Caso PCC-CV
PF faz lobby para CIA controlar o Brasil
Diretor da Polícia Federal evita denunciar a ingerência imperialista e transforma a soberania nacional em moeda de troca
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, deu uma entrevista à Folha de S.Paulo que revela, mais do que qualquer declaração oficial, o papel reacionário cumprido por setores do próprio Estado brasileiro diante da ofensiva dos Estados Unidos contra o País.
Comentando a decisão do governo Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, Rodrigues não denunciou a arbitrariedade da medida, não condenou a ingerência norte-americana e não apresentou a questão central: nenhum governo estrangeiro tem direito de definir o enquadramento de organizações que atuam em território brasileiro. Em vez disso, o chefe da PF afirmou que a cooperação entre Brasil e EUA deve ser “via de mão dupla” e pediu que os norte-americanos ajudem a prender foragidos, bloquear patrimônios e recuperar ativos.
Diante de uma intervenção escancarada dos Estados Unidos, a resposta da direção da Polícia Federal foi pedir mais integração com o aparato repressivo imperialista. É como se o problema fosse apenas uma “falta de reciprocidade”, e não o fato de o país mais poderoso do mundo estar impondo ao Brasil a sua doutrina de “guerra ao terror”.
Não existe “cooperação” em pé de igualdade entre um país imperialista, dono da CIA, do FBI, da DEA, de bases militares espalhadas pelo planeta e de uma longa história de golpes na América Latina, e um país atrasado e pressionado como o Brasil. Todo acordo desse tipo tende a colocar a polícia brasileira, seus bancos de dados, suas operações e suas decisões políticas a serviço de interesses estrangeiros.
A própria reportagem da Folha de S.Paulo expõe o problema. A PF já mantém parcerias com DEA, FBI, CBP e HSI. E, com a classificação do PCC e do CV como grupos terroristas, permanece em aberto se a CIA passará a ter uma influência ainda maior, justamente por ser a agência norte-americana ligada à espionagem e às operações secretas sob o pretexto do combate ao terrorismo.
A Reuters, por sua vez, informou que autoridades brasileiras veem o risco de investigações hoje conduzidas por FBI, DEA e imigração norte-americana passarem para a CIA e se tornarem classificadas, interrompendo o fluxo de informações e abrindo caminho para operações militares ou clandestinas dos EUA em território brasileiro.
A classificação do PCC e do CV como “terroristas” é a porta de entrada para transformar o “combate ao crime organizado” em assunto de segurança nacional dos Estados Unidos. A partir daí, o Brasil deixa de tratar seus problemas internos com sua própria legislação e passa a ser enquadrado pela política externa norte-americana.
O histórico recente confirma o perigo. Conforme demonstrado por este Diário, já há uma série de operações brasileiras abastecidas por relatórios, dados técnicos ou “cooperação” com agências dos Estados Unidos, incluindo FBI e HSI; em alguns casos, as autoridades sequer identificam qual órgão norte-americano monitorou cidadãos brasileiros, por quais meios e sob qual autorização.
A Operação Trapiche, deflagrada pela PF em 2023, é um exemplo. A investigação começou com memorando da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, por meio do escritório do adido legal do FBI, e envolveu acusações de terrorismo com base em elementos que depois se mostraram extremamente frágeis. Outros casos, como a Operação Leviatã, também tiveram origem em relatórios do FBI e foram usados para empurrar a aplicação da Lei Antiterrorismo a partir de mensagens, fóruns, suspeitas e supostas “predisposições”.
A posição da Polícia Federal é ainda mais escandalosa porque o governo Lula dizia tentar evitar a classificação norte-americana por receio de interferência nas eleições e na soberania nacional. A decisão de Trump ocorreu após visita de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, onde se reuniu com Trump e integrantes de seu governo, como Marco Rubio e J. D. Vance.
Esse é um dos motivos pelos quais o governo Lula se mostra tão direitista em sua política externa. Não se trata apenas de uma escolha pessoal do presidente, mas de uma capitulação diante dos setores mais reacionários entranhados no Estado, a exemplo da Polícia Federal.
A entrevista de Andrei Rodrigues é uma confissão. A PF não está apenas “cooperando”. Está fazendo lobby para aprofundar a presença norte-americana no País.





