que se tornou ficção

Antes mesmo da Revolução, o agente da CIA Kermit Roosevelt Jr., que liderou o golpe de 1953 no terreno, havia escrito um livro de memórias intitulado Countercoup: The Struggle for the Control of Iran. A publicação foi adiada justamente por conta da Revolução Iraniana. Quando finalmente saiu, o livro foi completamente ofuscado pelo que os revolucionários iranianos haviam exposto a partir dos arquivos da embaixada.

A razão da defasagem entre o livro de Roosevelt e os documentos da embaixada é simples: os manuscritos do agente haviam sido aprovados tanto pelo Xá, com quem mantinha relações próximas, como pelo próprio serviço secreto norte-americano. “Basicamente, Roosevelt refletiu fielmente as mudanças que sugerimos a ele. Portanto, isso [seu livro] se tornou essencialmente uma obra de ficção”, afirma memorando obtido por pesquisadores norte-americanos da Universidade George Washington, que organizam o portal The National Security Archive. O próprio relato do operador do golpe foi censurado pelos que o haviam comandado.

A confirmação tardia da CIA

A confirmação oficial da operação pela própria CIA só veio em 2013, 60 anos após o golpe. A agência forneceu à Universidade George Washington um documento interno escrito em meados dos anos 1970, intitulado A Batalha pelo Irã, que reconta a história da intervenção e seus desdobramentos. A liberação do documento, sob pressão de pesquisadores acadêmicos, validou o que os iranianos vinham denunciando desde 1979 a partir dos arquivos da embaixada.

A admissão norte-americana, ainda que tardia, não tem paralelo do lado britânico. O Reino Unido, embora apareça em todos os documentos como parte ativa do golpe, nunca admitiu sua participação nos acontecimentos. As digitais do MI6 estão por todo lado, a começar pelo motivo central da indisposição com o governo de Mossadeq: a nacionalização da exploração do petróleo iraniano, então concentrada nas mãos da Anglo-Persian Oil Company, hoje British Petroleum (BP).

O depoimento britânico censurado por 30 anos

O esforço britânico para ocultar sua participação na conspiração chegou ao ponto de censurar o depoimento de Norman Darbyshire, agente do MI6 que atuou como homólogo de Roosevelt na Operação TP-AJAX, liderando o lado britânico do golpe. Em 1985, Darbyshire foi entrevistado pela série documental End of Empire, que tratava da decadência do império britânico. Seu depoimento, no entanto, só seria exibido em 2019, mais de 30 anos depois da gravação, no documentário Coup 53, após seu diretor encontrar a entrevista nos manuscritos do programa original.

No relato, Darbyshire não esconde o orgulho do trabalho realizado e expressa desgosto pelo fato de os norte-americanos terem ficado com todo o crédito pela operação. Suas palavras confirmam pela boca de um dos próprios executores aquilo que os documentos da embaixada já haviam exposto desde 1979. A censura britânica por mais de três décadas mostra que a manobra de ocultação se estendeu muito além do imediato pós-golpe e continuou operando ao longo de toda a chamada “Guerra Fria”.

A importância política do caso

A vasta documentação reunida não deixa dúvida de que mudanças de regime são meticulosamente planejadas pelas potências imperialistas. Foi a primeira operação desse tipo após o final da Segunda Guerra Mundial e marcou o início da dominação política mundial dos Estados Unidos sobre um Império Britânico em decadência.

Para os norte-americanos, foi uma lição fundamental, principalmente por ocorrer logo após a custosa Guerra da Coreia. Ensinou que há meios muito mais baratos e eficazes de substituir um regime hostil por um amigável ao imperialismo do que a intervenção militar direta. As operações que se seguiriam, da Guatemala em 1954 ao Brasil em 1964 e adiante, seguiram o modelo desenvolvido contra Mossadeq. A República Islâmica, ao expor essa documentação, prestou um serviço político à humanidade inteira que continua sendo ignorado pela propaganda imperialista.

O curso A história do Irã e da República Islâmica será ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO. As inscrições podem ser feitas pelo sítio unimarxista.org.br ou pelo telefone (11) 99741-0436.

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