Publicado no dia 30 de abril de 2026, no Brasil 247, o artigo A democracia brasileira de volta à UTI, assinado por Florestan Fernandes Júnior, jornalista, escritor e diretor de redação do portal, trata da rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado e apresenta o episódio como uma derrota histórica da “democracia” brasileira.
O artigo parte de um fato real — a ofensiva da direita no Congresso — para chegar a uma conclusão profundamente errada. Florestan Fernandes Júnior faz da chamada “defesa da democracia” uma defesa das instituições do próprio regime que esmagam o povo brasileiro. Pior: apresenta como saída a mesma política que levou o governo a essa situação, isto é, a frente ampla com setores da burguesia.
A rejeição de Jorge Messias pelo Senado foi, sem dúvida, uma demonstração de força da direita. Mas não se pode fingir surpresa diante disso. Quem deu poder à direita? Quem apostou na conciliação com Alcolumbre, com antigos aliados do golpe, com figuras que vivem de chantagear o governo? Quem acreditou que seria possível estabilizar o País por meio de acordos com os representantes diretos dos interesses da burguesia? A derrota não caiu do céu. Ela é produto de uma política.
Florestan denuncia Davi Alcolumbre, a extrema direita e o “centrão”. Muito bem. Mas sua crítica para no meio do caminho, porque não toca no essencial: a política de frente ampla colocou o governo Lula nas mãos desses mesmos setores. Durante anos, foi dito que era preciso compor, ceder, negociar, respeitar a correlação de forças, fazer alianças “responsáveis”. O resultado está aí. Quando chega o momento decisivo, os aliados da véspera agem como aquilo que sempre foram: inimigos do governo e do povo trabalhador.
O problema, portanto, não é apenas que a democracia esteja “na UTI”. Essa metáfora serve para esconder a natureza da crise. A chamada democracia brasileira é o regime político da burguesia. É um sistema no qual o povo vota, mas os bancos mandam; no qual Lula ganha a eleição, mas o Congresso direitista impõe seus interesses; no qual o governo fala em soberania, mas a política econômica fica condicionada ao mercado financeiro; no qual se fala em direitos, mas os trabalhadores continuam submetidos a baixos salários. Defender essa democracia sem explicar seu caráter de classe é enganar o leitor.
O artigo afirma que o enfraquecimento do STF seria peça-chave para proteger parlamentares envolvidos em escândalos e para abrir caminho a um projeto autocrático da extrema direita. Mas o STF também não é uma instituição popular. Não é uma trincheira da classe trabalhadora. É parte do Estado burguês. A esquerda que trata o Supremo como fortaleza democrática comete o mesmo erro que cometeu ao tratar certos ministros como heróis. Hoje o STF pode entrar em choque com Bolsonaro; amanhã pode voltar-se contra greves, movimentos populares, organizações de esquerda e contra o próprio povo que agora alguns querem convocar para defendê-lo.
A defesa abstrata do “Estado Democrático de Direito” tem servido, na prática, para subordinar a esquerda às instituições controladas pela classe dominante. Sempre que o regime entra em crise, aparece o mesmo argumento: é preciso defender as instituições. Mas quais instituições?
Florestan também fala nas “digitais da CIA” e do governo Donald Trump sobre a crise brasileira. A denúncia do imperialismo norte-americano é correta e necessária. Os Estados Unidos sempre trataram a América Latina como quintal. O Brasil, com seu petróleo, suas terras raras, sua água, sua indústria e seu peso político, é alvo permanente do imperialismo. O problema é que essa denúncia se torna contraditória quando vem acompanhada da defesa da frente ampla. Não se combate o imperialismo fazendo alianças com os seus representantes internos.
Não haverá defesa da soberania nacional com Alckmin, com banqueiros, com o Centrão, com a direita “civilizada” e com os inimigos de classe dentro do governo ou em torno dele.
A reeleição de Lula, se colocada como simples continuidade do atual arranjo político, não resolverá o problema. O povo não precisa apenas de mais quatro anos de conciliação com seus inimigos. Precisa de um governo apoiado nas massas e disposto a enfrentar os bancos, o imperialismo, o Congresso, o Judiciário e o monopólio da imprensa. Sem isso, cada vitória eleitoral será seguida de novas chantagens, novas derrotas parlamentares e novas concessões à direita.





