A repressão contra os protestos populares na Bolívia deixou mais 36 pessoas presas e dezenas de feridos nesta quinta-feira (11), em La Paz. A jornada marcou o 42º dia da greve geral iniciada em 1º de maio pela Central Operária Boliviana (COB), que começou com reivindicações trabalhistas e se transformou em um amplo movimento pela renúncia do presidente Rodrigo Paz.
A COB voltou a marchar até o centro político da capital boliviana, depois de cerca de duas semanas em que a polícia conseguira impedir grandes manifestações na região. A mobilização foi atacada nas imediações da Praça Murillo, sede do poder político do país, com forte aparato repressivo.
Testemunhas e manifestantes denunciaram o uso excessivo da força pelos policiais, que avançaram contra os setores mobilizados para dispersar a marcha. A imprensa local registrou dezenas de feridos.
A Telesur e a Nodal registraram 36 detidos na quinta-feira. A violência estatal também atingiu dirigentes populares. Na quarta-feira (10), Vicente Salazar Limachi, dirigente da Federação Departamental Única de Trabalhadores Camponeses de La Paz Túpac Katari, foi preso nas imediações da rua Loayza, perto da Praça Murillo. A COB denunciou ainda o sequestro, atentado à vida e detenção ilegal de cinco dirigentes nacionais.
A repressão também foi acompanhada de uma tentativa de impedir o registro dos ataques policiais. O Comando da Polícia emitiu um comunicado “recomendando” que jornalistas, comunicadores e trabalhadores das redes sociais tomassem distância dos operativos.
Rodrigo Paz, por sua vez, declarou que já tem o caminho legal “totalmente livre” para decretar estado de exceção a qualquer momento, após receber aval da Assembleia Legislativa. O governo vem tentando apresentar os protestos populares como parte de uma ação de “narcoterrorismo”, fórmula típica de regimes ditatoriais para justificar a perseguição a organizações de trabalhadores, camponeses e setores populares.
Na segunda-feira (8), Paz promulgou a Lei 1740, que regula os estados de exceção e permite operações conjuntas entre as Forças Armadas e a Polícia Boliviana. A medida abre caminho para uma intervenção militar direta contra os bloqueios de estradas, que já passam de 90 em todo o país.
Caso seja aplicado, o estado de exceção ampliará os poderes da Polícia, das Forças Armadas e da Promotoria, reduzindo drasticamente as garantias constitucionais da população. Em outras palavras, o governo prepara uma escalada ainda maior contra um movimento que já enfrenta prisões, feridos e perseguição a dirigentes.
A situação levou a Igreja Católica e a Defensoria do Povo a divulgarem, em 11 de junho, um comunicado conjunto de urgência, chamando as principais organizações de La Paz e El Alto a um pacto departamental para conter a repressão e buscar uma saída negociada para o conflito social.
Ao mesmo tempo, outros setores populares se preparam para ampliar a luta. Mineiros de Huanuni declararam-se em emergência e afirmaram disposição de marchar a La Paz caso a COB convoque. As organizações Túpac Katari e Bartolina Sisa convocaram uma assembleia popular para esta sexta-feira (12), na província Los Andes, defendendo o fortalecimento e a radicalização dos bloqueios.




