O artigo A crise da hegemonia norte-americana, de Emir Sader, publicado no Brasil 247 nesta quarta-feira (22), busca fazer uma análise da crise dos Estados Unidos.
No primeiro parágrafo, Sader afirma que “o século XX foi, inquestionavelmente, um século norte-americano. Quando os Estados Unidos se deram conta de que a Alemanha tendia a ganhar a Primeira Guerra Mundial, intervieram e, com a participação também da União Soviética, derrotaram a Alemanha”. Deve haver uma confusão aí, pois a URSS passou a existir a partir de 1922, com o fim da guerra civil, enquanto a I Guerra ocorreu de 1914 a 1918. Vamos considerar que o autor estivesse com a II Guerra em mente.
Os EUA não entraram na guerra porque sentiram que a Alemanha poderia vencer, mas porque ainda sentia os efeitos da crise de 1929. Leon Trótski, em seu livro A Revolução Traída (1936) e também em ensaios como A Alemanha, Chave da Situação Internacional, descreve um quadro impressionante sobre a guerra que pode parecer profético, mas que é fruto da análise marxista, do materialismo dialético.
Trótski argumentava que os EUA haviam atingido o patamar mais alto de desenvolvimento técnico e industrial da história do capitalismo.
Enquanto a Alemanha nazista precisava de uma economia de guerra baseada na coerção e na autarquia (tentativa de autossuficiência), os EUA possuíam uma base industrial orgânica e continental de ordem de magnitude superior.
Para a maioria dos analistas, em meados da década de trinta, que viam o dinamismo militar da Alemanha e o crescimento da URSS como os novos polos de poder, Trótski afirmava que, no momento em que o capital norte-americano fosse forçado a se converter para a produção bélica, a Alemanha seria esmagada pelo peso industrial dos EUA.
A Alemanha, para Trótski, era uma potência industrial enclausurada em fronteiras estreitas e sem acesso fácil a matérias-primas essenciais. Seu rearmamento era um vôo cego que levaria inevitavelmente à guerra para evitar o colapso interno. Em um conflito de exaustão contra os EUA, a Alemanha não teria fôlego econômico para competir.
Em A Revolução Traída, no capítulo sobre a produtividade do trabalho, Trótski faz uma comparação direta entre os sistemas. Ele avisa que, mesmo que a URSS estivesse crescendo, ela ainda estava longe dos EUA. Mas o recado para Berlim era claro: o regime de Hitler era uma tentativa desesperada de salvar o capitalismo alemão, enquanto os EUA representavam a força bruta e madura desse mesmo sistema.
Trótski chegou a dizer que, em caso de guerra, a superioridade norte-americana forçaria até mesmo seus aliados e inimigos a adotarem métodos norte-americanos de produção (o que de fato aconteceu com o Fordismo sendo levado ao limite no esforço de guerra).
Essa análise se provou extremamente precisa. Quando os EUA entraram na II Guerra Mundial em 1941, sua capacidade de lançar navios e aviões em uma linha de montagem quase infinita foi, de fato, o fator que tornou a vitória do Eixo materialmente impossível a longo prazo.
Temos aí uma descrição muito precisa de como os Estados Unidos “organizaram o campo do Ocidente sob sua direção e foram a força hegemônica determinante ao longo de todo o século”.
Teoria dos campos
Sader é adepto da “bipolaridade” da Guerra Fria, com se o mundo estivesse tensionado entre duas forças: o bloco capitalista de um lado, e o socialista do outro. No entanto, essa é uma visão antimarxista.
Adiante, Emir Sader escreve que “o fim da URSS e do campo socialista levou ao fim da Guerra Fria, como ela tinha existido desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos acreditaram que voltariam a ser a única superpotência, como a Inglaterra havia sido durante quase todo o século XIX”. Na verdade, o fim da União Soviética acelerou o avanço da OTAN em direção ao Leste, cercando cada vez mais a Rússia.
Dando um salto na história, o articulista diz que “de repente, surgiu o fenômeno mais importante, até aqui, do século XXI: os BRICS. Pela primeira vez, a aliança entre o poderio militar da Rússia e a força econômica da China, à qual se somaram a capacidade de articulação do Brasil do Lula, vários países petroleiros, antes aliados dos Estados Unidos, e uma cada vez mais longa lista de países que querem ingressar nos BRICS”.
Muita coisa aconteceu até a aparição do BRICS, para quem quer entender o declínio americano. Houve a derrota no Vietnã, a crise do petróleo em 1974, a adoção do neoliberalismo a partir do governo Reagan com crescente desindustrialização.
Houve ainda as derrotas no Iraque e no Afeganistão.
Além disso, a Arábia Saudita e o Egito continuam aliados dos EUA, o Irã está sendo atacado com uma guerra de agressão e o Brasil de Lula anda com posições para lá de ambíguas no BRICS, como a recusa da entrada da Venezuela.
Não se pode afirmar que o novo bloco econômico foi “o fenômeno mais determinante para definir o processo de crise da hegemonia norte-americana”, muito menos que se “restaurava um mundo bipolar”.
Ideologia e crise
Para Sader, “sobrevive ainda, como elemento de maior força da declinante hegemonia norte-americana, o ‘modo de vida norte-americano’, o que eles chamam de ‘American way of life’, por meio da multiplicação dos shopping centers e do seu universo onde tudo é mercadoria, tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra”.
Honestamente, o American way of life não sobrevive nem nos Estados Unidos. Antes mesmo dos movimentos de Contracultura, como o da Geração Beatnik, John Steinbeck, em seu livro Sobre Ratos e Homens, já havia dissecado e exposto as entranhas dessa miragem.
A crise da hegemonia imperialista começou a ganhar contornos dramáticos com a derrota para o Talibã no Afeganistão e a operação militar especial da Rússia na Ucrânia.
Hoje, com a resistência do Irã diante dos ataques combinados de EUA-“Israel” e países da UE, além da Austrália, temos assistido uma nova etapa de aprofundamento da crise.





