O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, respondeu neste sábado (6) às declarações do presidente libanês Joseph Aoun, que acusou Teerã de “usar o Líbano como moeda de troca” em suas negociações com os Estados Unidos. A fala de Aoun foi feita em entrevista à CNN, em meio ao acordo de “cessar-fogo” anunciado sob patrocínio norte-americano entre o governo libanês e “Israel”.
Em publicação na rede X, Araghchi ironizou a posição do presidente libanês. “Com base nos comentários do senhor Aoun, alguém pensaria que é o Irã que ocupou um quinto do Líbano, deslocou um quarto dos libaneses e bombardeia seu país diariamente”, afirmou o chanceler iraniano.
Araghchi também rejeitou a acusação de que o Irã estaria negociando o Líbano em troca de vantagens diplomáticas com os Estados Unidos. “Se o Líbano fosse uma moeda de troca para o Irã, teríamos um acordo há muito tempo”, escreveu.
Ao final, o ministro iraniano dirigiu-se diretamente a Aoun: “salve o Líbano de seu verdadeiro inimigo, senhor presidente”.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, também publicou uma crítica ao presidente libanês. Em árabe, em dialeto libanês, afirmou: “ele vende aqueles que estão com ele e compra aqueles que estão contra ele; abandona quem o apoiou e corre atrás de quem lutou contra ele”.
As declarações iranianas responderam à entrevista de Aoun à CNN. O presidente libanês atacou o Irã por defender que o Líbano faça parte de qualquer acordo de cessar-fogo entre Teerã e os Estados Unidos. Para o governo iraniano, a situação regional, em particular o Líbano, não pode ser excluída de um entendimento com Washington, justamente porque a agressão sionista contra os libaneses segue em curso.
“Não é seu trabalho interferir em nosso país”, disse Aoun, dirigindo-se ao Irã. Ele também afirmou que Teerã estaria “usando o Líbano como moeda de troca em suas negociações com os Estados Unidos”.
Aoun ainda atacou o Hesbolá. “É inaceitável, e aqui também o Hesbolá deve entender isso. O Hesbolá deve entender que não há outro caminho senão sentar e conversar. Não há outro caminho para resolver esse problema, para salvar o que resta [do Líbano], exceto negociações e diplomacia”, afirmou.
Acordo dá liberdade de ação a ‘Israel’
Em 4 de junho, o governo libanês e “Israel” chegaram a um esquema de “cessar-fogo” mediado por Washington. Aoun afirmou que sua aplicação poderia começar em até 24 horas. Desde então, a agressão sionista contra o Líbano continuou, com ataques contra civis, paramédicos, casas e infraestrutura civil.
Em um dos ataques, forças israelenses atingiram uma ambulância que entregava alimentos a uma família na cidade de Zebdine.
O presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, criticou duramente o acordo. Segundo ele, o texto foi preparado em favor de “Israel” e não estabelece uma retirada recíproca. Pelo contrário, exige que a Resistência Libanesa, o Hesbolá, retire seus combatentes do sul do Líbano, enquanto “Israel” mantém liberdade de movimentação em território libanês.
Berri afirmou que o texto poderia ter começado de maneira aceitável, com “um cessar-fogo incondicional em terra, mar e ar, sem destruir tudo o que existe”. Em vez disso, segundo ele, o documento introduziu condições voltadas apenas contra o Hesbolá.
O dirigente libanês criticou ainda a substituição da exigência de retirada total de “Israel” do Líbano por fórmulas como “zonas de teste”, que permitem a continuidade da ação militar sionista no país. Para Berri, uma formulação minimamente justa exigiria medidas paralelas: o Hesbolá se retiraria do sul do rio Litani ao mesmo tempo em que “Israel” deixaria as áreas invadidas.
“O restante do texto é injusto e não vale a pena mencionar”, afirmou.
Governo libanês propõe ‘zonas de teste’
Apesar da continuidade dos massacres israelenses e da destruição no sul do país, a Presidência libanesa defendeu o acordo e as negociações em curso. Aoun afirmou que o mediador norte-americano será responsável por definir o momento e o mecanismo de aplicação assim que houver consenso entre as partes.
Segundo o presidente, o processo depende de aprovação completa e garantias aplicáveis. Aoun disse ainda que o Líbano propôs uma “zona de teste” para a aplicação inicial do acordo, incluindo Zawtar Oriental, Zawtar Ocidental e a fortaleza de al-Shaqif, também conhecida como castelo de Beaufort.
A proposta foi respondida com novas ameaças por “Israel”. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netaniahu, afirmou a dirigentes municipais do norte de “Israel” que seu governo não pretende retirar as tropas do sul do Líbano em um futuro próximo, conforme relatou o jornal israelense Haaretz.
Na mesma reunião, Netaniahu teria dito que o Exército israelense pretende destruir completamente o que chamou de “bastião no interior do Líbano” que ameaçaria o assentamento de Metula. O local mencionado é a fortaleza de al-Shaqif, listada pela Unesco sob proteção provisória reforçada pela Convenção de Haia para a Proteção de Bens Culturais.
Netaniahu também defendeu uma suposta “zona tampão” que se estenderia de Ras al-Bayyada, no sul do Líbano, até a cordilheira do monte Hermon e a região de Yarmouk, dentro do território sírio.
Familiares de soldados israelenses no sul do Líbano também defenderam a construção de assentamentos sionistas em território libanês sob o pretexto de “segurança”. Segundo eles, a colonização civil seria a única forma de proteger os assentamentos ilegais israelenses.
Setores libaneses defendem a Resistência
A posição de Aoun e do governo libanês foi rejeitada por diferentes setores do país. O dirigente do Partido Democrático Libanês, Talal Arslan, criticou a conduta das autoridades libanesas.
Em publicação na rede X, Arslan afirmou que o governo norte-americano negocia com o Irã e até se aproxima da Resistência no Líbano. Acrescentou que Arábia Saudita e Catar também mantêm contatos com Teerã, apesar de todos os acontecimentos recentes. Para ele, esses movimentos podem contribuir para um acordo e para a redução das tensões regionais, o que atingiria diretamente o Líbano.
Arslan atacou as medidas do governo libanês. “Quanto às autoridades no Líbano, elas tomaram a decisão de expulsar o embaixador iraniano e cortar qualquer comunicação com o Irã e a Resistência, em vez de buscar pontos comuns para proteger o Líbano das repercussões das pressões externas e internas”, afirmou.
Em tom de crítica, completou: “decisões sábias, bem estudadas e racionais… uma farsa sem precedentes, infelizmente”.
O Partido Bandeira Nacional também condenou os entendimentos propostos, classificando-os como uma lista de condições norte-americanas e israelenses para impor a rendição, submeter o Líbano e obter pela diplomacia o que a ocupação não conseguiu pela guerra.
O partido afirmou rejeitar qualquer acordo que não inclua explicitamente a retirada total de “Israel”, o fim das hostilidades e a proibição de violações da soberania libanesa. A organização também alertou contra tentativas de provocar conflito interno e criar uma ruptura entre o Exército e a Resistência em benefício dos objetivos do inimigo.





