Polêmica

Estado de ‘Israel’ não representa um povo

Artigo cínico de ex-diretor do Banco Central visa blindar a entidade sionista de críticas

O economista Daniel Gleizer, ex-diretor do Banco Central, publicou na Folha de S.Paulo mais uma defesa da tese picareta de que questionar a legitimidade do Estado de “Israel” seria antissemitismo. O argumento central do texto é falso. A crítica ao sionismo não é ataque aos judeus. O sionismo é uma ideologia política. O judaísmo, por seu turno, pode ser considerado uma religião, uma cultura e uma tradição histórica.

O problema de “Israel”, para aqueles que o criticam, não é sua população judaica. O problema é o fato de o Estado sionista ter sido fundado por meio da expulsão do povo palestino. Gleizer evita esse ponto. Ele trata a criação de “Israel” como se fosse apenas um processo normal de formação nacional. Não foi.

O que está em discussão não é se os judeus têm identidade, história ou ligação religiosa e cultural com a Palestina. O que está em discussão é se essa ligação autoriza a expulsão de outro povo. Não autoriza.

Ilan Pappe, em A limpeza étnica da Palestina, define o processo ocorrido em 1948 como limpeza étnica:

“Limpeza étnica é um esforço para tornar uma área geográfica etnicamente homogênea por meio do uso da força e da intimidação para expulsar pessoas de determinados grupos dessa área. […] É uma política bem definida de um grupo específico de pessoas para eliminar sistematicamente outro grupo de um território determinado com base em origem religiosa, étnica ou nacional. Essa política é ideológica e sua aplicação costuma estar vinculada a um território específico. Além disso, não é apenas um crime internacional; é um crime contra a humanidade, e aqueles que o executam são criminosos.”

Essa definição atinge diretamente a tese de Gleizer. O que ele chama de formação nacional comum foi, na realidade, uma política planejada de expulsão. A fundação de “Israel” não pode ser separada da destruição das aldeias palestinas, da expulsão em massa da população e da negação do direito de retorno.

Gleizer tenta apresentar a crítica a “Israel” como seletiva. Mas a questão não é aplicar a “Israel” um critério especial. A questão é reconhecer um fato: o Estado sionista foi construído sobre a expulsão de um povo que já vivia na Palestina.

O Plano Dalet é a prova central. Pappe afirma:

“O Plano Dalet foi o plano mestre para a limpeza étnica da Palestina. […] Pela primeira vez, era um plano que explicitava claramente o destino da população palestina: sua expulsão sistemática e forçada de sua terra natal. Era o projeto para a destruição do país. […] As ordens eram claras: ‘Os objetivos deste plano são os seguintes: tomar as posições e as linhas de comunicação do inimigo… e limpar a área de seus habitantes.’ A palavra hebraica usada para isso era ‘tihur’, que significa limpar ou purificar.”

Gleizer fala em identidade nacional. O Plano Dalet falava em “limpar” áreas de seus habitantes. Gleizer fala em legitimidade. As ordens militares falavam em expulsão. A criação de “Israel” não foi apenas um processo político; foi uma operação militar para alterar a composição demográfica da Palestina.

O argumento de que “Israel” não seria colonial porque não havia uma metrópole clássica também não se sustenta. O sionismo foi um movimento colonial de povoamento. Seu objetivo era estabelecer uma nova população politicamente dominante no lugar da população nativa.

Pappe resume esse ponto:

“O movimento sionista foi um movimento colonial de povoamento, semelhante aos movimentos de europeus que colonizaram as duas Américas, a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia. Esses movimentos eram motivados pelo desejo de encontrar uma nova pátria e escapar da perseguição, mas fizeram isso às custas de uma população nativa. A essência do projeto era simples: a maior quantidade possível de terra com o menor número possível de árabes. Esse foi o princípio orientador de David Ben-Gurion e de seu círculo de conselheiros — o ‘Consultivo’ — que se reuniam na Casa Vermelha, em Tel-Aviv, para decidir o destino de cada aldeia palestina.”

Esse é o ponto decisivo. Mesmo que muitos judeus buscassem fugir da perseguição, isso não dava ao movimento sionista o direito de expulsar os palestinos. A perseguição aos judeus na Europa foi real, mas não justifica a destruição nacional do povo palestino.

O objetivo do sionismo não era a convivência com os palestinos. Era obter o máximo de terra com o mínimo de árabes. Essa ideia aparece na política de expulsão, na destruição das aldeias e na recusa ao retorno dos refugiados.

Pappe descreve o método usado nas aldeias palestinas:

“Aldeia após aldeia, o mesmo padrão de destruição se repetia. A Hagana, e depois o Exército israelense, cercava uma aldeia por três lados, deixando uma abertura para que a população fugisse em pânico. Se permanecessem, eram expulsos à força das armas. Suas casas eram então explodidas ou incendiadas para garantir que nunca pudessem retornar. Ao fim de 1948, mais de 530 aldeias haviam sido apagadas do mapa e 800 mil pessoas haviam sido transformadas em refugiadas. Isso não foi um efeito colateral da guerra; foi o objetivo principal das operações militares do Estado judeu.”

Gleizer chama de antissemitismo a denúncia desse processo. Mas denunciar a expulsão dos palestinos não é atacar judeus. É atacar uma política colonial concreta. É atacar o Estado que nasceu dessa política.

O verdadeiro padrão duplo está no argumento de Gleizer. Todos os Estados podem ser criticados por seus crimes históricos. Todos os processos nacionais podem ser analisados, denunciados e condenados. Mas os defensores de “Israel” querem uma exceção: no caso do Estado sionista, questionar o crime de fundação seria antissemitismo.

Isso transforma a acusação de antissemitismo em instrumento de censura política. O objetivo é impedir que se discuta a origem colonial de “Israel”.

Pappe também responde diretamente a essa tentativa de confundir crítica ao sionismo com ataque ao judaísmo:

“O problema com Israel não é sua judeidade — o judaísmo tem muitas faces e muitas delas oferecem uma elaborada ética de paz e justiça. O problema é sua ideologia etnonacionalista. […] Enquanto permitirmos que essa ideologia seja protegida pela falsa acusação de antissemitismo, seremos cúmplices do sofrimento contínuo do povo palestino. A limpeza étnica de 1948 não é apenas um acontecimento passado; é um crime que continua hoje por meio da negação do Direito de Retorno e do deslocamento contínuo dos palestinos.”

Essa é a distinção fundamental. O problema não é o judaísmo. O problema é o sionismo. O problema não é a existência dos judeus como povo. O problema é a existência de um Estado fundado sobre a expulsão de outro povo e sustentado pela negação dos direitos nacionais dos palestinos.

Gleizer tenta transformar essa denúncia em discriminação. Mas a discriminação real foi contra os palestinos expulsos de suas casas, impedidos de retornar e tratados como obstáculo demográfico.

Questionar a legitimidade de um Estado fundado na limpeza étnica não é antissemitismo. É uma posição política legítima e necessária. O que Gleizer defende, na prática, é que “Israel” tenha imunidade histórica: seus crimes podem existir, mas não podem ser colocados em questão.

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