A Reitoria da USP declarou encerrada a negociação das pautas estudantis em comunicado publicado em São Paulo, na segunda-feira (4). A decisão veio após reunião de mais de cinco horas realizada em 30 de abril com representantes discentes, mas foi criticada por entidades estudantis e sindicais como abandono unilateral do diálogo. O comunicado afirma haver avanços e propostas finais, embora várias demandas dos estudantes sigam tratadas pela administração como pontos já resolvidos. O texto do comunicado tenta fazer parecer que não é um abandono de negociações, mas de uma já resolução do conflito, o que apenas compete aos estudantes decidir.
A reunião contou com a presença do reitor Aluisio Segurado, da vice-reitora Liedi Bernucci, de pró-reitores, integrantes do gabinete e 25 representantes indicados pelo movimento estudantil. A Reitoria informou que, somadas as rodadas anteriores, foram quase 20 horas de negociação. Esse número, porém, não responde ao essencial: a duração das reuniões não garante atendimento das reivindicações. Ao considerar encerrada a negociação, a administração impôs um conflito maior justamente quando os estudantes mantinham críticas às propostas apresentadas.
O principal tema foi o Programa de Apoio à Formação e Permanência Estudantil. A Reitoria propôs reajustar o auxílio integral de R$ 885 para R$ 912 e o auxílio parcial com moradia de R$ 335 para R$ 340, usando o IPC-Fipe como referência. O comunicado afirma que essa é a proposta final. A postura é problemática porque trata valores modestos como conclusão definitiva, num contexto em que estudantes vulneráveis dependem desses recursos para alimentação, transporte, moradia e permanência na universidade.
A Reitoria também informou que o PAPFE atendeu 17.587 estudantes de graduação e pós-graduação em vulnerabilidade socioeconômica em abril e que o orçamento de 2026 para auxílios, bolsas, moradia, restaurantes, esporte e assistência à saúde é de R$ 461 milhões. Esses números, apresentados como demonstração de esforço institucional, apenas mostram como as demandas estudantis são bastante plausíveis e até conservadoras diante do tamanho do orçamento. Um orçamento global elevado não deveria poder conviver com auxílios incapazes de cobrir custos básicos.
Outro ponto foi o Hospital Universitário. A Reitoria afirmou que, desde a retomada das contratações em 2022, 120 das 400 vagas autorizadas para a USP foram destinadas ao HU e que desligamentos vêm sendo repostos por concursos. Também alegou que mudanças na rede municipal reorganizaram os atendimentos de urgência e emergência, permitindo ao HU concentrar atividades em sua vocação acadêmica. A explicação desloca o problema para a rede municipal e tenta transformar redução de papel assistencial em racionalização. Para estudantes e trabalhadores, porém, o HU segue sendo campo essencial de formação e atendimento.
A administração ainda mencionou avaliação independente do Programa Experiência HCFMUSP na Prática e compromissos sobre acessibilidade em restaurantes, interlocução com estudantes após reunião com prefeitos de campi do interior, atendimento nas Ubas e grupos de trabalho sobre pessoas com deficiência. O comunicado diz que propostas sobre espaços estudantis, restaurantes universitários, cotas para índios, moradia estudantil, linhas de ônibus e calendário escolar foram mantidas. O problema é que “manter propostas” não equivale a atender reivindicações.
O Sintusp classificou a postura do reitor como ação desrespeitosa com a greve estudantil e destacou que o fim das negociações foi anunciado pela imprensa. A crítica é consistente com o teor do comunicado da Reitoria: a administração afirma que tem compromisso com o diálogo, mas, na prática, decide sozinha que a negociação acabou.
O encerramento imposto tende a aprofundar o conflito. Quando a Reitoria declara uma proposta como final, reduz a negociação a comunicado administrativo. A greve estudantil, por outro lado, existe justamente porque os estudantes consideram insuficientes as respostas. Ao abandonar a mesa enquanto persistem demandas de permanência, moradia, restaurantes, transporte, cotas e calendário, a administração da USP escolhe o caminho da autoridade em vez de construir solução real com a comunidade universitária.



