O artigo Que PT, para que Brasil?, de Emir Sader, publicado no Brasil 247 nesta sexta-feira (24), inicia com um parágrafo dizendo que “o PT realiza mais um Congresso na sua história” e pergunta “Qual o objetivo? De que forma este Congresso pode ajudar a superar os desafios que o Brasil tem pela frente?”.
Dificilmente esse congresso servirá para alguma coisa, pois os governos petistas estão acima do partido, o que é um defeito. Os vices de Lula, por exemplo, são imposições de cima para baixo, nunca a base escolheria um José Alencar, Michel Temer ou Geraldo Alckmin para vice.
Para se fazer um comparativo, o PCO (Partido da Causa Operária) tem 15 anos a menos que o PT, mas já fez 12 congressos, enquanto os petistas estão fazendo apenas o 8º.
A continuação, Sader elenca cinco tópicos para “saber se o partido está em condições de enfrentar esses desafios”:
1) o partido tem um projeto de futuro para o Brasil?
2) o partido tem quadros com capacidade de direção e de elaboração estratégica?
3) o partido tem um trabalho de formação de quadros sistemático, voltado para as novas gerações?
4) o partido tem enraizamento nas novas gerações de trabalhadores brasileiros?
5) o partido tem diálogo direto e amplo com a juventude atual no Brasil?
A primeira pergunta é bastante esdrúxula, pois o PT foi fundado 1980, são 46 anos somados a três mandatos de Lula e pouco mais de Dilma Rousseff, está bastante fora de hora fazer essa pergunta.
Quanto aos quadros dirigentes, o PT praticamente continua com os mesmos dirigentes e parece ser altamente dependente da figura de Lula. O que nos leva à terceira questão, pois não se vê o menor esforço para a formação de novos quadros. E um quadro não se forma apenas com cursos, mas com militância. Um dirigente político não é fabricado em laboratório, precisa ser forjado enfrentando os desafios diários da luta política.
Para a quarta questão, basta ver como tem se saído a CUT. O movimento sindical está acuado e não se vê novas lideranças surgindo ou atuando. A Central não se empenha, há anos, em fazer um 1º de Maio decente; chegando mesmo ao absurdo de fazer atos em conjunto com o peleguismo.
O PT, no quesito juventude, segue a tendência geral dos pontos anteriores, está basicamente paralisado. Não tem um diálogo amplo, mesmo porque não investe em comunicação apesar de ter um público cativo de 3 milhões de filiados.
A verdade é que o PT está mudando drasticamente de base social, e se tornando um partido de classe média.
Quarto mandato
Para Emir Sader, é provável que o Lula se eleja e tenha um quarto mandato e até mesmo que possa, como aconteceu no passado, eleger seu sucessor. Isto daria ao PT hoje o privilégio de ter um período longo no governo, que não pode ser desperdiçado. O que aconteceu com os outros mandatos, foram desperdiçados? O articulista precisa reconhecer que nenhuma mudança profunda foi alcançada pelo PT, tudo o que fizeram foi rapidamente desmantelado nas gestões de Michel Temer e Jair Bolsonaro.
Adiante, se lê que “para que isso não ocorra, é fundamental e urgente colocar em prática uma análise profunda da situação econômica, social, política e cultural do Brasil atual, a partir da qual se passe a propor um projeto estratégico de futuro para o Brasil”. Mas o que o PT tem feito no governo esse tempo todo? Esse texto de Emir Sader é quase uma confissão de que pouco foi feito. Projeto “estratégico de futuro” tem que ser apresentado no início.
“Mais além da resistência ao neoliberalismo, projetando um novo período histórico para o país”, escreve o articulista que acredita que “para isso, é essencial constituir um grupo de análise qualificado e enraizado na realidade do país, com perspectiva de futuro para o Brasil”.
Essa proposta é muito tímida. Até formar esse “grupo de análise”, tirar conclusões, etc., o bonde já passou. Em política não existe esse tempo para “parar e pensar” para depois agir. A correção de rumos tem que ser dinâmica, pensar e agir devem caminhar juntos.
Quando Sader afirma que é “indispensável o trabalho de restabelecer relações com a juventude, que vive hoje realidades e perspectivas muito diferentes daquelas que o partido conheceu no passado”, está admitindo que o PT falhou, ficou ultrapassado.
Em contrapartida, diz que “um Congresso que tenha um papel histórico no país precisa de um projeto de uma mídia pública qualificada e com dimensões de massa, que hoje falta à esquerda brasileira”. Não existe milagre, isso precisa ficar bem claro. Por qual motivo uma reunião partidária traria uma mudança de rumos? O que tem acontecido no PT que de algum modo sugira esse “projeto” será posto em prática?
Um “projeto” não é uma ideia genial, tem que ser fruto da atividade partidária que forçaria a tomada de determinados rumos. O PT, é preciso que se diga, está fazendo esse congresso porque teme pelo resultado das próximas eleições.
Admissão
Após falar que o PT precisa retomar seu contato com as massas, Emir Sader admite que “o PT não está, hoje, em condições de enfrentar os grandes desafios que o Brasil tem pela frente. Precisa de uma profunda e radical reforma das suas estruturas, de renovação dos quadros políticos, de melhor qualificação das análises teóricas e políticas”.
O problema do PT é que joga apenas o jogo da democracia burguesa, é um administrador da política econômica do grande capital, não enfrenta ninguém.
Esse negócio de “Lulinha paz e amor” é a maior derrota do Partido dos Trabalhadores, que só conseguiu autoridade política quando enfrentou o sistema, quando era radical.
Toda a autoridade política conquistada foi gasta durante os mandatos presidenciais, marcados pela conciliação.
O PT tem um programa? Não tem. Além disso, expulsou a esquerda para se apresentar como um partido limpinho e cheiroso diante da burguesia, eis o resultado.
Talvez Lula ganhe um quarto mandato, mas tem tudo para ser pior que o atual.





