Em uma sabatina nesta sexta-feira (12), o pré-candidato à Presidência da República e dirigente do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, participou do podcast Iron Talks. Durante mais de quatro horas de transmissão, o dirigente marxista e o apresentador Felipe protagonizaram um embate sobre a essência da natureza humana, os limites do capitalismo e os conflitos políticos no Oriente Médio.
O programa iniciou com o debate sobre o identitarismo. Ao responder, Rui Costa Pimenta surpreendeu ao rechaçar o termo “progressismo” e diagnosticar o momento atual não como uma era de libertação, mas de decadência e caos social.
O dirigente fez questão de separar sua corrente de pensamento da esquerda majoritária atual. “Você está se referindo a um determinado tipo de esquerda, que é uma esquerda liberal. Não é o meu caso. Eu sou marxista, é uma coisa bem diferente”, explicou Pimenta, acrescentando que a chamada teoria de gênero, dominante nos partidos de esquerda atuais, é um “liberalismo exagerado” e uma teoria absurda sob a ótica do materialismo.
Felipe recorreu à metáfora do filme Sniper Americano — que divide a sociedade entre ovelhas manipuladas, lobos opressores e pastores — para argumentar que a hierarquia de dominação é inata à humanidade e que o comunismo fracassou em todas as suas tentativas práticas por ignorar essa essência humana.
Pimenta contestou a premissa, afirmando que em momentos revolucionários, como na Revolução Francesa, a população humilde e explorada adquire vontade própria e toma as rédeas da história. Ele argumentou que o socialismo não deve ser medido por experiências em países atrasados economicamente, como a antiga União Soviética ou Cuba, mas sim concebido como uma superação do capitalismo a partir de nações centrais e ricas, como os Estados Unidos.
A China foi um dos principais pontos de discórdia. Enquanto o apresentador apontou o suposto autoritarismo e a suposta escravização do povo pelo Partido Único chinês, Pimenta defendeu o desenvolvimento industrial do país asiático. De acordo com o presidente do PCO, a grande virtude chinesa foi não se submeter aos bancos internacionais e investir na própria industrialização, o que permitiu retirar mais de 800 milhões de pessoas da miséria. Pimenta ainda afirmou que a China chega a ser “mais democrática do que o Brasil” no que realmente importa para a vida da população.
Questionado sobre os escândalos de corrupção que marcaram os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), como o Mensalão e o Petrolão, Pimenta argumentou que a corrupção não é uma exclusividade petista, mas a própria engrenagem do regime político brasileiro desde a ditadura militar, citando as privatizações da era FHC como um dos maiores “escárnios” da história nacional.
Ele definiu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um político excessivamente empírico, o que considera um grave defeito.
“O Lula quer fazer as coisas por dentro do sistema, sem balançar o barco, sem desmontar o sistema. Esse é o grande erro e o grande fracasso dele”, afirmou Pimenta.
O pré-candidato acrescentou que, para obter governabilidade, tanto Lula quanto Jair Bolsonaro foram engolidos pelo sistema e obrigados a governar com o que chamou de “uma verdadeira quadrilha de bandidos” no Congresso Nacional.
O debate sobre a repressão expôs a divergência mais severa entre os debatedores. O apresentador defendeu uma teoria do crime que baseia o desestímulo à criminalidade na certeza da punição severa e elogiou o modelo implementado por Nayib Bukele em El Salvador.
Pimenta, por sua vez, refutou a ideia de que o criminoso possua uma má índole intrínseca, classificando o crime como um subproduto direto da desagregação social e do desemprego. Ele ilustrou seu ponto de vista ao narrar a história de um ex-militante operário do ABC paulista que, após ser demitido e sofrer crises pessoais, acabou abandonando a política para liderar uma quadrilha de assalto a bancos.
Embora tenha afirmado que recorreria à força e “mandaria bala” caso sua residência fosse invadida em legítima defesa, Pimenta posicionou-se frontalmente contra dar ao Estado o direito de intensificar a violência por meio da polícia.
“A polícia realiza sistematicamente execuções. O policial tem que agir dentro da lei e matar apenas em legítima defesa, mas não é isso o que acontece”, denunciou o presidenciável, opondo-se ao fim das saídas temporárias de presos e à redução da maioridade penal.
A política do Oriente Médio concentrou as declarações mais polêmicas de Rui Costa Pimenta. Questionado se considerava o Hamas uma organização terrorista e se condenava os ataques de 7 de outubro, o presidente do PCO foi categórico ao negar o rótulo ao grupo palestino e afirmar que as notícias sobre assassinatos deliberados de civis, estupros e infanticídios naquele dia são frutos de “desinformação deliberada” e propaganda do governo israelense.
Pimenta defendeu o direito do Hamas de realizar incursões para capturar civis com o objetivo de trocá-los pelos milhares de palestinos detidos em “Israel”.
“Israel é um Estado artificial e uma força de ocupação instalada pelo imperialismo. Os palestinos têm o direito de tentar libertar o seu pessoal que está preso de maneira injusta, a qualquer custo”, declarou.
Na reta final do programa, Pimenta foi questionado sobre o uso do fundo eleitoral pelo PCO e as denúncias de que os recursos teriam sido direcionados para empresas e escritórios de advocacia de militantes e familiares.
O pré-candidato classificou as acusações de desvio como uma campanha caluniosa e sem base matemática. Ele comparou o orçamento do PCO, de cerca de R$3 milhões, com o do Partido Liberal (PL), que se aproxima de R$1 bilhão. Segundo Pimenta, concentrar os serviços jurídicos e gráficos em escritórios de correligionários de confiança é uma prática legal, transparente e necessária para viabilizar economicamente as campanhas de mais de 200 candidatos do partido a preços abaixo do mercado.
Ao fim da sabatina, Felipe destacou o respeito pela integridade e coerência ideológica do convidado devido às suas posições firmes contra o cerceamento da liberdade de expressão promovido pelo STF. Pimenta encerrou reafirmando sua fé no debate político e na capacidade da população de reconhecer a verdade quando os fatos são colocados à mesa de forma transparente.




