A Polícia Militar de São Paulo desocupou violentamente, na madrugada deste domingo (10), o saguão da Reitoria da Universidade de São Paulo (USP), no campus do Butantã, na Zona Oeste da capital paulista. A agressão começou por volta das 4h15m, durou cerca de 15 minutos e terminou com quatro estudantes detidos.
Os estudantes foram levados ao 7º Distrito Policial, na Lapa, onde foi registrado boletim de ocorrência por dano ao patrimônio público e alteração de limites. Eles foram liberados posteriormente. Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP) do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), o ataque contou com cerca de 50 policiais. Outros relatos falam em 35 agentes.
A desocupação ocorreu com bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e cassetetes. Segundo relatos dos estudantes e vídeos divulgados, a Tropa de Choque cercou o prédio enquanto os ocupantes dormiam, empurrou o grupo para dentro do saguão e formou um “corredor polonês” na saída do prédio para agredir os estudantes que deixavam o local. Veja:
O Diretório Central dos Estudantes Livre Alexandre Vannucchi Leme afirmou que dezenas de estudantes ficaram feridos, com casos de fraturas, sangramentos e uma estudante desmaiada. O estudante Rael Brito de Paula definiu a operação como “absurdamente violenta” e relatou “trauma psicológico” entre os ocupantes.
A versão da SSP foi a de que o ataque foi “concluído sem registro de feridos”. A secretaria também afirmou que a ação foi registrada por câmeras operacionais portáteis dos policiais e alegou a existência de danos ao patrimônio público, como portas, mesas e a catraca da universidade.
A Reitoria da USP, por sua vez, afirmou que não foi avisada previamente sobre a desocupação. Em nota, a universidade declarou que havia informado a SSP sobre a ocupação no dia 7 de maio “com vistas à adoção dos protocolos de proteção e de preservação da ordem”, mas que a ação policial ocorreu “sem comunicação prévia à Reitoria”.
A universidade também lamentou os acontecimentos e afirmou repudiar “que a violência substitua o diálogo, a pluralidade de ideias e a convivência democrática”. Na sexta-feira (8), o reitor Aluísio Segurado havia mencionado a possibilidade de recorrer à Justiça para a desocupação, citando uma ocupação anterior ocorrida em 2023.
O DCE afirmou que não existia decisão judicial de reintegração de posse autorizando a retirada dos estudantes. Também destacou que, mesmo em casos com determinação judicial, os tribunais têm entendimento pacífico contra operações de reintegração entre 21 horas e 5 horas.
A ocupação durava mais de 60 horas. Segundo o DCE, não havia registro de violência ou ameaça durante o ato. A entidade responsabilizou diretamente o reitor Aluísio Segurado e o chefe de gabinete Edmilson Dias de Freitas pela entrada da PM na universidade, afirmando que a Reitoria “escolheu relembrar períodos sombrios de autoritarismo”. O DCE classificou o episódio como “um dos mais violentos da história recente” da USP e ressaltou que a operação ocorreu em pleno Dia das Mães.
A ocupação teve início na tarde de quinta-feira (7), depois que a Reitoria encerrou unilateralmente as negociações com os estudantes em greve. A paralisação havia sido aprovada em 14 de abril, inicialmente em apoio à greve dos servidores, que conseguiram avanços salariais e encerraram sua mobilização. Depois disso, os estudantes mantiveram o movimento em torno de reivindicações próprias.
Cerca de 400 estudantes participaram da manifestação inicial. Entre 150 e 200 se revezavam na ocupação do saguão da Reitoria.
A principal reivindicação dos estudantes é o reajuste do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE). Atualmente, o programa paga entre R$335,00 para estudantes residentes em moradia estudantil e R$885,00 no auxílio integral. A USP propôs reajuste pelo IPC-Fipe, elevando o auxílio integral para R$912,00 e o parcial para R$340,00 míseros. A proposta foi rejeitada pelos estudantes, que defendem o reajuste para R$1.804,00, valor equivalente ao salário mínimo paulista.
Os estudantes também reivindicam melhorias nos restaurantes universitários, nos bandejões, na moradia estudantil do Conjunto Residencial da USP (CRUSP) e no Hospital Universitário, que perdeu cerca de 30% de seu quadro de funcionários na última década. A mobilização também chegou à Unesp e à Unicamp, com reivindicações semelhantes ligadas à permanência estudantil.
Antes da ação policial, várias unidades da USP haviam divulgado notas críticas à ocupação, entre elas a Faculdade de Medicina, a Faculdade de Direito, a Escola de Comunicações e Artes (ECA), a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), a Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) e a Escola Politécnica, esta última alinhada explicitamente à Reitoria. A Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento também havia condenado o ato.
Depois da desocupação, a diretoria do Instituto de Química da USP se manifestou contra a ação da PM. Em nota, afirmou que “tal escalada na violência não contribui para a resolução dos problemas de permanência, moradia e alimentação apontados pelos alunos”.




