No dia 1º de maio de 2026, o portal Brasil 247 publicou o artigo Trabalhar menos, viver mais: o próximo avanço dos direitos sociais, assinado por José Guimarães, deputado federal pelo PT do Ceará e ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República.
O problema do artigo começa justamente onde ele pretende parecer mais progressista. José Guimarães apresenta uma reivindicação justa da classe trabalhadora — trabalhar menos, viver melhor, acabar com jornadas exaustivas — como se ela pudesse avançar por meio de um chamado genérico à “sociedade”, às “instituições” e ao “Estado”. Ele reconhece que o povo sofre, constata que a tecnologia poderia aliviar a vida dos trabalhadores, mas não aponta o centro do problema. E o centro do problema é que a burguesia brasileira, os bancos, os grandes capitalistas e seus representantes dentro e fora do governo não aceitarão entregar nada de substancial sem uma luta política frontal.
Não basta dizer que a redução da jornada é uma “agenda civilizatória”. A questão decisiva é: quem vai pagar a conta? Para o trabalhador, a conta já está sendo paga todos os dias, em salários baixos, transporte precário, jornadas intermináveis, terceirização, informalidade e esmagamento das condições de vida. Para a burguesia, qualquer redução real da jornada sem redução salarial é tratada como uma ameaça aos seus lucros. Portanto, apresentar o tema como se fosse uma evolução natural da “consciência democrática” do País é iludir o leitor. A história dos direitos trabalhistas não é a história de pactos harmoniosos, mas da luta de classes.
Uma redução da jornada de trabalho real não virá da boa vontade do Congresso dominado pela direita. Não virá de uma conciliação permanente com banqueiros, empresários, latifundiários e seus representantes políticos. E, portanto, não virá de um governo que, em nome da frente ampla, aceita ficar refém dos inimigos do povo.
É aí que a discussão deixa de ser apenas sobre jornada de trabalho e passa a ser sobre o próprio governo Lula. O governo se elegeu com a expectativa de melhorar a vida da população. Mas a política levada adiante até aqui não conseguiu produzir a mudança profunda de que o povo precisa. O governo ficou preso à política de colaboração com a burguesia, à submissão aos seus inimigos de classe, à tentativa de administrar o País junto com aqueles que não têm nenhum interesse em permitir que os trabalhadores conquistem melhores condições de vida.
A frente ampla é apresentada como uma necessidade, como um caminho para garantir governabilidade. Na prática, tornou-se uma camisa de força.
Não se pode falar seriamente em “próximo ciclo de conquistas sociais” sem dizer como esse ciclo será imposto contra os que bloqueiam as conquistas. E não se pode falar em continuidade de projeto como se houvesse um processo consistente de transformação em andamento. O que a experiência recente mostra é o contrário: quando o governo aceita governar com Simone Tebet, Alckmin e todos os representantes da conciliação com a direita, ele renuncia desde o início a levar até o fim uma política de confronto com os exploradores.
Como reduzir jornada de trabalho, elevar salários e melhorar a vida do povo sem enfrentar o Banco Central independente? Como falar em dignidade se os juros, o orçamento e a política econômica continuam submetidos aos interesses do capital financeiro? Como prometer “viver mais” se o trabalhador continua recebendo pouco, gastando horas no transporte, pagando caro por comida, aluguel, luz, gás e remédio? A vida concreta da população muda com medidas reais, com aumento efetivo do salário mínimo, com redução da jornada sem redução de salário, com revogação das reformas contra os trabalhadores, com emprego, direitos e investimento público.
O artigo de Guimarães procura conciliar o inconciliável. Fala em ampliar direitos, mas não denuncia a política que impede essa ampliação. Fala em progresso, mas não aponta os sabotadores do progresso.
A lição que deve ser tirada não é a de que basta insistir pacientemente nas instituições até que elas se sensibilizem. A lição é que sem romper com a burguesia não haverá mudança efetiva. Enquanto o governo tentar agradar ao mesmo tempo os trabalhadores e os capitalistas, quem vencerá serão os capitalistas, porque eles controlam os bancos, a imprensa burguesa, grande parte do Congresso, o mercado financeiro e os mecanismos de chantagem econômica.





