Polícias Civil e Militar, latifundiários e pistoleiros cercaram cerca de mil famílias camponesas no sudeste do Pará após a ocupação de terras públicas na sexta-feira (1). As famílias haviam entrado na área destinada ao Projeto de Assentamento Maria da Glória para cobrar a efetivação do assentamento e denunciar a grilagem de terras da União.
A ocupação ocorreu depois de meses de espera e falta de resposta do governo federal. Segundo denúncias do MST e de movimentos populares da região, o acampamento foi submetido a um cerco envolvendo forças policiais, latifundiários e pistoleiros. As vias de acesso foram bloqueadas, impedindo entrada de água e alimentos. Apenas após requisição do Ministério Público Federal, no dia 3 de maio, a entrada de mantimentos foi liberada, embora o acesso continuasse restrito.
A Vara Agrária de Marabá realizou audiência na quinta-feira (7) e determinou prazo de 30 dias para análise do processo do Projeto de Assentamento Maria da Glória. A decisão também reiterou que a área é terra pública da União e que não havia pedido ativo de reintegração de posse. O ponto central do conflito, portanto, não era uma disputa comum entre particulares, mas a permanência de famílias pobres em área pública já reconhecida como destinada à reforma agrária.
O ataque às famílias deve ser entendido dentro do quadro de concentração de terra e avanço da mineração no sudeste paraense. O Acampamento Terra e Liberdade reúne cerca de 5 mil famílias em Parauapebas, muitas vindas de outras regiões do país. Marabá, Parauapebas e Canaã dos Carajás concentram grandes centros de extração de minério de ferro, enquanto a população enfrenta desemprego, informalidade, alta rotatividade no trabalho e aumento do custo de vida.
A contradição aparece nos números da própria área. O Incra destinou, por portaria publicada em 24 de dezembro de 2025, as fazendas Campo Alegre e Encontro das Águas para a criação do Projeto de Assentamento Maria da Glória. O órgão constatou que as terras eram públicas da União e estavam griladas por fazendeiros. Ainda assim, pelas normas oficiais, o projeto comportaria apenas 194 famílias, número muito inferior às 5 mil famílias do Terra e Liberdade e às milhares de outras famílias sem terra da região.
O Pará também aparece entre os estados mais violentos nos conflitos agrários. O relatório “Conflitos no Campo 2025”, da Comissão Pastoral da Terra, apontou que Pará e Rondônia lideraram os assassinatos em conflitos no campo naquele ano, com sete casos em cada estado, dentro de um total nacional de 26. O levantamento também atribuiu a latifundiários 77% dos casos envolvendo mandantes ou executores desses crimes.
A ação policial e jagunça contra as mil famílias revela que o problema agrário segue sendo tratado como caso de repressão, mesmo quando a própria Justiça reconhece a natureza pública da terra. Sem acesso a moradia, trabalho e produção, as famílias insistem na ocupação como meio de sobrevivência. A resposta do Estado, denunciada pelos camponeses, foi o cerco armado, o bloqueio de alimentos e a tentativa de intimidação de quem exige terra para trabalhar.


