Educação

Professora é perseguida por pergunta feita em escola militarizada

A servidora foi instada a assinar um documento de “alinhamento”. Conforme a denúncia, o texto dizia que ela não poderia mais fazer questionamentos sobre decisões da gestão

Uma professora do Colégio Estadual Militarizado Maria dos Prazeres Mota registrou boletim de ocorrência, em Boa Vista, na quarta-feira (13), denunciando intimidação, censura e assédio moral. O caso começou após a servidora perguntar, em um grupo de mensagens da escola, o motivo da saída de uma orientadora pedagógica. A unidade fica no bairro Santa Tereza, na zona oeste da capital de Roraima, e integra um modelo de gestão militar. 

A professora, de 56 anos, preferiu não ser identificada. Ela afirmou que trabalha há 12 anos na unidade e tem 38 anos de carreira no magistério. Segundo seu relato, a pergunta foi feita em 9 de maio e não recebeu resposta. Dois dias depois, ao chegar para trabalhar, foi chamada à sala da gestão e recebeu uma convocação para prestar esclarecimentos. A reunião contou com o gestor administrativo, um tenente-coronel dos bombeiros, um coronel, uma gestora pedagógica e a coordenadora pedagógica.

Durante o encontro, a servidora foi instada a assinar um documento de “alinhamento”. Conforme a denúncia, o texto dizia que ela não poderia mais fazer questionamentos sobre decisões da gestão. A professora se recusou a assinar, por entender que estava sendo punida por ter feito uma pergunta. Ela declarou ter se sentido intimidada e constrangida. No dia seguinte, a direção publicou comunicado no mesmo grupo proibindo questionamentos sobre decisões administrativas ou movimentação de pessoal pelo aplicativo.

A Secretaria Estadual de Educação e Desporto (Seed) informou que o gestor administrativo foi afastado da unidade e encaminhado ao comando do Corpo de Bombeiros para apuração, por ser servidor da corporação. Em nota, a secretaria afirmou que não compactua com atos de desrespeito ou assédio nas escolas e que mantém compromisso com uma educação gerida de forma democrática e harmônica.

A Polícia Civil informou que dois boletins foram registrados, um pela professora e outro pelo gestor, e que ambos foram analisados em menos de 24 horas. A conclusão foi de que não havia elementos mínimos para abrir investigação criminal, por se tratar, em princípio, de conflito funcional e administrativo no ambiente de trabalho. Os procedimentos foram arquivados por ausência de justa causa, mas a decisão pode ser reavaliada se surgirem novos elementos. 

O caso mostra que não é verdade que exista uma gestão compartilhada entre educadores, policiais e bombeiros das escolas. Na realidade, os interventores militares controlam totalmente a gestão e impõem uma ditadura ferrenha contra professores, servidores e alunos. O grau de truculência com uma professora, que está na posição hierárquica mais alta em escolas normais, também é sinal de que o tratamento aos alunos, na base da hierarquia são realmente brutalizados pela intervenção militar. Esse caso específico teve um recuo devido ao uso supostamente corrupto da estrutura, que foi denunciado na imprensa, mas a estrutura de poder é essa em todas as escolas militarizadas.

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