A ocupação da Embaixada dos Estados Unidos em Teerã, em 4 de novembro de 1979, foi um dos episódios mais importantes da Revolução Iraniana. Durante 444 dias, estudantes mantiveram sob controle o complexo diplomático norte-americano e transformaram a embaixada no símbolo da ingerência imperialista contra o povo iraniano.
O episódio ficou conhecido no Ocidente como “crise dos reféns”. Para a imprensa imperialista, tratou-se apenas de uma violação diplomática. Para o Irã revolucionário, no entanto, a tomada da embaixada foi a resposta de um povo que havia acabado de derrubar a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi, sustentada durante décadas pelos Estados Unidos, pela CIA, pelo imperialismo britânico e pelo Estado de “Israel”.
A crise começou em 1953, quando a CIA e o serviço secreto britânico organizaram a Operação Ajax, o golpe que derrubou o primeiro-ministro nacionalista Mohammad Mossadegh. O crime de Mossadegh havia sido nacionalizar o petróleo iraniano, até então controlado pelos britânicos. Com o golpe, o xá foi recolocado no poder e o Irã foi transformado em uma peça fundamental da dominação norte-americana no Oriente Próximo.
Durante mais de duas décadas, o regime do xá entregou o petróleo, reprimiu o povo e serviu como aliado estratégico de Washington e de “Israel”. A polícia política SAVAK, treinada e apoiada por norte-americanos e israelenses, tornou-se símbolo de tortura, prisão arbitrária e perseguição aos opositores. Para milhões de iranianos, a embaixada dos Estados Unidos não era apenas uma representação diplomática. Era o centro político da dominação estrangeira.
Em janeiro de 1979, diante de greves, manifestações e da mobilização de milhões de trabalhadores, estudantes, religiosos, comerciantes e setores populares, o xá fugiu do Irã. Em 1º de fevereiro de 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini voltou do exílio e foi recebido por uma multidão em Teerã. A monarquia pró-imperialista desabou.
O governo provisório de Mehdi Bazargan procurava ainda manter relações com o imperialismo. Ao mesmo tempo, os comitês revolucionários, os estudantes, os setores populares e as forças ligadas a Khomeini desconfiavam, com razão, de qualquer aproximação com os Estados Unidos.
O episódio decisivo veio em outubro de 1979, quando Jimmy Carter autorizou a entrada do xá nos Estados Unidos para tratamento médico. Em 1953, o xá também havia saído do país e voltado ao poder com a ajuda da CIA. Nada garantia que os Estados Unidos não estivessem preparando uma nova conspiração contra a República Islâmica recém-nascida. Foi assim que os Estudantes Seguidores da Linha do Imam organizaram a manifestação diante da embaixada norte-americana.
Na manhã de 4 de novembro de 1979, estudantes escalaram os muros do complexo diplomático, abriram os portões e ocuparam a embaixada. A polícia iraniana recebeu ordens para não intervir. Dentro do prédio, funcionários norte-americanos tentavam destruir documentos sigilosos em trituradores de papel e cestos de lixo.
Os estudantes recolheram os papéis rasgados e, nos meses seguintes, reconstruíram manualmente milhares de documentos. O material foi publicado depois como os Documentos do Ninho da Espionagem. Para os iranianos, esses documentos confirmavam que a embaixada funcionava como centro de espionagem, articulação política e contato com setores internos contrários à revolução.
A partir desse momento, a palavra de ordem dos estudantes passou a expressar o sentimento de uma revolução cercada: a embaixada não era uma embaixada, mas um ninho de espiões. Khomeini apoiou a ocupação. O aiatolá afirmou que os estudantes tinham desmascarado a atuação dos Estados Unidos e exigiu a devolução do xá ao Irã, para que fosse julgado pelos crimes cometidos contra o povo. Também exigiu a devolução dos bens e recursos roubados do país.
A ocupação teve um efeito político imediato. O governo provisório de Bazargan, incapaz de controlar a situação e cada vez mais isolado diante da mobilização revolucionária, renunciou poucos dias depois. A crise da embaixada ajudou a enterrar as ilusões de conciliação com os Estados Unidos e consolidou o setor revolucionário no poder.
Ao todo, 52 diplomatas e cidadãos norte-americanos permaneceram sob controle dos estudantes durante 444 dias. Nas primeiras semanas, algumas mulheres e afro-norte-americanos foram libertados, em uma tentativa dos estudantes de mostrar que a ação era dirigida contra o imperialismo norte-americano, e não contra o povo dos Estados Unidos.
Diante do impasse, Carter autorizou uma operação militar secreta para resgatar os reféns. A chamada Operação Garra de Águia foi lançada em 24 de abril de 1980. O plano previa que helicópteros e aviões norte-americanos pousassem em um ponto remoto do deserto iraniano, chamado Desert One, para depois seguir até Teerã e atacar a embaixada.
A operação foi um desastre. Uma tempestade de areia atingiu a região. Helicópteros apresentaram problemas mecânicos. Com menos aeronaves do que o mínimo necessário, a missão foi abortada. Durante a retirada, um helicóptero colidiu com um avião C-130. A explosão matou oito militares norte-americanos.
As imagens do avião carbonizado no deserto correram o mundo. Para os Estados Unidos, foi uma humilhação militar e política. Para o Irã, foi a confirmação de que o imperialismo podia ser enfrentado.
Khomeini tratou o fracasso como sinal da derrota da arrogância norte-americana. O episódio enfraqueceu ainda mais Carter, que já estava paralisado pela crise. A incapacidade do governo norte-americano de impor sua vontade ao Irã ajudou a destruir sua candidatura à reeleição em 1980.
Entender a crise da embaixada é fundamental para compreender tudo o que veio depois: a guerra Irã-Iraque, as sanções, a campanha contra o programa nuclear iraniano, a política de “mudança de regime”, os ataques de “Israel” e dos Estados Unidos e a formação do Eixo da Resistência.
Não se trata de um assunto do passado. A hostilidade entre os Estados Unidos e o Irã nasceu da recusa iraniana em aceitar o papel que o imperialismo lhe reservava. E essa recusa continua sendo, até hoje, o centro da política do Irã no Oriente Próximo.
A Universidade Marxista realizará, entre os dias 27 de junho e 5 de julho, o curso A história do Irã e da República Islâmica, como parte da Universidade de Férias de inverno. O curso será ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária, e abordará justamente o processo histórico que levou o Irã a romper com a dominação imperialista.
Entre os temas fundamentais estarão os antecedentes da Revolução Iraniana, o golpe de 1953, a ditadura do xá, a ação da CIA e do imperialismo britânico, a queda da monarquia, a formação da República Islâmica, a crise da embaixada, a estatização do petróleo, a Guerra Irã-Iraque, as sanções e o papel do Irã na defesa da Palestina e dos povos oprimidos da região.
Diante da campanha permanente de mentiras contra o Irã, estudar essa história é uma necessidade política. Sem compreender 1953, 1979 e os 444 dias da embaixada, não é possível entender por que o imperialismo odeia tanto a República Islâmica, nem por que o Irã se tornou um dos principais pontos de apoio da luta contra os Estados Unidos e “Israel” no Oriente Próximo.
As inscrições para o curso A história do Irã e da República Islâmica podem ser feitas pelo sítio unimarxista.org.br ou pelo telefone (11) 99741-0436.





