Emir Sader, em seu artigo O mercado não gosta de Lula, publicado no Brasil 247 nesta terça-feira (19), inicia com um questionamento: “O mercado – isto é, os grandes empresários, porque não existe o mercado como existência autônoma –, não gosta do Lula. Quando, depois da lambança do Flávio, o Lula dispara nas pesquisas, o mercado vai para baixo. Em vez de gostar de uma situação mais previsível, com a vitória do Lula, não gostam. Por quê?”
A resposta é muito simples, é devido ao conteúdo de classe do PT. Lula tem uma base, tem votos, e isso desagrada ao mercado, pois um presidente com base social tem força e é difícil de controlar. Além disso, a base pressiona qualquer político, que não pode contrariar muito seus interesses, pois assim perderá apoio.
O mesmo problema ocorre com o bolsonarismo, que tem um base social e polariza a política nacional com o PT.
Segundo Sader, “não gostam porque o grande empresariado é neoliberal. Aderiram à visão do mundo e da sociedade em que tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra, tudo é mercadoria. Às custas dos direitos das pessoas, do reconhecimento dos direitos sociais como eixo de uma visão que não é do agrado do grande empresariado”. Na verdade, já eram assim muito antes do neoliberalismo. Lembrando que o PT não é contra o capitalismo, não defende o socialismo, apenas luta por algumas reformas sociais.
Não é questão de preferência
Na opinião de Emir Sader, os burgueses, “apesar de todo o desgaste do Flávio, o preferem como candidato. Preferem um político que faz as coisas da fábrica de chocolate, da compra da mansão em Brasília, da condecoração de milicianos, do emprego de milicianos. Agora, vem o patrocínio master dessa história do filme do pai e da visita ao banqueiro, difícil de explicar”.
Para a burguesia, mansão, milicianos, chocolate, não fazem a menor diferença, muito menos interessa os “patrocínios”. Também não parece que a burguesia prefira Flávio Bolsonaro, ou não teria aparecido o escândalo envolvendo Daniel Vorcaro. O que move a classe dominante são seus interesses, como toda classe, aliás.
Flávio Bolsonaro não está descartado. Até agora, no entanto, tudo indica que o objetivo é colocar um candidato de terceira via, um político sem base social que o sustente, pois assim fica mais fácil de o controlar.
Fica confuso o parágrafo que diz que “a direita brasileira sempre foi bolsonarista. E quando, preso o Jair Bolsonaro por comprometimento claro com uma tentativa de golpe, reforçou que o Flávio deveria ser o candidato, negando qualquer alternativa, fosse Tarcísio ou a ex-primeira-dama, o Flávio terá que ir à campanha na defensiva, se explicando”.
Se a direita sempre foi bolsonarista, por que prenderiam Jair Bolsonaro por “comprometimento claro” com o que quer que seja? Isso não faz o menor sentido. Na realidade, o ex-presidente foi preso na esperança de que trocasse sua liberdade pelo apoio a um Tarcísio ou outro candidato da terceira via. O julgamento, é preciso lembrar, não passou de uma farsa.
Menos…
Emir Sader escreve que “Lula defende e coloca em prática uma política contrária aos interesses do grande empresariado. Lula prioriza as políticas sociais, a afirmação dos direitos das pessoas, o fortalecimento dos estados. Lula representa o antineoliberalismo”. Com esses juros a 15% ao ano, vai ficar difícil convencer alguém de que a política de Lula contraria a grande empresariado, ou mesmo que seja “antineoliberal”.
Baseando na falsa premissa de que Lula seja antineoliberal, Sader sustenta que é “por isso a direita, o ‘mercado’, o grande empresariado, não gostam do Lula. Não se conformam com a provável reeleição do Lula. Tratam de confirmar o controle do Congresso, para ter ainda o poder de veto sobre as indicações do STF, para brecar iniciativas do governo. É o objetivo da direita nas condições atuais”.
Há ainda outro problema na afirmação acima: a burguesia tentou enfraquecer o Congresso dando podereso quase absolutos ao Supremo. No ano passado, em setembro, a Rede Globo convocou ato para emparedar o Congresso, ao qual a maioria da esquerda compareceu festivamente.
Sem base na realidade
“O que será do Brasil com a provável reeleição do Lula? Pergunta Emir Sader, que logo que reponde que se pode “esperar uma consolidação das políticas antineoliberais, da consolidação das políticas sociais, como forma de combater o principal problema do Brasil ainda, as desigualdades sociais”.
Não há nada para ser consolidado. Quais seriam as tais “políticas antineoliberais”, elas simplesmente não existem, são uma fantasia. O combate às desigualdades mal se consegue perceber.
No último parágrafo, mais um pouco de imaginação, o articulista fecha dizendo que “conforme a economia avança bem, coloca-se para o próximo mandato do Lula a necessidade premente da resolução das taxas de juros altas. Portanto, a questão de mudar as políticas do Banco Central. O que contraria fortemente os interesses do grande capital especulativo, que segue sendo predominante na economia e que vive das altas taxas de juros.”
A economia não avança bem, a maior prova disso é que o governo fez um segundo programa para tentar libertar um pouco o trabalhador do endividamento. No que diz respeito às taxas de juros, Lula disse que o brasileiro tem que agradecer aos céus por ter um Galípolo na presidência do Banco Central que, por sinal, Lula não fez a menor menção de tentar trazer de volta para o controle do governo.
Outro mandato de Lula, tudo indica, será pior a este, pois será asfixiado ainda mais pelo Congresso. E, como o petista insiste em não se apoiar na base, ficará refém de acordos com os golpistas do Congresso e do STF.




