O editorial Limites para a inteligência artificial nas escolas, da Folha de S. Paulo, publicado nesta quinta-feira (14) tem um “detalhe” que não pode ser deixado de lado, mesmo porque não é uma questão lateral: tratar a inteligência artificial como um perigo ou espécie de ameaça.
No início do texto há uma informação situando que “uma resolução de 2025 do Conselho Nacional de Educação tornou a educação digital e midiática obrigatória a partir deste ano. Na segunda (11), o órgão estabeleceu diretrizes para o uso de IA nos ensinos básico e superior por meio da aprovação de um parecer prévio —que ainda passará por consulta pública”.
Adiante, escrevem que “O CNE faz uma diferenciação necessária entre as formas de uso. Quanto mais a IA se aproxima de avaliar, vigiar ou decidir o destino do aluno, maior o risco”. A inteligência artificial é apenas uma tecnologia que, como qualquer outra, precisa ser utilizada de maneira adequada. Ainda assim, insistem em falar em “risco” – grifo nosso.
Quando se diz, por exemplo, que “no nível de baixo risco, ela serve de apoio administrativo e pedagógico, como em organização de materiais, acessibilidade, revisão de textos sem atribuição de nota e planejamento de aulas”, é isso que espera de quando se implementam novos recursos em qualquer área, a educação não foge à regra.
Insistindo na questão do perigo, o editorial sustenta que “no risco moderado, a IA interage com alunos, mas não toma decisões automáticas relevantes, casos de tutores virtuais, feedback formativo e apoio à escrita”. Qual seria exatamente o “risco moderado” de uma inteligência artificial fazer determinadas tutorias. Se um aluno escreve um texto e comete algum erro de pontuação, por exemplo, a IA pode instantaneamente apontar o erro, explicar o que está errado e propor a solução, ou alternativas. As escolas poderiam treinar as inteligências artificiais a estimularem seus alunos a utilizarem um vocabulário mais rico, ensinar novas palavras. Não há o que temer.
Finalmente, para a Folha de S. Paulo, “o alto risco se dá quando é possível afetar diretamente notas, aprovação ou direitos dos alunos, como em correção automática de provas, monitoramento biométrico e perfilização de alunos com base em comportamento, desempenho e frequência”.
Esses pontos são curiosos, pois toda a burguesia está tratando com normalidade o monitoramento biométrico e comportamental de crianças e adolescentes, o que é uma clara intrusão na privacidade de cidadãos, ainda que menores de idade. Recentemente, a Meta anunciou que passará a utilizar inteligência artificial para analisar a estrutura óssea, altura e outras pistas visuais em fotos e vídeos no Instagram e Facebook. O objetivo é estimar a idade dos utilizadores para detectar e remover menores de 13 anos que falsificam a data de nascimento nas plataformas.
Vivemos sob uma ditadura cada vez mais autoritária que impõe a censura aos jovens sob a desculpa de os proteger de pornografia, pedofilia etc, quando, na verdade, querem impedir que a juventude saiba o que acontece no mundo, como as guerras intermináveis e os crimes praticados pelo imperialismo.
Quanto ao risco excessivo, e seria absurdo alguém propor tais medidas, dizem respeito a “decisões automáticas sobre aprovação ou expulsão, perfilização para punição e vigilância emocional”.
“Conscientização” x Realidade
Segundo o editorial, “o parecer também inclui a IA no currículo para que alunos compreendam o funcionamento da ferramenta por meio de análise crítica que identifique limites, fragilidades e periculosidade”. – grifo nosso.
Seria uma espécie de catequese explicando os pecados que devem ser evitados pelos fiéis. Essa medida é completamente desnecessária. O uso dessas tecnologias deve ser balizado pela própria dinâmica das aulas.
Há um ponto que é muito mais importante do que colocar medo nas pessoas e aparece no quase no final do texto, quando diz que “para lidar com as desigualdades entre redes de ensino, indica-se a necessidade de ampliar a inclusão digital, com adaptação a especificidades locais e regime de cooperação federativa”.
Estão falando em toda essa regulamentação quando muitas escolas no Brasil, para não dizer a maioria, estão literalmente abandonadas. Faltam equipamentos básicos para o funcionamento e as inteligências artificiais não são um problema, pois essas escolas não têm computadores.
O editorial traz que “segundo a TIC Educação de 2025, pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil, só 54% dos professores tiveram formação sobre ferramentas digitais”. Estão preocupados com as IAs quando nem mesmo professores têm formação sobre ferramentas digitais.
Os professores, na verdade, são extremamente mal remunerados no Brasil. Além disso, dão aulas em péssimas condições de trabalho. Não há perspectiva de melhora nesse quadro, mas se fala dos “riscos” das inteligências artificiais.
Antes de se discutir essa “terrível ameaça”, deveria ser discutido antes como solucionar a questão da educação no País. E essa discussão terá que, necessariamente, tocar na questão da dívida pública. Os orçamentos dos governos estão todos comprometidos com o pagamento de juros para os bancos.
Seria fundamental dar o calote na dívida pública, além de fazer uma auditoria, pois o que já se pagou de juros já superou em muito o montante contratado.
Diferentemente dos bancos, as inteligências artificiais não são um perigo para a educação.





