Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), afirmou, nesta quinta-feira (23), durante o programa Análise Internacional, do Diário Causa Operária no YouTube, que o imperialismo está em uma corrida geral para a guerra. O programa, que vai ao ar às quintas-feiras, às 12h30, em parceria com o canal Arte da Guerra, analisou a situação da guerra na Ucrânia, a preparação militar da Europa, o impasse dos Estados Unidos diante do Irã, a crise do sionismo e a reação de Rússia e China à pressão imperialista.
O primeiro tema discutido foi a situação da Ucrânia. João Pimenta citou informações de que os ucranianos estão evitando chamar a polícia por medo de serem levados para o recrutamento obrigatório. O comandante Robinson Farinazzo, também participante do programa, afirmou que a Ucrânia enfrenta um “problema crônico de falta de pessoal”, embora tenha recebido apoio militar e industrial do Reino Unido e da Alemanha.
Pimenta destacou que o problema do recrutamento forçado já dura mais de um ano e mostra que a guerra é mantida contra os interesses da população ucraniana.
“Essa falta de recrutamento na Ucrânia já vem de mais de um ano. Isso aí mostra que, na realidade, a guerra é mantida artificialmente contra a população da Ucrânia. O Vladimir Zelensqui já venceu o mandato dele, não chamou novas eleições, então fica caracterizado acima de qualquer dúvida que nós estamos diante de uma ditadura. É a única maneira do imperialismo levar adiante a guerra contra a Rússia. Mantém essa ditadura, não há dúvida nenhuma. E a coisa está chegando num ponto em que está ficando absolutamente insustentável.”
Segundo Pimenta, a Rússia adotou uma política mais gradual na guerra, não apenas por razões militares, mas também políticas. Para ele, os russos observam a desagregação do regime ucraniano, enquanto avançam no terreno militar.
A discussão avançou para o rearmamento da Alemanha e de outros países europeus. O presidente do PCO afirmou que a Alemanha aparece em destaque, mas não é um caso isolado. Segundo ele, há uma política geral dos países imperialistas europeus de ampliação dos gastos militares.
“Nós temos que considerar o seguinte. A Alemanha se destaca no cenário da corrida armamentista, mas ela está muito longe de ser o único país que está se armando. Há uma tendência geral na União Europeia ao aumento dos gastos militares em todos os países. É uma orientação de conjunto do imperialismo britânico, francês, alemão. Uma coisa da qual a gente pode tirar uma conclusão relativamente tranquila é que, se há uma corrida para o aumento dos armamentos, os países imperialistas estão se preparando para a guerra. E não é uma guerra defensiva.”
Pimenta rejeitou a justificativa apresentada pelos governos europeus de que a preparação militar seria uma resposta a uma suposta ameaça russa contra a Europa. Para ele, trata-se de uma guerra ofensiva contra a Rússia.
“Eles querem apresentar que eles estão se organizando para se defender da Rússia, que a Rússia iria invadir a Europa. Uma coisa totalmente sem nenhuma coerência, nenhuma realidade. O que eles estão preparando é uma guerra ofensiva contra os russos. E é uma guerra do imperialismo todo contra a Rússia.”
O dirigente também relacionou esse processo ao rearmamento do Japão e ao armamento da Austrália, país que classificou como subordinado ao imperialismo norte-americano. “O que nós estamos assistindo aqui é uma corrida para a guerra”, afirmou. Segundo Pimenta, a tentativa de guerra contra o Irã é parte desse mesmo processo.
Na sequência, o programa analisou a aprovação de um empréstimo de 100 bilhões de euros da União Europeia para financiar a Ucrânia. Para Pimenta, a política atual da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) é usar os ucranianos como bucha de canhão. No entanto, ele avaliou que, diante de uma queda do regime de Zelensqui, os países europeus podem intervir de modo mais aberto.
“É evidente que, no momento, a política da OTAN é usar os ucranianos como bucha de canhão. Agora, nada exclui que diante de um colapso do regime político na Ucrânia, os países europeus entrem de maneira mais ostensiva. Não sei se eles vão declarar guerra contra a Rússia, não sei se eles vão entrar numa guerra aberta, mas me parece que eles não estão dispostos a ceder terreno no que diz respeito à Ucrânia. Agora, não estar disposto e conseguir são duas coisas diferentes.”
Outro ponto central do programa foi a guerra contra o Irã. Pimenta afirmou que os Estados Unidos entraram em um impasse depois de perceber que não conseguiriam impor uma derrota rápida ao país persa. Segundo ele, Donald Trump tenta administrar a situação porque percebeu que a ofensiva se transformou em uma armadilha política.
“Os Estados Unidos, nessa guerra contra o Irã, caíram numa situação de impasse total. Eles começaram uma guerra com vistas até a um desenlace rápido. Perceberam que esse desenlace rápido estava fora de cogitação, que só uma guerra de grandes proporções, e olhe lá, isso ainda seria uma coisa assim para fazer muita especulação, teria que ser uma operação militar em larguíssima escala para impor uma derrota ao Irã. E agora eles não sabem como recuar.”
Pimenta afirmou que o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã e a resposta dos Estados Unidos fazem parte de um jogo de pressão sem solução imediata. Para ele, Trump “caiu numa verdadeira armadilha política”, o que pode custar caro ao governo norte-americano.
Questionado sobre a posição dos jovens diante de guerras promovidas por Estados burgueses, Pimenta afirmou que é necessário distinguir a natureza da guerra. Segundo ele, no caso do Irã, a deserção ajudaria o imperialismo, pois se trata de uma guerra contra um país oprimido.
“Depende da guerra. Há guerras e guerras. O Estado iraniano é um Estado burguês, não um Estado operário. A deserção lá significaria uma ajuda ao imperialismo. Agora, a guerra que os Estados Unidos levam adiante contra o Irã é uma guerra do imperialismo contra um país oprimido. Então, nessa guerra aí, a deserção seria legítima. Seria uma luta contra o imperialismo.”
O papel de “Israel” na guerra também foi analisado. Pimenta afirmou que o desenvolvimento dos acontecimentos desmentiu a tese de que o sionismo comandaria a política externa norte-americana. Para ele, “Israel” foi reduzido à sua real função na região: a de cão de guarda do imperialismo.
“Essa guerra aqui mostrou o declínio desse papel do sionismo na região. A entrada dos Estados Unidos para socorrer o regime israelense mostra que é um regime que já não dá conta de policiar, patrulhar, de servir como polícia política do Oriente Médio. O crescimento do poderio iraniano praticamente destruiu esse poder do Estado sionista. Quer dizer, quando você tem um policial lá que precisa policiar a região, mas o policial precisa de ajuda, então quer dizer que o policiamento fracassou.”
Pimenta também afirmou que o governo Trump entrou em crise com setores de sua própria base. Segundo ele, uma parte importante da campanha de Trump foi apresentada como oposição às guerras em que a juventude norte-americana morre “a troco de nada”. Ao apoiar a guerra contra o Irã, Trump passou a repetir a mesma justificativa usada pelo Partido Democrata e pelo governo Bush contra o Iraque: a alegação de que o país atacado estaria tentando fabricar uma bomba atômica.
O presidente do PCO também analisou a ajuda da Rússia e da China a Cuba, após a intensificação do bloqueio norte-americano. O programa citou o envio de um navio petroleiro russo a Havana e a entrega de painéis solares chineses ao país caribenho. Para Pimenta, essas ações indicam uma política mais ativa diante da pressão imperialista.
“Os russos e os chineses têm adotado uma política mais ativa em relação à pressão imperialista. Nós vimos aí no caso de Gaza que eles criticaram verbalmente o que estava acontecendo, mas não fizeram nada significativo, nada de prático. Agora, com o avanço da agressividade do imperialismo contra a Venezuela, contra Cuba, contra o Irã, eu acredito que houve uma mudança na política dos dois países.”
Segundo Pimenta, essa mudança decorre do grau de ameaça representado pela política imperialista. Ele afirmou que Rússia e China procuram evitar um confronto militar aberto, mas foram levadas a dar passos mais firmes diante da ofensiva dos Estados Unidos e de seus aliados.
Ao tratar da China, Pimenta criticou duramente a tese de que haveria um “imperialismo chinês”. Segundo ele, essa posição foi criada pela direita e acabou sendo adotada por setores da esquerda brasileira. Para o dirigente do PCO, colocar China e Estados Unidos no mesmo plano serve para encobrir o imperialismo real.
“Com relação a essa história do imperialismo chinês, isso daí é uma coisa interessante. Primeiro que o imperialismo chinês é uma fábula que foi criada pela direita. A direita e a extrema direita que, no Brasil, criaram o imperialismo chinês. Isso é absurdo. Por que um partido político no Brasil vai se colocar como orientação política a combater o imperialismo chinês, uma vez que o Brasil é totalmente dominado pelo imperialismo de carne e osso, que é o imperialismo norte-americano, europeu e japonês?”
Pimenta afirmou que a China não domina o Brasil. Segundo ele, vender mercadorias não equivale a dominar um país. A dominação imperialista, explicou, passa pelo controle das instituições políticas, econômicas, militares e diplomáticas.
“Os chineses não controlam o mercado financeiro brasileiro. Eles não têm um controle sobre as alavancas essenciais da economia. Essa é uma ficção. Vender mercadoria não quer dizer nada. Imperialismo não é venda de mercadorias. Imperialismo é uma dominação do mercado mundial. E quem domina o mercado mundial não é a China. São os países europeus, o imperialismo norte-americano e seus associados japoneses.”
O dirigente citou o controle do imperialismo sobre o Itamaraty, a Polícia Federal, o Judiciário e o Congresso Nacional como exemplos da dominação real exercida pelos Estados Unidos no Brasil. “O poder do imperialismo no Brasil transforma o Brasil numa colônia política”, afirmou.
O programa também tratou da Venezuela. Pimenta comentou a declaração do vice-presidente Geraldo Alckmin sobre a possível rediscussão da suspensão venezuelana no Mercosul. Para o presidente do PCO, o fato de o Brasil só se movimentar após Donald Trump aliviar parte das sanções contra a Venezuela mostra o caráter semicolonial do País.
“Como o Trump levantou uma parte das sanções contra a Venezuela, as colônias agora da América do Sul se sentem autorizadas a se relacionar com a Venezuela. É vergonhoso. Isso aí mostra o status semicolonial do Brasil. Se amanhã um governo norte-americano voltar com as sanções, o Brasil tem que obedecer ao grande país metropolitano do norte. É muito vergonhoso isso.”
Ao comentar o sequestro do presidente Nicolás Maduro, Pimenta afirmou que a ação imperialista pode ser equiparada a uma tentativa de golpe de Estado. Segundo ele, no entanto, a Venezuela não depende apenas da figura de Maduro, pois há uma ampla organização social, política e militar do chavismo no país.
“A ação militar do imperialismo pode ser equiparada a uma tentativa de golpe de Estado. O único problema é que eles removeram a cabeça do regime político, mas não removeram o regime político. Nós temos que lembrar que na Venezuela nós temos aí uma enorme organização social e política e militar do chavismo. Não é sequestrando o Maduro que tudo isso vai por água abaixo.”




