Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, afirmou, nesta terça-feira (26), no programa Análise da 3ª, da Rádio Causa Operária, que a decisão do governo Lula de enviar ajuda ao governo boliviano em meio à greve geral no país é uma “operação fura-greve”.
A declaração foi feita após Lula anunciar que enviaria ajuda humanitária à Bolívia para enfrentar o desabastecimento “provocado pelos bloqueios de estradas” organizados pela Central Operária Boliviana (COB), por camponeses, mineiros, professores, transportadores e outros setores da população. Para Pimenta, a medida equivale a uma intervenção em favor do governo boliviano contra a mobilização popular.
“Os trabalhadores bloquearam as estradas com o objetivo de paralisar a atividade econômica, que é o sentido de toda greve, e forçar o governo a ceder. Aí aparece o governo brasileiro falando que vai mandar ajuda humanitária contra o desabastecimento para auxiliar o governo que está encurralado pelas massas. Quer dizer, é uma operação fura-greve, isso tem que ser dito. Com todas as letras, não podemos tergiversar sobre isso, é uma operação fura-greve. E é uma operação de salvação de um governo altamente impopular. De um governo até mesmo não só impopular, como antipopular, antipovo”, afirmou Pimenta.
Segundo o dirigente do PCO, a política de Lula na Bolívia mostra uma contradição profunda do governo brasileiro. Ele lembrou que Lula propôs uma frente de “governos democráticos” contra a extrema direita, mas, diante da rebelião boliviana, acabou se alinhando a um governo atacado pelos trabalhadores.
“Não se trata de fazer aliança com o imperialismo democrático contra a extrema direita. É uma política inclusive absurda. Mas o que nós temos visto é a política do governo de fazer aliança com a extrema direita contra os trabalhadores. Esse é o caso. É uma aliança com a extrema direita contra os trabalhadores”, disse.
Pimenta também associou a iniciativa de Lula à pressão dos Estados Unidos. Ele citou a ameaça de intervenção feita por Marco Rubio, secretário de Estado do governo Donald Trump, contra a mobilização boliviana. Para o presidente do PCO, a política brasileira aparece como uma forma branda de combater a greve.
“A única explicação que a gente poderia encontrar para isso é que o Lula está fazendo um agrado para o Trump. O Marco Rubio, que é secretário de Estado do Trump, ameaçou intervir militarmente na Bolívia para parar a greve. Essa seria a versão dura de combate aos grevistas. E aí aparece o Lula com uma política de combater o desabastecimento, que é a política light de combate aos grevistas. Eu não consigo pensar nenhum outro objetivo político que o governo tenha com isso”, declarou.
O presidente do PCO afirmou que a gravidade da medida está no fato de ela atingir diretamente uma mobilização de massas. Segundo ele, medidas econômicas contra os trabalhadores já representam ataques, mas a ação contra uma greve ou rebelião popular tem outro caráter.
“É pelo significado concreto da ação. Uma medida governamental que afete as massas é ruim. É um ataque às massas, mas é, num certo sentido, principalmente as medidas tomadas pelo governo Lula, um ataque indireto. Esse daqui não. Esse aqui é um ataque direto não apenas contra as massas trabalhadoras, mas contra o movimento de luta das massas trabalhadoras”, disse.
Pimenta afirmou ainda que a única política verdadeiramente humanitária na Bolívia seria apoiar a mobilização dos trabalhadores. Ele mencionou prisões, feridos, a morte de um grevista e a tentativa do governo boliviano de impor penas severas contra manifestantes que bloqueiam ruas e estradas.
“Não tem que dar apoio nenhum. Quer dizer, você se coloca ao lado de um governo que é um governo criminoso, governo que ganhou a eleição com base numa fraude contra a luta dos trabalhadores. É inacreditável. Há rumores aí, o próprio Evo Morales falou, há rumores de que a extrema-direita teria intenções de assassinar o ex-presidente da República, Evo Morales. A palavra de ordem de qualquer pessoa que queira assumir o título de esquerda pela vitória é ‘todo apoio ao movimento boliviano, nenhum apoio ao governo, pela vitória do movimento, fim do governo’”, afirmou.
Victor Assis, membro da redação do Diário Causa Operária (DCO), classificou a situação boliviana como uma rebelião popular, e não apenas uma greve. Segundo ele, a mobilização tem um programa político mais amplo, relacionado à luta contra o governo, contra mudanças na lei de terras, contra a falta de combustíveis e contra privatizações.
Pimenta também destacou o papel histórico do movimento operário boliviano. Para ele, a mobilização atual não é improvisada, mas parte da tradição de luta dos trabalhadores do país.
“O movimento boliviano não é a primeira vez que a gente vê em ação. Nós vimos esse movimento em ação várias vezes. Então, a gente sabe do que se trata. São trabalhadores, são operários da indústria, são trabalhadores do altiplano boliviano, da região de La Paz, e camponeses. Todos esses movimentos são bem organizados. Não é nenhuma improvisação que está acontecendo. Você vê, o Lula, em vez de exigir a libertação dos ativistas, ele vai lá oferecer alimentos para furar a greve. É uma coisa totalmente sem sentido”, disse.
Eleições e terceira via
No bloco sobre a eleição brasileira, Pimenta avaliou que as denúncias contra Flávio Bolsonaro, ligadas ao Banco Master e ao filme Dark Horse, tiveram impacto limitado até agora. Segundo ele, a expectativa de setores ligados ao PT de que o escândalo liquidasse a candidatura bolsonarista não se confirmou.
“Agora, passado o momento crítico, a gente vê que o impacto foi pequeno. A pesquisa do Datafolha mostrou que praticamente não houve alteração do quadro eleitoral. Quer dizer, o bolsonarismo não sofreu, do ponto de vista do seu eleitorado, nenhum grande baque. O Flávio Bolsonaro teria perdido dois pontos, se não me engano, segundo o Datafolha. O que, nessa altura da eleição, é nada”, afirmou.
Para Pimenta, a esquerda subestima o bolsonarismo e insiste em políticas que acabam fortalecendo a extrema-direita.
“Na realidade, a esquerda não compreende o bolsonarismo, ela subestima o fenômeno Bolsonaro. Isso é um erro. E é um erro que tem custado muito caro à esquerda, porque eles insistem em políticas antipopulares, como é o caso da política identitária. Eles vão engrossando a extrema direita com essas medidas. Eles insistem na política de perseguição judicial contra o bolsonarismo, que não deu certo”, declarou.
O dirigente afirmou ainda que a burguesia continua tentando abrir caminho para uma candidatura de terceira via, embora essa alternativa esteja se desgastando rapidamente. Segundo ele, a burguesia tentou algo semelhante em 2018 com Geraldo Alckmin, mas acabou derrotada por Bolsonaro no primeiro turno.
Banco Master, STF e Internet
O programa também abordou o escândalo do Banco Master, a delação de Daniel Vorcaro e as suspeitas que atingem setores do Judiciário. Pimenta avaliou que existe uma disputa em torno da delação e que os grandes bancos brasileiros têm interesse direto em aprofundar o caso.
“Nós já denunciamos aqui várias vezes que quem está por detrás do escândalo do Master são os grandes bancos brasileiros. E eles não querem que o negócio termine em pizza. Nós temos que entender que, apesar de os bancos ganharem muito dinheiro no Brasil, a situação econômica das grandes empresas é delicada em todos os lugares. Não é difícil que eles vão abaixo. Aí aparece um banqueiro, um empresário que monta um esquema político, distribui dinheiro para todo mundo e começa a penetrar no terreno privativo dos grandes bancos. Aí o banco olha e fala: ‘isso aqui é uma grande ameaça’. Então eles querem eliminar o banqueiro, sim, mas eles querem eliminar também as pessoas que facilitaram o caminho que esse banqueiro trilhou”, afirmou.
Ao comentar a atuação do Supremo Tribunal Federal no caso, Pimenta relacionou a situação aos poderes adquiridos pelo tribunal durante a campanha contra Bolsonaro.
“Isso aí é o poder que o STF adquiriu com a campanha contra o Bolsonaro. O negócio escapou de controle. E como acontece sempre com essa questão dos superpoderes? Chega uma hora que as pessoas que deram os superpoderes olham e falam assim: ‘está demais isso daqui, vamos cortar as asas desse cidadão’”, disse.
Outro tema tratado no programa foram os decretos do governo Lula relacionados ao Marco Civil da Internet. João Pimenta mencionou uma carta pública de entidades empresariais ligadas às grandes empresas de tecnologia, que expressaram preocupação com retirada excessiva de conteúdos, custos de cumprimento das normas e riscos para provedores menores.
Para Pimenta, essas medidas atingem principalmente os usuários, ainda que também criem problemas para as próprias empresas.
“Essas medidas são todas contra os usuários das empresas. O problema é que elas criam problemas para as empresas também, menos do que para os usuários, mas criam. Por exemplo, elas não têm nenhum problema de remover conteúdo A, B, C ou D. Não é esse o problema. Agora, montar todo um esquema de vigilância, montar todo um sistema em que você pode saber quem está falando o quê a qualquer hora, é complicado”, afirmou.





