Entrevista com Leandro Fortes

Rui Pimenta: burguesia tenta lançar terceira via

Presidente do PCO afirmou que crise de Flávio Bolsonaro pode servir para abrir espaço a candidato mais controlado

Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, participou nessa terça-feira (19) de entrevista ao jornalista Leandro Fortes, no Canal do Galo Preto, no YouTube. Na conversa, Pimenta analisou a crise envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, do Banco Master, a tentativa de setores da burguesia de lançar uma candidatura de terceira via e a convocação de Neymar para a Seleção Brasileira.

Ao comentar as informações divulgadas sobre Flávio Bolsonaro, Pimenta afirmou que o caso tem potencial para prejudicar a candidatura do senador, mas que ainda não é possível afirmar que ele esteja fora da disputa. Para o dirigente do PCO, o vazamento deve ser entendido como parte de uma operação política mais ampla.

“Eu acho que tem potencial, mas ainda não acabou. Ele levou alguns tiros importantes, mas continua no páreo, na minha opinião. Isso foi um vazamento feito, obviamente, pela Polícia Federal para o Intercept. Qual é o sentido desse vazamento contra o Flávio Bolsonaro? É ver se a candidatura dele sofre um golpe tão duro que ele seja obrigado a abrir mão da candidatura para um elemento da chamada terceira via. Eu acho que essa é toda a trama da coisa”, afirmou.

Pimenta destacou que a burguesia não tem Flávio Bolsonaro como seu candidato preferencial. Segundo ele, setores importantes do regime político apostavam em Tarcísio de Freitas como alternativa mais adequada aos interesses do grande empresariado, mas a decisão de Jair Bolsonaro de lançar o próprio filho frustrou essa possibilidade.

“A burguesia, o grande capital, não quer o Flávio Bolsonaro. Não é o candidato da escolha dela, assim como eles também não querem o Lula. Em última instância, podem trabalhar tanto com um como com o outro. Mas eles gostariam de ter um candidato que representasse efetivamente o sistema econômico. Você viu que fizeram muita propaganda do Tarcísio. Praticamente já estavam escolhendo o Tarcísio como candidato a presidente. O Bolsonaro bloqueou essa alternativa e lançou o filho. Isso frustrou um amplo setor”, disse.

O presidente do PCO afirmou que a ofensiva contra Flávio Bolsonaro não deve ser vista com comemoração pela esquerda. Para ele, caso o bolsonarismo seja levado a apoiar uma candidatura de terceira via, a burguesia pode se unificar em torno de uma candidatura mais confiável para seus interesses.

Pimenta também avaliou o caso do Banco Master. Para ele, a crise não se explica apenas pelas acusações contra Daniel Vorcaro, mas principalmente pelo fato de o banqueiro ter ameaçado, ainda que de maneira limitada, o monopólio dos grandes bancos.

“Essa crise do Daniel Vorcaro, qual é a crise exatamente? É que ele passou a ameaçar, de longe ainda, o monopólio dos grandes bancos. Essa é a razão da crise. Não é que ele tenha roubado, porque no Brasil tem um monte de gente que rouba e não acontece nada. Ele foi roubar e acabou pisando no calo das pessoas erradas. Não fosse isso, não teria crise do Banco Master.”

Segundo Pimenta, o escândalo envolve praticamente todo o regime político. Ele afirmou que Vorcaro tinha relações amplas com partidos e instituições, incluindo o Supremo Tribunal Federal (STF).

“Os bancos querem liquidar essa fatura. Eles não querem que se mantenha aberta a porta para novas aventuras no setor financeiro. Então querem que Daniel Vorcaro denuncie o pessoal. Acho que o STF é um dos alvos mais importantes, porque o STF protegeu muito esse Vorcaro. Os ministros têm muitas relações com o Vorcaro. Na realidade, o Vorcaro tem relações com todo o sistema político brasileiro”, declarou.

Para Pimenta, o caso mostra a necessidade de estatizar o sistema bancário. Ele afirmou que os grandes bancos são o centro do problema, e não apenas Vorcaro.

“Isso seria uma medida de defesa nacional, estatizar o sistema bancário. Acho que o Vorcaro não é o problema maior. O maior problema são os grandes bancos. Perto dos grandes bancos, o Daniel Vorcaro é um ladrão de galinhas. Ele deu prejuízo de R$50 bilhões. Veja o tamanho da dívida pública que os bancos alimentam e controlam. É muito superior.”

Na entrevista, Pimenta também comentou a possível entrada de Joaquim Barbosa na disputa presidencial. O ex-ministro do STF apareceu recentemente na Democracia Cristã, em meio a uma disputa interna com Aldo Rebelo. Para Pimenta, Barbosa pode ser usado como balão de ensaio para uma candidatura de terceira via.

“Esse Joaquim Barbosa é uma figura lamentável, mas a maioria das pessoas não sabe disso. Ele dirigiu um processo grotesco contra os dirigentes do PT, condenou o pessoal sem prova. Ele e o resto do STF. O pessoal esqueceu essas aventuras do STF, mas foi ele que liderou a coisa”, afirmou.

Segundo o dirigente do PCO, Barbosa poderia servir justamente por ser uma figura sem programa definido, capaz de assumir a aparência que a burguesia desejar.

“Isso pode acontecer. Tem tempo. Estamos em maio, a eleição é em outubro, tem tempo. Do jeito que anda a situação política brasileira, as coisas estão se movimentando muito. É um quadro bastante indefinido. A candidatura do Lula tem diversas fragilidades. O Flávio Bolsonaro explodiu essa bomba no colo dele. O quadro ficou muito instável. É um quadro propício para pescador de águas turvas.”

Pimenta também tratou da Polícia Federal. Ao comentar a declaração de Flávio Bolsonaro de que a instituição estaria aparelhada, o presidente do PCO afirmou que a PF não é controlada pelo governo, mas tem ligações profundas com organismos policiais internacionais.

“Eu não acho que é um instrumento de quem está no poder. Na minha opinião, não é o Lula que controla a Polícia Federal. A burguesia é muito insistente em falar que a Polícia Federal tem que ter autonomia. Pelo que eu vi, a Polícia Federal agiu numa série de casos contra o PT, ela tem relações muito próximas com o imperialismo, justamente com o sistema policial internacional, FBI, Interpol. Tem um entrelaçamento muito grande da Polícia Federal com esses organismos.”

No início da entrevista, Pimenta defendeu a convocação de Neymar para a Seleção Brasileira. Ele afirmou que a avaliação deve ser feita pelo futebol do jogador, e não por suas posições políticas ou por sua vida fora de campo.

“Eu achei boa a convocação. Não tem mistério essa questão do Neymar. Acho que a gente tem que separar as posições do jogador de futebol do futebol que ele joga. Eu torci muito pela Seleção da Copa de 70 e Neymar era criança perto daquela turma lá. E a gente não vai defender o campeonato do Brasil? Não foi uma conquista nacional importante? Foi. O Neymar é um jogador muito superior ao restante da Seleção que foi convocada. Seria um absurdo não convocá-lo. O nosso negócio com Neymar é o futebol.”

Pimenta afirmou ainda que há uma campanha exagerada contra Neymar, inclusive por parte da Rede Globo e de comentaristas esportivos. Para ele, a hostilidade contra o jogador também tem razões econômicas, pois Neymar é um atleta com grande independência em relação aos donos do futebol.

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