Bolívia

Evo Morales denuncia plano para o capturar ‘vivo ou morto’

Ex-presidente afirmou que governo boliviano age sob orientação dos EUA; país enfrenta protestos, bloqueios e avanço de lei para estado de exceção

O ex-presidente da Bolívia Evo Morales denunciou que existe um plano para capturá-lo “vivo ou morto” até 14 de junho. A declaração foi feita em meio à crise social que atinge o país há mais de um mês, com protestos, bloqueios de rodovias, perseguição judicial contra dirigentes populares e a tramitação de uma lei que amplia a possibilidade de intervenção das Forças Armadas em conflitos internos.

Refugiado na região do Chapare, no departamento de Cochabamba, Morales afirmou ter informações sobre uma operação para prendê-lo ou assassiná-lo. O ex-presidente apontou o novo ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, como o responsável por fixar a data da operação.

“Até o dia 14 deste mês, Evo detido ou morto por mandato do Império”, declarou Morales, referindo-se aos Estados Unidos. Segundo ele, o governo de Donald Trump orientou o presidente boliviano Rodrigo Paz Pereira a “não perder a Bolívia, não perder o lítio”.

As declarações ocorrem após várias demissões ministeriais e em meio a uma onda de protestos contra o governo Paz. Desde o início de maio, manifestações e bloqueios atingem pelo menos sete departamentos do país. A repressão brutal aos protestos deixou ao menos nove mortos, segundo as informações divulgadas. Organizações populares exigem a renúncia do presidente.

O governo boliviano acusa Morales de promover os bloqueios e as manifestações. O ex-presidente rejeitou a acusação e afirmou que a mobilização não foi convocada por ele, mas surgiu da deterioração das condições de vida.

“Não é minha responsabilidade, eu não convoquei essas mobilizações. É a fome, o desemprego, a perda do poder de compra”, afirmou Morales.

Segundo o ex-presidente, as mobilizações expressam uma “sublevação do movimento popular” contra um modelo “neoliberal” e “neocolonial”. Ele afirmou ainda que há crescente descontentamento entre os próprios eleitores de Rodrigo Paz, que, segundo Morales, sentem-se abandonados pelo governo.

“O povo pede que se respeitem seus recursos naturais e os serviços básicos”, declarou. Morales também denunciou Paz por descumprir a promessa eleitoral de garantir combustível à população.

O ex-presidente reiterou denúncias de que o governo prepara privatizações em setores estratégicos e acordos envolvendo recursos naturais, em particular o lítio. A questão tem papel central na crise boliviana, pois o país possui uma das maiores reservas do mineral no mundo.

EUA chamam protestos de ‘narcoterrorismo’

A denúncia de Morales foi feita também após o secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, classificar como “narcoterroristas” dirigentes de organizações sociais que participam dos protestos, mobilizações e bloqueios no país.

Em mensagem publicada na rede X, Hegseth afirmou que “o Departamento de Guerra e a Coalizão Anticartel das Américas rejeitam toda tentativa de derrubar o governo legítimo do presidente Rodrigo Paz na Bolívia”. O funcionário do governo Trump afirmou ainda que os Estados Unidos estão “atentos ao que ocorre na Bolívia” e que não se deve permitir o retorno do que chamou de “domínio narcoterrorista” na região.

Hegseth disse que os EUA continuarão apoiando a Bolívia “para garantir que os narcoterroristas sejam dissuadidos de lucrar com a morte e a destruição em nosso hemisfério”.

Morales respondeu afirmando que os Estados Unidos voltam a interferir nos assuntos internos da Bolívia e procuram associar a luta popular ao “narcoterrorismo”.

“Enquanto o povo luta para defender sua economia, seus recursos naturais e seu direito de decidir seu próprio destino, os Estados Unidos voltam a se intrometer nos assuntos internos da Bolívia para respaldar um governo cada vez mais questionado. Agora recorrem novamente ao discurso do ‘narcoterrorismo’ para estigmatizar o protesto social e desacreditar as demandas legítimas de quem defende a democracia, a soberania e nossos recursos naturais”, afirmou Morales.

“Bolívia não precisa de tutela nem de ameaças. Precisa que se respeite a vontade de seu povo e seu direito soberano de decidir sobre o lítio, a terra e o futuro de nossa Pátria”, completou.

Senado aprova lei de estado de exceção

A crise também se agravou com a aprovação, pelo Senado boliviano, do projeto de Lei de Regulação do Estado de Exceção. A proposta foi enviada pelo governo Rodrigo Paz e agora segue para a Câmara dos Deputados.

A votação ocorreu após longo debate, com participação dos ministros de Governo, Marco Antonio Oviedo; da Presidência, José Luis Lupo; e da Defesa, Ernesto Justiniano. Os ministros defenderam a constitucionalidade da medida.

O projeto estabelece que as Forças Armadas poderão intervir quando a polícia for considerada insuficiente para enfrentar uma comoção interna, como bloqueios de caminhos. A proposta também permite que militares participem de operações de segurança interna durante estados de exceção.

Os militares poderão atuar na proteção de infraestrutura considerada crítica, instalações públicas, rotas estratégicas de abastecimento, aeroportos, hospitais, sistemas hídricos, plantas energéticas e redes de telecomunicações. O texto autoriza o uso da força para neutralizar o que o Estado considerar riscos graves e iminentes contra a vida, a segurança da população, a estabilidade institucional ou a infraestrutura estratégica.

Outro ponto central do projeto é a previsão de que as ações de policiais e militares durante o estado de exceção terão presunção de legalidade.

O senador Wilder Veliz criticou duramente a medida. Segundo ele, o governo não atendeu às reivindicações dos trabalhadores e setores populares e contribuiu para o agravamento da crise social. Veliz afirmou que a lei permitirá repressão, perseguição e até uso de armas de fogo contra os manifestantes.

Segundo o senador, a norma presume de boa-fé a ação estatal até mesmo em caso de assassinato de manifestantes. Ele afirmou que a lei permitirá ao Estado “reprimir, matar, fazer desaparecer pessoas” e ainda garantir assistência jurídica aos responsáveis pela repressão.

“Trata-se de uma carta branca para que haja massacre na Bolívia”, declarou Veliz.

Morales também associou o avanço da lei a uma tentativa de endurecer a resposta do Estado contra as mobilizações. Segundo ele, há resistência dentro da cúpula militar à decretação de estado de sítio.

“O general Balderrama não quer assinar nenhum estado de sítio, não quer se comprometer”, afirmou Morales, acrescentando que outros comandantes teriam a mesma posição.

Perseguição judicial contra dirigentes

Além da tentativa de aprovar novas medidas de exceção, o governo boliviano ampliou a perseguição judicial contra dirigentes sociais. Na quinta-feira, a Justiça decretou prisão preventiva por 180 dias contra o dirigente vecinal Justino Apaza, acusado de terrorismo após participar de protestos contra o governo e exigir a renúncia de Paz.

A ex-senadora aimará Simona Quispe e a dirigente cocaleira Yesenia Vargas também foram presas pela polícia com uso da força, em operações denunciadas como irregulares por seus familiares.

A Promotoria boliviana investiga dirigentes por acusações de terrorismo, financiamento ao terrorismo, associação delitiva, instigação pública ao delito e atentados contra a segurança do transporte e dos serviços públicos nacionais.

Os processos e prisões buscam desarticular mobilizações convocadas pela Central Operária Boliviana (COB), que já completam 35 dias e mantêm cerca de 100 pontos de bloqueio em seis departamentos.

Os manifestantes rejeitam a perseguição da Promotoria e mantêm a resistência nas rodovias para exigir uma saída para a crise econômica nacional.

Denúncia sobre grupo paramilitar

Fontes dos movimentos populares também denunciaram que pelo menos 800 integrantes do grupo fascista União Juvenil Cruceñista foram transferidos para La Paz e estariam alojados no Colégio Militar do Exército, em Irpavi.

Segundo essas fontes, a operação teria ocorrido por orientação do comandante em chefe das Forças Armadas, general Balderrama. A presença do grupo nas dependências militares provocou incômodo entre setores das próprias Forças Armadas, que rejeitam o uso da instituição para abrigar grupos paramilitares.

O ex-presidente do Conselho Municipal de Sucre, Rodolfo Aviles Ayma, divulgou uma carta aberta às Forças Armadas, à Polícia, à Assembleia e ao presidente Rodrigo Paz. No documento, Aviles pede que militares e policiais não reprimam o povo nem cumpram ordens de um governo que, segundo ele, destrói a Bolívia.

A carta compara a situação boliviana com o período anterior ao golpe de Augusto Pinochet contra o governo de Salvador Allende, no Chile, quando setores populares apelaram à fidelidade constitucional das Forças Armadas e da Polícia.

Morales nega acusações judiciais

A situação pessoal de Morales também é usada pelo governo e pela direita boliviana contra o ex-presidente. Ele responde a uma investigação judicial por uma alegada relação com uma menor durante seu mandato. Morales voltou a negar as acusações e afirmou que se trata de perseguição política para afastá-lo da vida pública.

O ex-presidente justificou sua decisão de não comparecer perante a Justiça, o que levou à sua declaração de rebeldia. Segundo ele, não há garantias processuais.

“Não houve devido processo, não há vítima, não há delito, não há provas”, afirmou.

As autoridades bolivianas sustentam que o processo segue os trâmites legais. Morales, por sua vez, afirma que a ofensiva judicial faz parte da mesma perseguição política que agora avança sobre dirigentes populares e organizações sociais.

O ex-presidente declarou que não se nega ao diálogo e que pode contribuir para uma saída negociada, mas evitou assumir a direção de uma negociação entre o governo e os setores mobilizados.

“Se tiver de contribuir com algo, estamos aí”, disse Morales.

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