Sob o título Quando a economia não explica o voto, o artigo publicado no Brasil 247 por João Feres Júnior, professor titular de ciência política do IESP-UERJ, tenta demonstrar que tudo vai bem e que o voto dos bolsonaristas é culpa da comunicação.
Segundo ele, existem “indicadores macroeconômicos sólidos, com desemprego em mínima histórica, PIB acima da média do G-20 e salário real em recuperação”, que coexistem com uma “avaliação popular medíocre e desempenho de campanha pior do que se esperaria”.
Em primeiro lugar, é preciso tirar a fantasia dos números apresentados pelo governo, que possuem nítido caráter eleitoral. Não virá um governo que assuma que tudo está ruim e que por isso ele merece o voto. Nunca houve e nem haverá. Sob essa ótica é que devem ser vistos os números apresentados pelo governo, qualquer que seja ele.
“Tratar a renda como porta de entrada privilegiada para a explicação do voto é uma decisão teórica, não um espelho da evidência”. Mas, mesmo que assim não fosse, os números do governo são só números.
A realidade que precisa ser vista é que, segundo o próprio governo, 48,9 milhões de brasileiros vivem em famílias atendidas pelo Bolsa Família. Ou seja, um quarto da população vive da esmola estatal, que é importante, mas não deixa de ser esmola. Ninguém pode ter uma vida regular com aqueles valores. Até porque o critério principal para receber o Bolsa Família é ter uma renda mensal de até R$218 por pessoa na família. Isso mesmo: receber, um indivíduo ao mês, R$218,00.
Ora, se para muitos o voto em Lula foi o troco jogado na mesa, para esses mesmos muitos é claro que não é possível viver assim para sempre. Isso ajuda, e muito, a tirar votos de Lula e destiná-los a uma oposição que se apresenta mais radical, mesmo que mais direitista.
Jogar em outras questões, como a religião ou “o recrudescimento do antipetismo”, a polarização existente no país é esquecer que o povo está, sim, em péssima situação social. São quase 17 milhões de pessoas desempregadas ou vivendo de expedientes. É bastante gente, é bastante voto.
“O que explica esse grupo numeroso de bolsonaristas? Não é a economia. Não é sequer a adesão a valores conservadores, como nos outros dois grupos identificados na análise. Não é a religião. É o antipetismo, em estado quase laboratorial, sobrevivendo ao próprio Jair Bolsonaro como objeto positivo de preferência.”
Aqui entra uma questão de política evidente. As propostas e colocações de Bolsonaro e da direita bolsonarista eram (e são) decididas, claras, embora conservadoras. As da esquerda e do PT, não. É sempre uma conversa confusa, mole, sobre os mais variados temas; e, quando tem alguma assertividade e decisão, é sobre temas de repressão penal ou censura, justamente elementos odiados pela maioria da população.
Quer dizer, além do problema econômico, na seara política o “petismo” naufraga completamente por não apresentar nada decisivo, objetivo, e isso com quase duas décadas de governo federal. Realmente não é difícil compreender o bolsonarismo.
“Em pesquisa qualitativa nacional com 24 grupos focais espalhados por todas as regiões do país, e em análise quantitativa por regressão logística com 2.558 respondentes do survey do INCT-IDDC, encontrei algo que precisa ser dito com todas as letras: a própria percepção das condições econômicas é endógena à filiação ideológica.”
Neste ponto, o autor abandona totalmente a condição social do povo como forma de mudança. As condições materiais da vida social deixam de ter importância. Na verdade, é o contrário. Se uma pessoa é petista, a vida vai bem; se é bolsonarista, a vida vai mal. E, como o texto é escrito por uma pessoa de esquerda, obviamente as coisas vão bem. Essa ideia deve explicar boa parte da política econômica do governo. Quantos consultores econômicos de Lula não pensam assim?
“Em outras palavras: o que organizou a preferência eleitoral em 2022 não foi primordialmente o que aconteceu com a renda ou com os preços. Mesmo as percepções sobre a economia dependem da esfera comunicacional na qual o cidadão obtém suas informações sobre o que aconteceu com a renda e com os preços”, continua o redator.
Essa colocação revela uma insensibilidade total do redator do Brasil 247 e, na realidade, entrega o que pensa boa parte da esquerda brasileira, que se acostumou a ofender seu opositor político, tratando-o como “gado”. Não existe crítica política, existe cadeia e prisão. A divergência foi parar nos tribunais. No geral, é uma colocação arrogante, típica da classe média esquerdista, e que inspira, de pronto, revolta. Ou seja, mais um ponto (voto?) para os bolsonaristas.
“A percepção de ‘vida difícil’ não é uma resposta a estímulos econômicos universais filtrados por psicologia universal; é uma resposta a estímulos econômicos reais filtrados por uma esfera de comunicação ideologicamente carregada.”
Ou seja, ganhar 218 reais por mês não é uma desgraça. É uma “percepção” de desgraça. Na verdade, é bom. Por isso este petardo: “fatores econômicos provavelmente movem mais os eleitores progressistas do que os bolsonaristas”. Ou seja, além de “gado”, animais que são, os bolsonaristas não ligam para emprego, salário, etc. Esse raciocínio é completamente desprezível e repugnante.
“O problema estratégico não é convencer o bolsonarista de que a economia melhorou, esforço que bate contra a parede comunicacional. O problema é não perder o eleitor de Lula em 2026 por desencanto com o ritmo da entrega.”
Mas, se a economia não melhorou, não tem quem se convença. Nem esquerdista, nem direitista. Os únicos convencidos são os profissionais do marketing de Lula e outros propagandistas profissionais. E, por outro lado, um programa de esmolas estatais de 20 anos não é “ritmo de entrega”. Simplesmente não há entrega.
Atualmente o salário mínimo é de R$1.621,00. Nessa faixa salarial, existem 31 milhões de trabalhadores brasileiros. Mas é uma “percepção” de vida difícil. Só ricos e bem fascistas acham que isso consegue sustentar um trabalhador. E isso quando, nos termos da Constituição Federal, o salário mínimo deveria ser “capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo”. Nesse ponto não houve entrega alguma para se mensurar o ritmo.
“Cobrar de Lula que, no contexto político de seu terceiro governo, com o Congresso dominado pelo Centrão, e grande imprensa e mercado militando diariamente em prol da agenda fiscalista, fizesse grandes mudanças estruturais, não me parece razoável.”
De fato, uma pessoa só não consegue fazer nada. Mas não é o caso. Lula é presidente do país e líder do maior partido de esquerda do Brasil, o PT, que, por sua vez, controla centenas de organizações populares capazes de mobilizar o povo. Isso é o que boa parte de seu eleitorado esperava, não a adaptação completa à imposição dos bancos.
Ora, e se a questão econômica é só uma “percepção”, por que, então, dizer que existe uma pressão fiscal sobre o governo para justificar sua inoperância?
Aduz o autor do texto: “o eleitor brasileiro de 2025 não experiencia o custo de vida sozinho; ele o experiencia mediado por um campo informacional que o ensina a interpretar a fila do supermercado em termos políticos pré-fabricados”. Essa tese aqui é para perder a eleição mesmo, já agora. Até um petista deve ficar ofendido com essa afirmação vinda de quem parece nunca ter ido ao mercado.
“A ‘impopularidade’ de Lula (…) é em larga medida o efeito de uma esfera comunicacional construída ao longo da última década contra ele e seu partido, sustentada por um cluster antipetista que não responde a sinais econômicos, por uma rede de mídia evangélica que opera fora do alcance do governo, por canais de TV abertos cooptados e por uma vasta infraestrutura de redes sociais de extrema-direita, então a estratégia política precisa se mexer em um terreno que a entrega econômica não toca.”
Antes de continuar, “cluster” significa um conjunto de computadores ou servidores interconectados que trabalham juntos operando como um único sistema. Para variar, outra ofensa contra os bolsonaristas, não uma crítica política.
Da mesma forma, o parágrafo acima deixou a belíssima e democrática rede Globo fora da manipulação política nacional. Como se não tivesse sido essa indústria de mentiras uma das principais responsáveis pelo golpe de 2016 — o golpe que realmente aconteceu.
Para terminar, um típico nervosismo de quem se acha muito superior a qualquer condição econômica. De quem já não precisa se preocupar com contas para pagar, com as refeições diárias, com a moradia:
“Não é a economia, estúpido. É a comunicação política, e ela foi bastante descuidada ao longo do governo Lula III.”
Aqui todos são chamados de estúpidos. O eleitor, o leitor e praticamente todo mundo. E essa é uma ótima forma de ganhar uma disputa eleitoral, pois é disso que se trata o texto: receitas esquerdistas e acadêmicas para vencer uma eleição.
O redator é “titular de ciência política do IESP-UERJ. Coordena o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e o Laboratório de Estudos de Mídia e Espaço Público (LEMEP)”, o que explica perfeitamente sua posição.
A realidade é que a situação do povo é ruim; não é uma “perspectiva” de situação ruim. Ela é ruim.
Lula e seu governo foram incapazes de lançar programas sociais capazes, de fato, de alterar a situação econômica e social da população como um todo. A existência do Bolsa Família revela esse mesmo problema, não o contrário.
Falta pouco tempo para o 1º turno e é nítido que parte da esquerda petista está nervosa. Isso é o que explica o “estúpido” no texto do redator do Brasil 247. E esse nervoso é resultado de uma compreensão: mesmo se Lula quisesse ou pudesse começar a adotar medidas mais radicais em defesa do povo agora, possivelmente não daria tempo para reverter um possível resultado eleitoral negativo.





