Parceria DCO-COTV

Plantão Irã denuncia acordo de Trump no Líbano

Programa diário analisou guerra contra o Irã, crise em Ormuz, fechamento de Babelmândebe e traição do governo libanês

Na edição desta sexta-feira (24), o Plantão Irã, programa diário inaugurado em 17 de março e transmitido às 16h no canal da Causa Operária TV (COTV), em parceria com o Diário Causa Operária (DCO), analisou os principais acontecimentos da guerra contra o Irã e seus desdobramentos no Líbano, no estreito de Ormuz e no mar Vermelho. A transmissão foi apresentada por Victor Assis, com participação de Pedro Burlamaqui, de Brasília.

Logo no início do programa, Burlamaqui destacou uma declaração de Mojtaba Khamenei, novo líder da Revolução Islâmica, segundo a qual a unidade do povo iraniano abriu uma fissura nas fileiras do inimigo. A declaração foi apresentada como resposta às afirmações de Donald Trump sobre uma suposta divisão interna no Irã entre “moderados” e “radicais”. Burlamaqui lembrou ainda a nota conjunta assinada pelo presidente Masoud Pezeshkian, pelo presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Ghalibaf, e pelos chefes dos Três Poderes, que afirmaram: “no Irã, não existem radicais nem moderados, somos todos iranianos e revolucionários sob o comando do líder”.

Assis afirmou que a posição do líder iraniano expressa a capacidade de resistência do povo diante da ofensiva do imperialismo. Para ele, a versão apresentada por Trump não corresponde à situação real do país.

“É exatamente o contrário do que apresenta o presidente norte-americano. Imagine o país sendo bombardeado por todo o seu território, sob sanção, sob chantagem, sob toda uma pressão da imprensa imperialista internacional. O que sustentaria esse país se não a unidade do povo, a disposição revolucionária de enfrentar o imperialismo? As palavras sábias do líder da Revolução Islâmica expressam justamente isso: um povo que vive uma revolução, um povo que não baixa a cabeça para o imperialismo”, afirmou.

O programa também abordou as negociações em torno do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos. Burlamaqui informou que o chanceler iraniano Abbas Araghchi chegou a Islamabade, capital do Paquistão, para consultas com o governo paquistanês, que atua como mediador das negociações entre o Irã e os Estados Unidos. Segundo ele, uma segunda rodada de conversas estava prevista para os dias seguintes, com a equipe norte-americana já instalada na capital paquistanesa.

A primeira rodada, realizada nos dias 11 e 12 de abril, terminou sem acordo. O Irã denunciou, na ocasião, uma postura inaceitável das autoridades norte-americanas, principalmente nas exigências feitas contra a República Islâmica. Araghchi também tinha visitas previstas a Omã e à Rússia, com o objetivo de ampliar as conversas diplomáticas para encerrar a agressão norte-americana e israelense.

Assis avaliou que a movimentação indica alguma disposição dos Estados Unidos para uma conversa, mas ressaltou que não há como prever o resultado das negociações diante da instabilidade do governo Trump.

“Do ponto de vista da correlação de forças no campo militar, no próprio campo político e econômico, a situação está relativamente bem definida. O Irã possui uma vantagem considerável, de modo que os termos que ele está apresentando são termos justos: o controle do estreito de Ormuz, que já está sob controle de fato pelo Irã; a manutenção do seu programa de mísseis; a manutenção do seu programa nuclear. Tudo isso o Irã tem direito do ponto de vista da autodeterminação iraniana, e as condições da guerra assim permitem. Os Estados Unidos não estão em condições de exigir nada”, declarou.

O comentarista destacou ainda que a escolha do Paquistão, de Omã e da Rússia como pontos das negociações mostra uma mudança importante na relação de forças. Segundo Assis, os Estados Unidos e seus aliados imperialistas perderam a posição de mediadores exclusivos dos conflitos na região.

“Antigamente, os Estados Unidos é que tinham uma posição de mediador. Os Estados Unidos e seus sócios imperialistas. Aqui não. Aqui a gente tem um país relativamente neutro nessa situação, com vários compromissos tanto com o imperialismo norte-americano quanto com a República Islâmica, com a população muçulmana do Oriente Médio, que é o caso do Paquistão; um governo que está tendo uma posição de equilíbrio, mas neste momento uma posição mais pró-Irã, que é Omã; e também a Rússia, um país que indiscutivelmente está favorável ao Irã. Isso mostra que, para haver um acordo, o Irã não está tendo que se humilhar e viajar até a Casa Branca”, disse.

Outro ponto destacado foi a decisão da Somália de proibir a passagem de embarcações israelenses pelo estreito de Babelmândebe. A medida foi apresentada como resposta ao reconhecimento, por parte de “Israel”, da Somalilândia, região separatista da Somália. O reconhecimento da região pela entidade sionista foi condenado até mesmo pelo Conselho de Segurança da ONU.

Burlamaqui lembrou que a decisão somaliana ocorre em uma área estratégica para o comércio marítimo internacional e para a pressão sobre “Israel”, especialmente diante da atuação do Iêmen e do Ansar Alá no mar Vermelho. Assis avaliou que a medida aprofunda o desgaste da entidade sionista.

“Quando você chega ao ponto de um país como a Somália, um país extremamente secundário na política internacional, estar enfrentando ‘Israel’, significa que a Somália não teme as consequências, as retaliações que poderiam vir por parte do sionismo e do imperialismo”, afirmou.

Segundo Assis, a pressão das populações árabes e muçulmanas impede que governos reacionários da região atuem livremente ao lado dos Estados Unidos e de “Israel”. Ele citou como exemplo o Egito e a Arábia Saudita, que, apesar de seus regimes ligados ao imperialismo, enfrentam enorme pressão popular em defesa da causa palestina e contra a agressão ao Irã.

“Há uma tendência à unificação da população daquela região, que faz com que, por exemplo, o Egito, que é uma ditadura militar pró-imperialista, não tenha intervindo nesta guerra, o que seria natural. O imperialismo está com dificuldade, normal seria o Egito ir lá e apoiar os esforços norte-americanos contra o Irã. Mas ele não faz isso porque a pressão da população contra o seu governo é muito grande, o apoio ao Irã e à causa palestina é muito grande”, explicou.

Antes de entrar no assunto principal do programa, Burlamaqui apresentou dados sobre a capacidade militar iraniana. Segundo informações citadas na transmissão, com base em avaliações vazadas do próprio Pentágono, o Irã mantinha cerca de 50% de seu arsenal de mísseis balísticos intacto desde o início do cessar-fogo. Além disso, 60% da Marinha do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) permanecia operacional, assim como dois terços da Força Aérea iraniana.

Os dados contradizem as declarações de Trump, que havia afirmado que os Estados Unidos tinham aniquilado a capacidade militar do Irã. O programa também destacou que parlamentares e comandantes do CGRI negaram as afirmações norte-americanas de que as instalações subterrâneas de mísseis iranianas, conhecidas como “cidades de mísseis”, foram destruídas.

Para Assis, os dados mostram não apenas a força militar iraniana, mas também o fracasso militar do imperialismo.

“É um fracasso militar gigantesco. Esse dado vai ter um efeito político, naturalmente, porque mais uma vez apresenta o presidente dos Estados Unidos como um mentiroso. Isso pode causar impacto no seu próprio eleitorado. Esse tipo de dado coloca ainda mais lenha na fogueira, porque a população vai se sentir enganada. Além da população norte-americana, isso gera uma sensação de desmoralização geral. Todos os países que têm interesse nessa guerra vão ter mais clareza do que efetivamente está acontecendo”, afirmou.

O assunto principal da edição foi o Líbano. Burlamaqui lembrou que Trump anunciou a extensão do cessar-fogo entre Líbano e “Israel” por três semanas, após reunião na Casa Branca com representantes norte-americanos, libaneses e israelenses. O acordo inicial previa uma trégua de 10 dias. No entanto, como lembrou o programa, a ocupação sionista continuou os ataques ao sul do Líbano, atingindo posições militares e infraestrutura civil.

Burlamaqui citou uma declaração do parlamentar Mohammad Raad, do Hesbolá, que rejeitou as conversas entre o governo libanês e “Israel” e denunciou o caráter fraudulento do cessar-fogo.

“Qualquer suposto cessar-fogo que conceda ao inimigo ocupante no Líbano uma exceção especial para abrir fogo ou realizar qualquer movimento ou ação em campos, em zonas de confronto e dentro do território libanês, seja para fortificar uma posição, plantar explosivos, realizar um assassinato, destruir uma casa ou uma instalação, arrasar um terreno ou atos semelhantes, não é um cessar-fogo de fato”, afirmou Raad.

Assis classificou o acordo como uma traição do governo libanês contra seu próprio povo. Segundo ele, não se trata de uma guerra entre o Estado libanês e “Israel”, mas entre a entidade sionista e a resistência libanesa, em especial o Hesbolá. O comentarista comparou a situação à Palestina, onde a Autoridade Palestina colaborou em vários momentos com a repressão contra a resistência.

“O Líbano vive uma situação muito parecida, porque o governo libanês não apenas não colocou o seu aparato militar estatal para combater o Estado de ‘Israel’, como desde o primeiro momento vem procurando apresentar as agressões criminosas de ‘Israel’ contra a população libanesa como uma consequência da ação, digamos assim, irresponsável por parte do Hesbolá. O que o governo esquece de falar, naturalmente, é que durante 15 meses o Hesbolá obedeceu rigorosamente a todo o acordo de cessar-fogo estabelecido no final de 2024, enquanto o Estado de ‘Israel’ violou por mais de 1.500 vezes esse acordo”, afirmou.

Para Assis, a participação direta da Casa Branca nas negociações mostra o deslocamento do regime libanês para uma posição pró-imperialista. Ele apontou que o acordo foi anunciado por Trump no Salão Oval e que o presidente norte-americano manifestou desejo de se reunir com o presidente libanês, Joseph Aoun.

“Esse acordo mostra claramente um deslocamento do Estado libanês, do regime libanês, para uma posição profundamente reacionária e pró-imperialista. O presidente do Líbano não está apenas sendo traiçoeiro com o Hesbolá, ele está traindo todo o povo libanês. Na medida em que faz esse tipo de acordo, em primeiro lugar, está desarmando a população libanesa, porque reconhece uma mediação sem o Hesbolá como uma mediação válida, uma mediação em que os próprios atores, incluindo Donald Trump, exigem o desarmamento do Hesbolá”, declarou.

Burlamaqui recordou ainda o acordo de 17 de maio de 1983, firmado entre o Líbano e “Israel” com intermediação do governo de Ronald Reagan, após a invasão israelense do Líbano em 1982. O acordo previa a retirada das tropas israelenses, o fim do estado de guerra, a criação de uma zona de segurança e o estabelecimento de relações políticas e comerciais entre os dois países. Na prática, “Israel” não cumpriu o acordo, manteve sua ocupação e seguiu atacando o povo libanês.

Assis afirmou que o plano israelense atual é semelhante ao da década de 1980: fingir buscar a paz para enfraquecer o adversário e preparar novas agressões. A diferença, segundo ele, está na força acumulada pelo Hesbolá.

“Do ponto de vista de ‘Israel’, o plano é semelhante: fingir que era paz para tornar o adversário mais desarmado e assim poder investir com mais violência. Mas a situação do ponto de vista da resistência libanesa é muito diferente, porque você tem no Líbano uma organização que coleciona vitórias contra o Estado de ‘Israel’. O Hesbolá foi se fortalecendo cada vez mais e ganhando cada vez mais apoio popular”, afirmou.

Segundo Assis, o Hesbolá se consolidou como a principal força de defesa do Líbano contra a entidade sionista. Ele lembrou que a organização expulsou as tropas israelenses no início do século e impediu novos avanços da invasão israelense em 2024.

“Mesmo tendo um apelo maior a uma parte da população libanesa, ele vem se apresentando como o grande defensor do Líbano de conjunto. O Hesbolá conseguiu expulsar as forças israelenses do Líbano no início deste milênio e também em 2024, quando ‘Israel’ tentou invadir o Líbano, o Hesbolá impediu que as tropas israelenses tivessem sucesso. Com a existência do Hesbolá, torna-se tudo muito mais complicado do ponto de vista da ação militar israelense”, disse.

Na parte final do programa, Burlamaqui trouxe a notícia da demissão do secretário da Marinha dos Estados Unidos, John Phelan, anunciada por Trump na noite de quinta-feira. Segundo o presidente norte-americano, a demissão ocorreu em razão de conflitos sobre a construção e a compra de novos navios. O tema foi relacionado à crise militar norte-americana no estreito de Ormuz.

Assis avaliou que a Marinha norte-americana é, neste momento, um dos principais pontos de crise no aparato militar dos Estados Unidos. O impasse se concentra na incapacidade dos Estados Unidos de romper o controle iraniano sobre Ormuz e de garantir a circulação marítima nos termos exigidos por Trump.

“Possivelmente, das três Forças Armadas, a Marinha seja o principal foco de crise. O grande impasse militar está na questão de Ormuz. Trump estabeleceu o inédito bloqueio do bloqueio, uma coisa muito desmoralizante para a Marinha norte-americana. Porque a Marinha norte-americana vai aparecer como muito incompetente. Trump chega lá e diz: o Irã não vai poder trafegar com nenhum navio. Aí o Irã passa pelo navio norte-americano, e a Marinha aparece como uma marinha inútil”, afirmou.

Burlamaqui acrescentou que, segundo informações atribuídas ao Pentágono em sessão confidencial do Comitê de Serviços Armados da Câmara dos Estados Unidos, seriam necessários seis meses para limpar as minas colocadas no estreito de Ormuz. Para Assis, esse dado reforça a hipótese de que setores do próprio aparato de Estado norte-americano têm interesse em constranger publicamente Trump.

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