O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, confirmou que o banco vendeu em maio parte das ações da Petrobrás que mantinha em carteira. Segundo reportagem da Reuters publicada pela CNN Brasil, a operação envolveu cerca de R$3 bilhões em ações da Petrobrás e mais R$ 500 milhões em papéis da Axia Energia. A justificativa apresentada foi a valorização recente dos papéis, que teria aumentado obrigações da instituição.
A explicação, no entanto, não elimina o problema político da medida. O BNDES não é um banco privado qualquer. É o principal banco público de desenvolvimento do País. A Petrobrás, por sua vez, é o centro da política energética brasileira e uma das maiores riquezas nacionais.
Segundo Mercadante, a venda de ações de empresas maduras segue nos planos do BNDES, com o objetivo de realocar recursos em outras companhias. O próprio BNDES afirma que a BNDESPar atua no mercado de capitais apoiando empresas brasileiras por meio de ações, debêntures conversíveis e fundos de investimento.
O problema é que a Petrobrás não é apenas uma fonte de dividendos ou de ganhos contábeis, é um instrumento de planejamento industrial, energético e tecnológico. Quando o Estado se desfaz de participação em uma empresa desse porte, ainda que alegue não afetar imediatamente o controle formal, enfraquece a presença pública em um setor decisivo.
Os números mostram a importância da participação estatal. Em abril de 2026, o grupo de controle da Petrobrás reunia 37,06% do capital total, sendo 29,02% do governo federal, 6,98% da BNDESPar e 1,05% do BNDES. Nas ações preferenciais, BNDESPar e BNDES somavam 19,01%. Já investidores não brasileiros detinham 47,69% do capital total da companhia
Ou seja, a Petrobrás já é uma empresa profundamente aberta ao capital privado e estrangeiro. Qualquer nova venda de ações pelo setor público reforça essa tendência. Ainda que a operação tenha atingido ações sem direito a voto, como noticiou a Reuters, o resultado concreto é o mesmo: uma fatia do patrimônio nacional sai das mãos do Estado e vai para o mercado.
A contradição fica ainda mais evidente no momento político atual. O governo Lula tem feito discursos em defesa da soberania nacional diante das pressões do governo Trump, que propôs tarifa de 25% sobre uma série de importações brasileiras. Lula reagiu dizendo que, se os Estados Unidos não quiserem comprar do Brasil, o País venderá para outros mercados.
Mas não adianta falar em soberania contra Trump enquanto, internamente, o próprio governo permite que o patrimônio nacional seja liquidado aos poucos. Soberania é controle sobre petróleo, energia, bancos públicos, indústria, infraestrutura e tecnologia. Sem isso, o País pode até responder retoricamente às pressões estrangeiras, mas continuará dependente do mesmo mercado financeiro que há décadas pressiona pela privatização das empresas estatais.




