Um comitê formado por três dirigentes iraquianos está próximo de concluir um plano para desarmar setores das Forças de Mobilização Popular (FMP), organização criada para combater o Estado Islâmico e integrada formalmente às Forças Armadas do Iraque. A informação foi publicada na quinta-feira (8) pelo jornal saudita Asharq Al-Awsat.
Segundo a publicação, o plano será apresentado a autoridades dos Estados Unidos nos próximos dias. O comitê é formado por Ali al-Zaidi, indicado em 27 de abril pelo bloco político xiita Estrutura de Coordenação como candidato de consenso para suceder o primeiro-ministro Mohammed Shia al-Sudani; pelo próprio Sudani; e por Hadi al-Amiri, dirigente da Organização Badr.
A iniciativa ocorre sob forte pressão dos Estados Unidos. O governo norte-americano exige que os partidos xiitas iraquianos retirem das organizações da resistência suas armas e impeçam seus representantes de participar do novo governo. Segundo fontes ouvidas pelo jornal saudita, o comitê realizou negociações secretas com dirigentes das facções armadas, apresentando propostas para a entrega das armas e a incorporação dos combatentes ao Estado.
Ainda segundo o Asharq Al-Awsat, a participação de Hadi al-Amiri no comitê teve o objetivo de criar uma ponte com as facções da resistência. Al-Amiri mantém relações próximas com o Irã e foi chamado a convencer as organizações a aceitar a proposta de desarmamento. As reuniões, no entanto, enfrentaram resistência. Algumas delas, segundo as fontes do jornal, “não transcorreram calmamente” devido à exigência de entrega das armas.
Um porta-voz de uma das facções das FMP afirmou, sob anonimato, que o Cataebe Hesbolá, Cataebe Saied al-Xuhada e Harakat al-Nujaba rejeitaram entregar suas armas a qualquer setor. Segundo ele, as três organizações estavam “preparadas para pagar qualquer preço resultante de sua recusa em se desarmar”.
As Forças de Mobilização Popular foram criadas em 2014, com apoio da Força Quds do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI), para combater o Estado Islâmico. Posteriormente, foram incorporadas oficialmente às Forças Armadas iraquianas. Apesar disso, as organizações que compõem as FMP mantêm grande autonomia política e militar, o que se tornou alvo direto da pressão dos Estados Unidos.
Durante a guerra entre os Estados Unidos e o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, a Força Aérea norte-americana bombardeou posições das FMP em várias regiões do Iraque. As facções da resistência, por sua vez, realizaram ataques com VANTs contra bases dos Estados Unidos na Região do Curdistão iraquiano e contra a embaixada norte-americana em Bagdá.
Na quarta-feira, o secretário da Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, telefonou para Ali al-Zaidi e afirmou que a autoridade do novo governo dependerá de sua capacidade de afastar as facções armadas do aparelho estatal. Segundo uma alta fonte política citada pelo Asharq Al-Awsat, o comitê acelerou seus trabalhos nas últimas semanas justamente em função do aumento da pressão norte-americana.
O plano em elaboração prevê a reestruturação das Forças de Mobilização Popular e a entrega de suas armas pesadas e médias. Os Estados Unidos, no entanto, pressionam o governo iraquiano a dissolver completamente as FMP, um ataque total a uma das principais forças do Eixo da Resistência.
O jornal saudita também informou que o ex-general norte-americano David Petraeus pode visitar Bagdá nesta semana para assegurar que o novo governo rompa integralmente seus vínculos com as facções armadas. Petraeus não ocupa cargo formal no governo dos Estados Unidos, mas teve papel importante na ocupação do Iraque.
Petraeus comandou a 101ª Divisão Aerotransportada durante a invasão de 2003, que derrubou o governo de Saddam Hussein. Depois, foi diretor da CIA e comandou operações clandestinas na Síria em colaboração com organizações ligadas à Al-Qaeda. Em 2004, trabalhou com dirigentes ligados a facções apoiadas pelo Irã, entre eles Hadi al-Amiri, para formar uma nova polícia iraquiana após a dissolução do Exército e da polícia do Iraque pelo administrador da ocupação norte-americana, Paul Bremer.
As forças policiais organizadas sob Petraeus e o Ministério do Interior iraquiano, em especial a Brigada Lobo, ficaram conhecidas por sequestros, assassinatos e torturas contra muçulmanos sunitas. Parte desses comandos foi treinada por James Steele, militar norte-americano associado aos esquadrões da morte em El Salvador nos anos 1980.
Na sexta-feira, Malik Francis, membro do Partido Republicano, afirmou à agência iraquiana Xafaq News que o governo dos Estados Unidos “parece até agora cauteloso em suas relações com Ali al-Zaidi”, mas não demonstra uma posição hostil aberta contra ele. Segundo Francis, os Estados Unidos ainda não deram um “cheque em branco” a Zaidi, mas também não o tratam como adversário.
A pressão política veio acompanhada de sanções econômicas. Na quinta-feira, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou novas sanções contra indivíduos e empresas iraquianas, acusados de ligação com o Irã. Políticos da Estrutura de Coordenação avaliaram que as medidas podem ter sido adotadas para bloquear nomeações consideradas indesejáveis para o novo governo e direcionar a formação do gabinete para outros nomes.
Segundo as informações divulgadas, facções das FMP avaliam a possibilidade de evitar participação direta no novo governo, apoiando nomes apresentados como independentes para cargos ministeriais. A medida permitiria manter influência indireta sobre esses postos diante da pressão norte-americana para excluir a resistência do aparelho estatal iraquiano.





