O Irã impôs aos Estados Unidos e a “Israel” um acordo de cessar-fogo que marca uma importante derrota política e militar da dominação imperialista no Oriente Próximo. Segundo informações divulgadas nesta segunda-feira (15) pela agência iraniana Tasnim, o memorando de entendimento prevê o fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, inclusive no Líbano, além da suspensão do bloqueio naval imposto contra a República Islâmica.
O acordo, mediado pelo Paquistão e pelo Catar, tem assinatura formal marcada para a próxima sexta-feira (19), em Genebra, na Suíça. No entanto, parte das medidas começou a ser aplicada já nesta segunda-feira. De acordo com a Press TV, ao menos três petroleiros iranianos e dois navios cargueiros com bens essenciais atravessaram as águas internacionais sem impedimento, depois do fim oficial do bloqueio naval norte-americano.
Segundo a Tasnim, o Irã conseguiu incluir, nos últimos momentos das negociações, a expressão “gestão dos serviços de navegação marítima no Estreito de Ormuz” por Irã e Omã. Durante 60 dias, os navios que atravessarem a região estarão isentos de taxas. Depois desse período, o Irã pretende cobrar pelos serviços de navegação.
O presidente norte-americano Donald Trump tentou impor a reabertura simultânea do estreito e o fim do bloqueio no momento do anúncio do entendimento. O Irã recusou. Ficou estabelecido que a reabertura completa de Ormuz ocorrerá após a assinatura formal do memorando, na sexta-feira.
O próprio Trump reconheceu, em declarações feitas ao chegar à França para a reunião do G7, que o acordo já foi assinado digitalmente e que o Estreito de Ormuz está parcialmente aberto. “Na sexta-feira, estará completamente aberto”, afirmou.
A derrota dos Estados Unidos aparece ainda em outros pontos do documento. O artigo 4 determina que as forças de combate norte-americanas se retirem dos arredores do Irã 30 dias depois de um acordo final. O artigo 9 estabelece que os Estados Unidos não enviarão novas forças para a região durante o período de 60 dias de negociações. Em troca, o Irã não adotará novas medidas nucleares nesse mesmo período.
No terreno econômico, o mesmo artigo 9 impede os Estados Unidos de impor novas sanções durante os 60 dias de negociações. O artigo 7 estabelece que, após o acordo final, os norte-americanos deverão levantar sanções primárias e secundárias, além de sanções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Junta de Governadores. O artigo 11 prevê autorizações para a venda de petróleo, petroquímicos e derivados, abrangendo transporte, seguro, vendas e transações financeiras.
Outro elemento decisivo do entendimento é o Líbano. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, afirmou que o fim da guerra israelense contra o Líbano é “parte inseparável” do entendimento com os Estados Unidos. Segundo ele, a palavra Líbano aparece três vezes no memorando.
Baghaei destacou que o texto menciona o fim da guerra também no Líbano e inclui o respeito à soberania e à integridade territorial do país. A inclusão desse trecho foi uma concessão arrancada nos últimos momentos da negociação. Segundo a Tasnim, Trump havia se recusado inicialmente a aceitar a fórmula que garante a soberania libanesa, mas acabou cedendo.
“Não confiamos no regime sionista, assim como não confiamos nos EUA. Ao mesmo tempo, temos nossos próprios instrumentos. Os Estados Unidos devem cumprir seus compromissos e garantir que o regime sionista cumpra sua obrigação de não atacar o Líbano”, afirmou Baghaei.
O artigo 13 do memorando dá ao Irã um instrumento direto contra novas provocações. O texto estabelece que, em caso de agressão ou operação militar, como assassinatos no Irã, na Frente da Resistência ou no Líbano, não haverá negociações para um acordo final. Além disso, a implementação do memorando, incluindo a reabertura de Ormuz, será suspensa.
Em outras palavras, “Israel” não fica livre para sabotar o acordo por meio de ataques no Líbano. Se o regime sionista tentar repetir as agressões contra o Líbano ou contra a Resistência, o Irã tem base formal para interromper o processo.
A reação em “Israel” mostra o tamanho da derrota. Netaniahu afirmou que há momentos em que seu governo discorda de Trump. Disse também que pretende manter tropas na chamada “zona de segurança” no Líbano, isto é, a ocupação israelense, “pelo tempo necessário”. Ao mesmo tempo, admitiu que seu governo ainda não conhece todos os detalhes do acordo com o Irã.
A imprensa israelense descreve o resultado como um fracasso. Segundo o jornal Israel Hayom, a guerra contra o Irã terminou em derrota para “Israel” e com o Irã mais forte, com seu governo de pé, sua capacidade nuclear preservada e um acordo econômico em formação.
O ex-primeiro-ministro Ehud Barak afirmou que o acordo é “extremamente ruim” e que “Israel” paga o preço da arrogância e da cegueira de Benjamin Netaniahu. Segundo ele, o regime não alcançou nenhum dos objetivos da guerra.
Um dirigente israelense, citado pelo canal i24, reconheceu que, caso a liderança israelense soubesse que a guerra terminaria dessa forma no plano político, talvez não tivesse entrado nela. A declaração é uma confissão de derrota.
O jornal Yedioth Ahronoth também informou que Netaniahu perdeu grande parte de sua capacidade de influenciar a política norte-americana e não conseguiu impedir o avanço do entendimento entre Irã e Estados Unidos. Segundo a publicação, o ataque israelense recente contra os subúrbios do sul de Beirute foi visto por setores do próprio aparelho militar israelense como uma tentativa de criar um obstáculo ao acordo. O resultado foi o oposto: Netaniahu ficou mais isolado.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, ressaltou que o Irã conduzirá as tratativas com desconfiança e cautela, devido ao histórico norte-americano de violação de compromissos. O porta-voz do Exército iraniano, general Mohammad Akrami-Nia, declarou que as Forças Armadas manterão o nível máximo de prontidão durante a implementação do entendimento. Segundo ele, o Irã aumentará suas capacidades defensivas e de dissuasão durante o período do acordo.
“Temos desconfiança completa no inimigo. Estamos diante de um inimigo que bombardeou a mesa de negociações duas vezes e apunhalou a diplomacia pelas costas”, afirmou. O general disse ainda que qualquer violação do memorando terá resposta rápida e forte, com retorno imediato da situação militar às condições anteriores ao acordo.
O presidente iraniano Masoud Pezeshkian afirmou que a irritação de “Israel” diante do entendimento é um sinal claro da vitória do povo iraniano. O presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Qalibaf, declarou que o Irã deu “um grande passo rumo à vitória final” depois de resistir à tentativa de destruição e rendição do país.
O comandante da Força Quds, general Esmail Qaani, também avaliou que a guerra imposta ao Irã desacreditou completamente os Estados Unidos e acelerou o desmoronamento do regime israelense. Segundo ele, a Resistência mostrou que não abandona o campo de batalha, mesmo diante da destruição em Gaza e no Líbano.
O acordo de cessar-fogo é, portanto, uma vitória do Irã e do Eixo da Resistência. Os Estados Unidos saem obrigados a retirar tropas, suspender bloqueio naval, aceitar inclusão do Líbano no entendimento e negociar sob a ameaça permanente de que qualquer nova agressão recoloca a região em estado de guerra. A humilhação é ainda maior porque “Israel”, que tentou arrastar os Estados Unidos para uma guerra aberta contra o Irã, termina subordinado a um acordo que Netaniahu não conseguiu impedir.





