Segundo dados recentes da Receita Federal, o governo arrecadou R$2,13 bilhões entre janeiro e meados de maio de 2026 com o imposto de importação sobre encomendas internacionais de baixo valor. A cobrança, iniciada em agosto de 2024, atingia compras de até US$50, justamente aquelas feitas por trabalhadores que procuram roupas, calçados, pequenos eletrônicos e utensílios mais baratos.
Em 2025, a arrecadação com esse imposto chegou a R$5 bilhões, valor recorde. A cobrança federal foi revogada em maio deste ano, mas os estados continuam cobrando ICMS sobre essas compras, com alíquotas que variam de 17% a 20%. Ou seja, mesmo depois do recuo do governo federal, a população continua sendo atacada por uma tributação que incide diretamente sobre produtos populares.
O imposto foi apresentado como uma defesa da indústria nacional. Trata-se de uma mentira. Defender a indústria nacional seria romper com a política de juros altos, garantir crédito barato, investir em produção, tecnologia, infraestrutura e emprego. Taxar uma trabalhadora que compra uma blusa mais barata pela internet não reindustrializa o País. Apenas transfere para a população pobre o custo da falência da política econômica ditada pelos banqueiros.
A comparação com a dívida pública mostra o tamanho da fraude. Segundo a Auditoria Cidadã da Dívida, com base em dados do Banco Central, cada aumento de 1 ponto percentual na Selic eleva em R$55 bilhões os gastos com a dívida pública. A arrecadação de R$2,13 bilhões da “taxa das blusinhas” em 2026 representa menos de 4% desse valor. Em outras palavras: um único aumento de 1 ponto na taxa de juros custa ao País quase 26 vezes mais do que o governo arrecadou espoliando milhões de consumidores pobres durante quase cinco meses.
Mesmo a arrecadação recorde de 2025, de R$5 bilhões, é pequena diante do assalto promovido pelo Banco Central. Um aumento de 1 ponto percentual na Selic consome 11 vezes esse valor. Se o aumento for de 2 pontos, o rombo adicional chega a R$110 bilhões, isto é, 22 vezes toda a arrecadação anual da “taxa das blusinhas” em 2025.
A política econômica brasileira funciona, portanto, como uma máquina de guerra contra o povo. De um lado, o governo e o Congresso arrancam dinheiro dos trabalhadores por meio de impostos sobre o consumo. De outro, o Banco Central independente garante uma remuneração fabulosa aos bancos e fundos financeiros por meio da taxa de juros. O pobre paga imposto até sobre uma compra de poucos dólares; o banqueiro recebe dezenas de bilhões sem produzir um parafuso.
A revogação da cobrança federal, feita em meio à disputa eleitoral, não muda o problema de fundo. O governo só recuou porque a cobrança era profundamente impopular. A população percebeu, corretamente, que se tratava de um imposto contra os mais pobres. Mas a política geral permanece a mesma: ajuste fiscal, juros elevados, Banco Central independente e pagamento religioso da dívida pública.
O Brasil tem uma das maiores taxas de juros reais do mundo. Em abril de 2026, mesmo após novo corte do Banco Central, a Selic estava em 14,5% ao ano, com juro real de 9,33%, colocando o País na segunda posição mundial. Não há indústria nacional que sobreviva a essa política. Não há salário que acompanhe esse assalto. Não há serviço público que resista a essa drenagem permanente de recursos.
A verdadeira defesa da economia nacional passa pelo fim do Banco Central independente, pela redução drástica dos juros e pelo cancelamento da dívida pública.





