Índios

Vice-cacique Guarani-caiouá é assassinado

O assassinato ocorre poucos dias depois de a Polícia Militar ter realizado operação violenta contra índios da região, e a liderança vinha pedindo investigações sobre o ocorrido

O vice-cacique Givaldo Santos Guarani-caiouá foi assassinado com indícios de execução na Reserva Taquaperi, no Mato Grosso do Sul, na sexta-feira (1º). Givaldo, de 40 anos, foi abordado por dois homens armados que chegaram de motocicleta enquanto aguardava o irmão voltar do trabalho numa localidade chamada Chapeuzinho, uma parada na rodovia MS-289 que corta o território dos índios, entre os municípios de Coronel Sapucaia e Amambai. O assassinato ocorreu poucos dias após a Polícia Militar ter realizado operação violenta contra índios da região, e a liderança vinha pedindo investigações sobre atropelamento que matou dois índios na semana anterior.

De acordo com testemunhas que estavam próximas ao local do crime, foi possível ouvir ao menos quatro disparos, sendo que um dos tiros atingiu a cabeça de Givaldo, levando-o a óbito antes da chegada do socorro. O corpo do vice-cacique foi encontrado no canteiro da pista com uma marca de tiro na cabeça e a motocicleta sobre o corpo. A Polícia Federal esteve no local ainda durante a noite, mas segundo veículos de comunicação do Mato Grosso do Sul, a Polícia Civil é quem investiga o assassinato. Uma equipe do governo federal, composta por agentes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas e integrantes do Ministério dos Povos Indígenas, acompanhada pela Força Nacional de Segurança Pública, esteve na Reserva Taquaperi no sábado (2).

Na manhã de sábado, índios Guarani-caiouá realizaram um protesto bloqueando a rodovia MS-289 em repúdio ao assassinato de sua liderança. “Nos matam feito animais, não respeitam a nossa vida. Givaldo era pai de cinco filhos. Como ficam essas crianças agora? Será que temos de aceitar calados que nos matem, nos abatam como bichos? Cadê as autoridades para mostrar que existem leis nesse Brasil?”, declarou um índio que preferiu não se identificar por razões de segurança. No período da tarde, o corpo do vice-cacique foi levado de volta à Reserva para o rito fúnebre e despedida da comunidade.

Conforme a esposa do vice-cacique, a aldeia está perplexa porque Givaldo não nutria desavenças internas ou externas, tampouco havia recebido ameaças recentes. Ela explicou que dois homens de motocicleta pararam na porta da casa da família perguntando por alguém chamado Nivaldo. Como o vice-cacique já havia saído para encontrar o irmão, os dois indivíduos seguiram em seu encalço. Após o assassinato, outras famílias relataram que os mesmos indivíduos as abordaram em suas residências durante o dia procurando também por outros índios.

Integrantes da Aty Guasu, a Grande Assembleia Guarani e Kaiowá, afirmam que o assassinato do vice-cacique se relaciona com episódios recentes de violência na região. O vice-cacique mobilizou a comunidade para elaborar uma carta de denúncia após um acidente de trânsito suspeito. “O vice-cacique mobilizou a carta, a denúncia. Por isso a gente suspeita que pode ter relação com isso, ele estava muito triste e revoltado com o que aconteceu. Não queria deixar pra lá, tratar como um simples acidente”, afirmaram lideranças dos índios.

Poucos dias antes do assassinato, uma caminhonete Hilux branca atingiu um automóvel Fiat Uno na MS-289 que transportava um grupo de índios. Rick Elison Batista Rios, de 12 anos, e Fabiano Lescano, índios Guarani-caiouá, morreram no local, e outros dois adolescentes ficaram hospitalizados.

Testemunhas afirmaram que o motorista da caminhonete é conhecido pelos índios do município de Coronel Sapucaia e teria passado em alta velocidade pelos quebra-molas da aldeia, invadido a pista contrária e colidido frontalmente com o veículo ocupado pela família de índios.

Em carta enviada ao Ministério Público Federal, os índios afirmaram que as vítimas da comunidade não receberam socorro imediato, direcionado ao motorista que não era índio.

A região onde ocorreu o assassinato tem sido palco de conflitos entre índios e autoridades. No dia 25 de abril, a comunidade realizou a retomada da Fazenda Limoeiro, situada na Reserva Limão Verde, entrando em conflito com funcionários da fazenda e forças policiais.

O embate resultou na prisão de cinco índios acusados de invasão, depredação e incêndio. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, a Fazenda Limoeiro está situada em território que faz parte de área de índios.

A Reserva Limão Verde é uma das oito existentes no Mato Grosso do Sul, destinada aos índios por Decreto Estadual em 1928 no tamanho de 2 mil hectares, mas, com o passar dos anos, fazendeiros invadiram a região, deixando os povos Guarani-caiouá com apenas 668 hectares.

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