Redes sociais

A única arma contra a ‘pós-verdade’ é a realidade

Com o advento da Internet, e o surgimento das redes sociais, a produção de informação ficou muito mais democrática, o que tem causado inúmeras preocupações para o imperialismo

Com a crise do identitarismo, o conceito de “pós-verdade” já estava definhando; no entanto, com o advento das inteligências artificiais, e o medo dessa tecnologia, foi trazido de volta este debate, como demonstra o artigo Pós-verdade, democracia e o julgamento da política, de João Antônio da Silva Filho, publicado no Brasil 247 neste domingo (17)

“Na filosofia”, inicia o autor, “o certo e o errado representam juízos de valor formulados a partir de fatos, ideias ou atitudes. Em grande medida, é o ponto de vista do observador que condiciona sua interpretação da realidade e influencia a percepção do que lhe parece correto ou equivocado. Pode-se afirmar, portanto, que o certo e o errado são frequentemente mediados pelas circunstâncias históricas, culturais e sociais em que os indivíduos estão inseridos.”

No século XVII, René Descartes já havia refutado a ideia de que a verdade pode estar contida unicamente no indivíduo – afinal, se o sujeito pudesse deliberar sobre a realidade, bastaria decidir que 2 mais 2 são 5 para que isso se tornasse um fato.

A contestação do ponto de vista puramente subjetivo já estava presente na Grécia Antiga. A própria gênese da Filosofia partia do princípio de que a realidade se encontra para além das aparências sensoriais, dando início à busca racional pela essência oculta da natureza.

Silva Filho de que fica a pensar “se o ponto de onde parte o olhar do observador é elemento fundamental para definir a sua visão de mundo, e se essa visão orienta a precisão — ou os limites — de sua análise, então a própria história também se constrói a partir de diferentes pontos de vista, ou mesmo da convergência entre múltiplas perspectivas. Nesse sentido, as narrativas exercem papel decisivo na construção histórica. Em outros termos: os fatos acabam sendo interpretados e relativizados pelas narrativas que os cercam; e, quando determinadas narrativas passam a ser compartilhadas por uma maioria, frequentemente assumem a condição de verdade socialmente aceita”.

O que está descrito aí é justamente a armadilha do identitarismo, que trata a realidade a partir do “lugar de fala”. A ideia central é a de que a experiência vivida por um determinado grupo social (marcado por raça, “gênero”, orientação sexual, etc.) confere a ele uma perspectiva única e privilegiada sobre a realidade e sobre as opressões que sofre.

Essa concepção acabou servindo para encerrar o debate. Desse ponto em diante, não bastava ter bons argumentos para se debater, bastava a uma das partes ter “lugar de fala” para decidir o que estava certo. Ficou estabelecido que só teria o direito de falar sobre certos assuntos quem pertencesse a este ou àquele grupo.

O articulista escreve que “quando determinadas narrativas passam a ser compartilhadas por uma maioria, frequentemente assumem a condição de verdade”, o fato é que foi exatamente o contrário que aconteceu, minorias passaram a tentar impor a verdade.

Assim surge a “pós-verdade”, pois a verdade deixa de ser algo universal, verificável, e passa a ser propriedade de um grupo e condicionada pela “identidade” de quem fala.

Para o autor “a pergunta inquietante que emerge desse cenário é a seguinte: como distinguir o certo do errado em um ambiente político profundamente polarizado? Mas isso já respondido há tempos. Karl Marx, em 1845, na Segunda Tese de Feuerbach, diz o seguinte:

“A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objetiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o carácter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica”

O problema dos “algoritmos”

Segundo Silva Filho, “em tempos de pós-verdade, nos quais o mercado dos algoritmos impulsiona a proliferação de versões e narrativas fragmentadas da realidade, descobrir a verdadeira intenção do proponente torna-se elemento decisivo para a busca da verdade política.”. No entanto, é preciso dizer que a manipulação da verdade é muito anterior ao advento de tecnologias digitais. O monopólio da imprensa pela burguesia garantiu que fosse assim.

Com o advento da Internet, e o surgimento das redes sociais, a produção de informação ficou muito mais democrática, o que tem causado inúmeras preocupações para o imperialismo, que tem tratado de espalhar pelo mundo leis de censura.

Quando no texto se lê que “já não basta confiar apenas no discurso ou na habilidade retórica dos líderes”, que “é necessário desenvolver critérios objetivos de verificação, capazes de confrontar palavras com práticas concretas, promessas com resultados efetivos e narrativas com a realidade social”, a única solução possível é participação política das bases. É na luta que se forma a consciência. Não existe uma “método científico”, uma ferramenta de verificação universal da verdade, que não seja o embate, a práxis aliada à teoria revolucionária.

É preciso abandonar a ideia de que é preciso “aproximar o Brasil do projeto civilizatório desenhado pela Constituição de 1988?” Não existe o tal “projeto civilizatório”. A Constituição opera dentro dos marcos do capitalismo, e este não tem nada a oferecer à humanidade além da barbárie.

Apenas o socialismo, e subsequente extinção das classes sociais é que, como já foi dito, poderá retirar os seres humanos da pré-história.

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