Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, afirmou nesta terça-feira (19), durante a Análise da 3ª, da Rádio Causa Operária, que o processo contra dirigentes do Partido por suposto antissemitismo é uma tentativa de impedir críticas à ocupação sionista da Palestina e ao genocídio na Faixa de Gaza.
O programa, que vai ao ar às terças-feiras, abordou a ofensiva judicial contra o PCO, a disputa eleitoral de 2026, o escândalo do Banco Master, a possível candidatura de Joaquim Barbosa, a convocação de Neymar para a Seleção Brasileira e a situação internacional, com destaque para Venezuela, Bolívia, Irã, Palestina, Rússia e Cuba.
‘Ministério Público age a serviço do lobby sionista’
No trecho final do programa, Henrique Simonard mencionou as notícias publicadas na segunda-feira (18) sobre Rui Costa Pimenta e Henrique Áreas, dirigentes nacionais do PCO, terem se tornado réus após representação da Confederação Israelita do Brasil (Conib), que acusa o Partido de antissemitismo. Para Simonard, a medida atinge diretamente “o partido que lançou uma candidatura independente, que denuncia o genocídio na Palestina, que defende um projeto nacional”.
Pimenta afirmou que o caso faz parte de uma ofensiva política do sionismo contra os que denunciam os crimes do Estado de “Israel”.
“Isso aqui é mais um episódio da tentativa do sionismo de calar as críticas que são feitas à ocupação sionista da Palestina, ao genocídio em Gaza e tudo mais. Esse não é o único inquérito que nós temos. O que nós temos a dizer é o seguinte: esse processo por antissemitismo é uma coisa totalmente artificial, é uma conduta completamente ilegal do Ministério Público. O Ministério Público age a serviço do lobby sionista, precisa-se dizer isso, porque indiciar uma pessoa pelas suas opiniões políticas é uma barbaridade, é uma coisa totalmente criminosa”, afirmou.
O dirigente do PCO rejeitou a acusação de antissemitismo e afirmou que o Partido não tem qualquer posição contra judeus enquanto comunidade religiosa, nacional ou social. Segundo ele, a acusação é usada para atingir adversários políticos do sionismo.
“O antissemitismo aqui é uma coisa totalmente forçada. Nós nunca falamos nada contra o judeu enquanto comunidade. Nós não temos nenhum preconceito contra nenhum tipo de grupo social, de grupo nacional, de grupo religioso, de qualquer tipo de coisa. Nós somos um partido de esquerda revolucionário, nós somos contra essa discriminação. A nossa ideologia é uma ideologia que prega a união da classe trabalhadora de todos os países, portanto, qualquer tipo de discriminação em relação a países, grupos nacionais ou religiosos é absurda. Nós somos favoráveis à liberdade religiosa”, disse.
Pimenta afirmou ainda que todos os inquéritos aos quais respondeu até agora tiveram origem na Conib. Segundo ele, a entidade apresenta documentos contra o partido e o Ministério Público age sem avaliar efetivamente o conteúdo das acusações.
“Basta a Conib tocar o sininho, o Ministério Público vem correndo para indiciar quem quer que seja. Queria dizer claramente: o Ministério Público brasileiro está a favor do lobby sionista. Todos os inquéritos que eu respondi até agora têm origem na Conib. Todos. Eles apresentam documentos falaciosos, falsificam a realidade e o Ministério Público nem se dá ao trabalho de analisar o negócio, já abre o inquérito”, afirmou.
O presidente do PCO disse que o Partido organizará uma campanha nacional contra a ofensiva. Para ele, leis apresentadas como instrumentos contra o racismo vêm sendo utilizadas para perseguir opositores políticos.
“É perseguição política da Conib, do lobby sionista, do Ministério Público, perseguição política de todas essas entidades, é uma tentativa de calar a crítica dos crimes realizados pelo sionismo. Não tem nenhum atenuante, não tem nenhum fundamento nenhum tipo de processo como esse. E sou obrigado a repetir o que eu já falei várias vezes: quando fizeram a lei que a pessoa poderia ser presa por falar coisas racistas, nós falamos: isso daí vai terminar com gente sendo colocada na cadeia por motivos políticos”, disse.
Joaquim Barbosa e a tentativa de uma terceira via
No início do programa, Pimenta comentou a crise no Democracia Cristã, após o partido anunciar Joaquim Barbosa como possível candidato presidencial, em substituição à pré-candidatura de Aldo Rebelo. O episódio foi apresentado por Henrique Simonard como uma ruptura com o acordo interno que havia levado ao lançamento de Aldo.
Pimenta classificou a troca como “um verdadeiro golpe de Estado dentro do partido”. Segundo ele, Aldo Rebelo havia sido lançado como candidato de maneira aparentemente consensual, e a direção nacional teria decidido substituí-lo de forma autoritária.
“O Aldo foi lançado como candidato, não sei também direito qual foi o procedimento para lançar ele candidato, mas me pareceu que era uma coisa unânime. Aí o presidente do partido, se eu estou interpretando corretamente, tomou a decisão de trocar o candidato presidencial da cabeça dele. E agora está ameaçando as pessoas do partido que não concordam com a decisão dele, que serão sumariamente expulsas do partido. É uma conduta totalmente antidemocrática”, afirmou.
O dirigente do PCO também criticou o perfil político de Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), a quem associou ao julgamento do Mensalão.
“O que eu acho que a gente deve destacar nesse fato, primeiro, é a candidatura do Barbosa, ex-juiz do STF, o homem que comandou o processo que foi um dos processos mais irregulares que a gente já viu no Brasil, o do Mensalão. Ele ficou esquecido porque o Alexandre de Moraes ultrapassou a sua capacidade de realizar arbitrariedades. Mas o processo foi um processo onde as pessoas foram condenadas sem prova”, afirmou.
Para Pimenta, a substituição de Aldo por Barbosa pode estar ligada à tentativa de fabricar uma candidatura de terceira via. Ele afirmou que Aldo, apesar de suas contradições, tinha um programa com inclinações nacionalistas, enquanto Barbosa não apresenta um programa claro.
“Não sei se isso daí é uma tentativa de apresentar um candidato da terceira via. Porque esse Joaquim Barbosa nunca concorreu a nada. Para a maior parte do público brasileiro, é um desconhecido. Nós temos que levar em consideração que nesse momento toda a grande imprensa capitalista está fazendo uma campanha dura contra o Flávio Bolsonaro no sentido de abrir caminho para a terceira via. Então, embora pareça um pouco extravagante, pode ser que isso daí seja uma tentativa de elevar um candidato para a terceira via”, disse.
Banco Master e a pressão sobre Flávio Bolsonaro
A eleição de 2026 também foi analisada a partir de uma pesquisa Atlas/Bloomberg citada no programa, que indicaria Lula à frente de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno. O caso do Banco Master e de Daniel Vorcaro foi apontado como um dos elementos que teriam atingido o candidato bolsonarista.
Pimenta afirmou que o escândalo teve impacto, mas advertiu que a burguesia utiliza o caso para pressionar Flávio Bolsonaro a desistir da candidatura e abrir espaço para a Terceira Via.
“Eu acho que o escândalo do Banco Master teve algum impacto. Não sei se é tudo isso, sete pontos de diferença. Agora, de qualquer maneira, esse tipo de pesquisa vai ser utilizado para tentar forçar a substituição do Flávio Bolsonaro por um candidato da terceira via. É isso que a gente tem que ver. É por isso que a burguesia continua insistindo na questão. Eu vi aí a imprensa petista falando que o Lula vai ganhar no primeiro turno e tal. Não é isso que está acontecendo. O que está acontecendo é a burguesia tentando fazer com que o Flávio Bolsonaro desista da sua candidatura. Eles não querem o Lula também. Então a vantagem do Lula nesse momento pode ser uma grande desvantagem”, afirmou.
O presidente do PCO também disse que as pesquisas que apresentam Geraldo Alckmin ou Fernando Haddad vencendo Flávio Bolsonaro devem ser lidas como parte da tentativa de demonstrar que haveria espaço eleitoral para um candidato alternativo.
Segundo Pimenta, o inquérito do Banco Master é usado politicamente, independentemente da existência de irregularidades no banco.
“Nós temos que entender que o inquérito do Banco Master é uma peça de manipulação política. Não que não exista problema, não que não tenha havido fraude, não é isso. Mas evidentemente está sendo usado para objetivos políticos. Por isso que aqui acontece o que acontece com a maior parte dos inquéritos, que é o seguinte: o Judiciário e a polícia nunca colocam toda a informação à disposição do público. Só muito tempo depois, e às vezes nem isso, é que você vai ter acesso a todas as informações”, afirmou.
Para ele, o vazamento de informações contra Flávio Bolsonaro mostra o uso seletivo do caso.
“Esse caso do Flávio Bolsonaro foi um vazamento da Polícia Federal. Agora, vazaram isso, não vazaram outras coisas. Quando a pessoa faz uma coisa dessas, é manipulação. Quer dizer, eu te ofereço a informação X, mas não a informação Y. Nós vamos ter muita coisa acontecendo, muita coisa sendo apresentada, inclusive para influenciar a eleição. Apesar de que eu acho que o grande objetivo é o STF, não é o Flávio Bolsonaro. É uma oportunidade que o pessoal viu para ver se consegue a candidatura da terceira via”, disse.
Fim da escala 6×1 precisa garantir fim de semana livre
Outro tema nacional tratado no programa foi o debate sobre a jornada de trabalho e o fim da escala 6×1. Pimenta afirmou que a reivindicação, apresentada de forma genérica, não define com precisão o que será colocado no lugar da escala atual.
“O problema é o seguinte: o fim da escala 6×1 é uma proposta, é uma palavra de ordem negativa. Ela não explica o que vai ser colocado no lugar. Esse é o principal problema da proposta”, afirmou.
Segundo ele, a proposta de escala 4×3, lançada pelo movimento VAT, não deixava claro o problema do salário integral, do final de semana e da organização da jornada. Pimenta afirmou que a burguesia não aceitaria três dias de folga sem uma luta dura dos trabalhadores.
O dirigente também criticou a proposta do governo Lula, que aponta para uma jornada de 40 horas semanais e escala 5×2, mas sem estabelecer claramente que os dois dias de descanso devem coincidir com o final de semana.
“O governo Lula lançou uma outra proposta, que é a proposta de 44 horas semanais. Na Constituição já está cristalizada a ideia das 44 horas. Seria uma diminuição de quatro horas por semana, a semana de 40 horas, mas a proposta do governo também não deixa claro o problema do final de semana livre. Ele propõe uma jornada de 5×2, mas não diz quando seriam os dois dias de folga. É nisso que o problema se manifesta mais. Os trabalhadores, a classe operária brasileira e de vários países, sempre lutaram pelo final de semana livre. É uma reivindicação antiga. E isso não está na lei”, disse.
Para Pimenta, a imprecisão da proposta pode abrir caminho para maior flexibilidade em benefício dos patrões.
“Eu acho que o problema maior dessas propostas é criar uma espécie de flexibilização da jornada. Então, o cara trabalha quando o patrão precisa dele. Ele trabalha os cinco dias que o patrão quiser: sábado, domingo, segunda, terça e quarta. Aí quinta e sexta ele não trabalha. Na outra semana, ele trabalha sábado, domingo, quinta e sexta. Esse é o problema maior”, afirmou.
Venezuela, Bolívia e a pressão norte-americana
Na política internacional, Pimenta comentou a extradição de Alex Saab para os Estados Unidos, tema levantado a partir de uma publicação de Jackson Hinkle. Para o dirigente do PCO, a medida representa um sinal grave de submissão do governo venezuelano ao imperialismo norte-americano.
“É o primeiro sinal mais importante de uma submissão concreta do governo venezuelano aos Estados Unidos, ao imperialismo. Não sei por que eles fizeram isso. Agora, se isso for o começo de uma mudança significativa na política da Venezuela em relação ao imperialismo, o regime vai cair, não vai se sustentar. É uma traição? É uma traição. Porque não há motivo nenhum, não há nada que justifique extraditar uma pessoa que nem é norte-americana para os Estados Unidos”, afirmou.
Pimenta, no entanto, disse que é preciso acompanhar o desenvolvimento da situação antes de tirar conclusões definitivas sobre o chavismo.
O caso da Bolívia também foi abordado. Pimenta comentou a tentativa de prisão de Evo Morales e afirmou que a prisão do ex-presidente pode representar risco físico ao principal dirigente político do país.
“Ele ser preso pode ser uma coisa extremamente perigosa. Aí o cidadão aparece morto. O Evo é uma pedra muito grande no sapato do imperialismo. O imperialismo já tentou matar, eliminar, prender ele várias vezes e até hoje não conseguiu”, afirmou.
Segundo Pimenta, a classe operária e o campesinato boliviano são setores muito radicalizados, e o MAS de Evo Morales tem sido expressão desse movimento. Para ele, a tentativa de tirar Evo da cena política se relaciona à necessidade de impor uma política de ajuste contra a população.
“Se você quer levar adiante uma política dura de ajuste, de ataque às condições de vida do povo, você tem que eliminar, tem que tirar do cenário uma pessoa como o Evo Morales. Ele vai ganhar a eleição, a próxima eleição, seja lá o que façam na eleição. E se ele não ganhar, a participação dele na eleição é uma crise total”, disse.
Pimenta também avaliou como correta a orientação de Evo pelo voto nulo, afirmando que ela demarcou um campo político contra o governo Luis Arce e contra os candidatos que não representam alternativa para as massas bolivianas.
Irã, Gaza e a crise do imperialismo
Ao tratar do Irã, Pimenta afirmou que o principal problema de Donald Trump não está no Golfo, mas dentro dos Estados Unidos. Segundo ele, o setor ligado ao movimento MAGA entrou em choque com a política de guerra contra o Irã.
“O problema todo não é tanto o Golfo. O problema é doméstico. O movimento do Trump, esse movimento MAGA, está numa crescente rebelião contra a política dele no Irã. Então, a política dele até o momento é um fracasso total. Isso daí estimula todo tipo de oposição a ele. Então ele precisa apresentar alguma coisa. Porque você imagina um movimento onde uma parte importante de pessoas está criticando uma aventura militar do líder que havia prometido acabar com essas coisas. E ainda por cima o cidadão volta para casa derrotado. É um desastre muito grande”, afirmou.
Para Pimenta, do ponto de vista externo, a derrota norte-americana é clara. A questão seria encontrar uma justificativa interna para Trump.
Sobre a Palestina, Pimenta afirmou que a situação em Gaza tornou-se insustentável para o imperialismo. Segundo ele, a repressão aos protestos não conseguiu conter a mobilização internacional contra o genocídio.
“A situação do conflito em Gaza é insustentável. O imperialismo já se deu conta, chegou à conclusão de que não adianta reprimir, não adianta perseguir as pessoas que estão protestando, que há um crescente sentimento de que isso é uma coisa altamente criminosa. Tanto que todos os governos europeus, a União Europeia de conjunto, que apoiou o genocídio em Gaza o tempo todo, refluiu. Todo mundo está tomando medidas”, afirmou.
Pimenta disse que o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez atua como porta-voz dessa nova política europeia, mas rejeitou a ideia de que se trate de uma posição humanitária.
“Há pessoas que querem acreditar que ele é um humanista, que ele é um esquerdista. É bobagem. Ele é um agente do imperialismo europeu. Ele está dando voz à nova política, porque, se quem fosse dar voz a essa nova política fosse o Macron ou fosse o Starmer, ela não tinha muita autoridade”, afirmou.
Segundo Pimenta, o sionismo não conseguiu cumprir seus objetivos em Gaza. Ele afirmou que o Hamas continua sendo a principal força política no território, que a Cisjordânia vive uma situação crítica e que o Hesbolá voltou a demonstrar força no Líbano.
“O sionismo em Gaza não conseguiu os seus objetivos. Eles estão ocupando cerca de 60% do território de Gaza. O Hamas está lá, continua atuando, é a maior força, eles não têm como extirpar o Hamas. A situação na Cisjordânia está se transformando numa situação crítica. Eles acreditavam que tinham eliminado o Hesbolá. O Hesbolá parece que ressurgiu do nada”, disse.
Rússia, Ucrânia e Cuba
Pimenta também comentou a guerra na Ucrânia. Para ele, a Rússia tem adotado uma política de avanço lento, evitando perdas maiores, enquanto a Ucrânia enfrenta uma crise interna profunda, com corrupção, mortes e miséria.
Ele afirmou que as especulações sobre um golpe contra Vladimir Putin devem ser vistas com cautela. Segundo Pimenta, elas podem ter relação com sinais de estagnação na economia russa, mas não indicam, por si só, uma crise política decisiva.
Sobre Cuba, o dirigente do PCO comentou as novas sanções impostas pelos Estados Unidos e as orientações do governo cubano à população em caso de intervenção militar. Para Pimenta, uma invasão norte-americana seria difícil, em razão da experiência de derrotas militares dos Estados Unidos no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão.
“Os Estados Unidos são um país que já mostrou claramente a sua dificuldade como potência de ocupação militar. Depois da derrota do Vietnã, sofreram duas outras derrotas, uma no Iraque e outra no Afeganistão. No Iraque, o sentimento da população norte-americana foi mais profundo do que no Vietnã. O pessoal ficou horrorizado em ouvir falar de guerra. O país não tem condições políticas para isso”, afirmou.
Pimenta disse que o governo Trump é imprevisível, assim como o imperialismo em crise, mas avaliou que, no caso de Cuba, a tendência seria uma manobra semelhante à realizada contra a Venezuela.
“Poderia tentar, mas eu não sei se existe um governo que quer correr o risco de botar tropas no chão para invadir um país e ter milhares e milhares de mortes. O governo Trump é imprevisível. E o imperialismo em crise também é um pouco imprevisível de conjunto. Mas eu diria que o que Trump quer fazer em Cuba é meio o que ele fez na Venezuela: alguma jogada teatral”, afirmou.





