Segue a confusão sobre definições do imperialismo na maioria da esquerda, como no artigo Alimentos, terra, água: África e os subimperialismos emergentes do Golfo, de Sarah Cotte, publicado no sítio Esquerda Online neste domingo (16).
Segundo o olho do artigo “Sarah Cotte explora a economia política do envolvimento do Golfo na África, analisando especificamente os investimentos em terras, e enfatizando que os estados do Golfo, em sua nova “corrida pela África”, devem ser categorizados como subimperialistas”.
A conclusão do texto é que “o envolvimento do Golfo na África não representa uma alternativa emancipadora do ‘Sul Global’, mas a continuidade da exploração capitalista em novas formas, articulando controle territorial, financeiro, alimentar e militar”.
Por que os países do Golfo estariam interessados em emancipação?
O texto no primeiro parágrafo que “interesses estrangeiros estão no centro da sangrenta guerra sudanesa: o principal financiador das Forças de Apoio Rápido (RSF) são os Emirados Árabes Unidos (EAU)”, e que “a maioria dos outros estados árabes ricos em petróleo do Golfo estão envolvidos em uma ‘nova corrida pela África’, inserindo-se na política do continente, comprando terras, adquirindo concessões portuárias e se consolidando como importantes parceiros comerciais de países africanos”. Até aqui, não passa de exportação de capitais, coisa que qualquer país que tenha capital excedente costuma fazer. O próprio Brasil fez isso em Cuba, por exemplo, no porto de Mariel.
Segundo o texto, “a dimensão do investimento do Golfo na África aumentou exponencialmente nas últimas duas décadas. Os Emirados Árabes Unidos, por si só, rivalizam agora – e em alguns aspectos superam – a China como a maior fonte de investimento estrangeiro direto (IED) na África”. Ora, se a China, até outro dia, era chamada de imperialista por essa esquerda, como agora dizem um país “subimperialista” ultrapassou os chineses em alguns pontos? Qual é a classificação para a China?
Por mais que o fluxo de capitais esteja sendo direcionado para portos, logística, mineração, energia, finanças e agricultura e se estenda para outras regiões como o Chifre da África e o Sael, isso é apenas investimento capitalista, pois os países do Golfo, como a guerra contra o Irã demonstrou, têm uma economia muito vulnerável e precisam diversificar os investimentos como uma medida de proteção.
O texto diz que “o capital do Golfo não desafia o capitalismo global; pelo contrário, o aprofunda. Considere as quatro relações de subimperialismo identificadas por Bond: com o imperialismo, com a crise capitalista, com a hegemonia regional e com a superexploração.”, e que “Eles dependem da hegemonia do dólar americano e defendem os interesses ocidentais no Oriente Médio como um todo, enquanto também elaboram suas próprias estratégias imperialistas”. A verdade, no entanto, é que eles não mandam em nada.
O imperialismo mesmo não permite que esses capitais fluam livremente. Entre 2018 e 2019, a Arábia Saudita e o Paquistão anunciaram um acordo para construir uma mega refinaria de petróleo no porto de Gwadar, com participação da estatal Saudi Aramco.
O projeto fazia parte de um pacote saudita de investimentos de cerca de US$20 bilhões no Paquistão, durante a visita do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman ao país. A refinaria, sozinha, era estimada em cerca de US$10 bilhões. A localização era estratégica porque Gwadar fica no Mar Arábico, perto do Golfo Pérsico.
Mas o projeto “acabou emperrando”. Em 2021 surgiram relatos de que a mega refinaria havia sido “engavetada” ou suspensa, devido a “dificuldades econômicas”, dúvidas sobre viabilidade financeira e desaceleração global após a pandemia. Ou seja, ninguém quis falar, mas foi o imperialismo que barrou a iniciativa, ainda mais um projeto que poderia beneficiar a China.
Segundo o artigo, “o envolvimento do Golfo, embora articulado por meio da retórica Sul-Sul e do discurso de desenvolvimento, tem as características de uma pilhagem imperialista.”, o que é falso. Isso apenas não basta para caracterizar o imperialismo, que controla economia global, promove golpes de Estado, sanciona países como Cuba, China, Irã, Rússia, Venezuela (inclusive sequestraram seu presidente), dentre outros. O imperialismo destrói países inteiros, como fizeram com a Líbia e promove guerras de agressão como contra o Irã, financiam o genocídio em Gaza. As monarquias petrolíferas não chegam nem perto disso.
Há uma justificativa no texto que diz que:
“Ao situar os Estados do Golfo no âmbito do ‘subimperialismo’, evita-se discursos que lhes atribuem um caráter excepcional. As representações orientalistas e elogiosas dos Estados do Golfo, ora como autoritários e “bárbaros”, ora como extremamente ricos e modernos, distorcem a realidade. Eles estão no cerne do funcionamento do capitalismo global. A economia política do Golfo é a expressão de um capitalismo ambicioso e em rápida expansão.”
A economia do Golfo está com a corda no pescoço — esses países não conseguem controlar o Estreito de Ormuz.
Essas caracterizações servem apenas para semear confusão. Chamam a Rússia e a China de imperialistas; Brasil e outros de subimperialistas, sendo que Lênin já definiu com precisão o que é o imperialismo. A indefinição serve apenas para impedir que se lute da maneira correta contra o imperialismo, o principal inimigo da classe trabalhadora.





